Vargeão é um minúsculo município do oeste catarinense com uma população que não chega a 4 mil pessoas, mas caiu nas graças da poderosa Nestlé, o maior hub de alimentos do mundo. À beira da BR-282 e a poucos quilômetros de grandes agroindústrias, como a Aurora Coop, com forte presença em Chapecó e Concórdia, e a Seara, do grupo JBS, onde estão unidades de abates de suínos e frangos, o município pode se tornar uma mina de ouro para a empresa suíça.
Em Vargeão, a Nestlé inaugurou na tarde desta terça-feira (3), a sua maior fábrica de alimentos pet a partir de um investimento de R$ 2,5 bilhões em infraestrutura já encaminhada para dobrar de tamanho nos próximos anos.
“É da combinação entre prioridade global e potencial local que nasce esta fábrica”, disse Marcelo Melchior, presidente da Nestlé Brasil. A nova unidade quase dobra a capacidade de produção de alimentos úmidos para cães e gatos, complementa a operação de Ribeirão Preto (SP) e amplia a competitividade e o papel exportador do Brasil, que já atende o Chile e avançará para outros mercados latino-americanos até a virada do ano, entre eles Colômbia e México.
“O Brasil é o terceiro maior mercado da Nestlé no mundo.” A afirmação de Melchior dimensiona o peso estratégico do país. Segundo o executivo, a empresa fatura no país 4 bilhões de francos suíços, cerca de US$ 5 bilhões, o equivalente a R$ 30 bilhões. Para ele, o desempenho mostra a força das marcas e a capacidade da operação brasileira de sustentar o crescimento global.
“A categoria de Pet Care tem papel central na nossa estratégia.” Globalmente entre os quatro negócios prioritários da companhia, é uma área liderada por Purina e marcas como Pro Plan, Dog Chow e Friskies. Em 2025, o segmento avançou em participação de mercado nas Américas, com contribuição relevante do Brasil, terceiro maior mercado pet do mundo, com cerca de 150 milhões de animais.
“A inauguração dessa fábrica representa muito mais do que o início de uma nova operação industrial”, afirma Rodrigo Maigué, diretor-executivo da Nestlé Purina Brasil. Para ele, a nova unidade em Vargeão simboliza a confiança da companhia no mercado brasileiro e a convicção de que o país seguirá como um dos principais motores de crescimento do segmento pet na América Latina.
“O Brasil vive uma transformação profunda na forma como as pessoas se relacionam com seus pets.” Os animais ocupam espaço central nas famílias e isso se traduz em números. O mercado pet brasileiro movimenta cerca de R$ 77 bilhões, considerando saúde, bem-estar, acessórios e alimentação. Mais da metade desse total vem da nutrição, área em que a Purina atua. O país concentra aproximadamente metade do volume de pets da América Latina.
Mercado de animais de companhia no país
Quando o recorte é feito apenas para cães e gatos, público da companhia, o Brasil possui cerca de 110 milhões de animais, sendo 70% cães e 30% gatos.
“Já temos mais que o dobro de pets do que crianças abaixo de 14 anos”, afirma ele. Enquanto o país tem cerca de 40 milhões de crianças nessa faixa etária, o contingente de animais de estimação supera os 100 milhões. Os gatos lideram o crescimento recente, impulsionados pela urbanização e pelo perfil de famílias que buscam praticidade. Entre os cães, as raças de pequeno porte avançam com mais força.
“A pandemia acelerou a adoção de pets e fortaleceu o vínculo emocional”, diz Maigué. Segundo Marcelo Melchior, o resultado é um mercado de pet food que cresce a taxas médias anuais de dois dígitos, acima de 10% ao ano, com destaque para categorias de maior valor agregado, como alimentos úmidos.
“É um mercado de luxo da alimentação e um setor em franco crescimento”, diz Melchior. “Sim, passar do alimento seco para o úmido representou um salto, porque os úmidos também são alimentos completos.” Vale registrar que nesse mercado de luxo dos sachês, os produtos de prateleira começam em cerca de R$ 3 por unidade e podem passar de R$ 15 a porção.
Espaço para o mercado de ração para pets
Para Maigué, há espaço relevante para expansão, levando produtos com padrão nutricional elevado a mais lares. “O Brasil ainda tem menos da metade dos pets consumindo alimentos industrializados com nutrição balanceada”, diz ele.
Não por acaso, a fábrica nasce dentro do conceito de indústria 4.0, com robôs nas etapas de envase e embalagem, aplicações de internet das coisas, centro de operações integradas e rastreabilidade digital, sem uso de papel. “Isso aumenta a eficiência e garante níveis elevados de qualidade.”
A unidade também incorpora tecnologia proprietária capaz de criar texturas semelhantes às fibras de carne, ampliando a palatabilidade dos produtos elaborados com proteínas como frango, suíno, bovino, cordeiro, atum e salmão.
A unidade também dispõe de energia 100% renovável, térmica e elétrica, com biomassa, sistemas eficientes de água, tratamento avançado de efluentes e operação sem envio de resíduos para aterro. “Essa fábrica é uma plataforma para o crescimento sustentável da Purina no Brasil e na América Latina pelos próximos anos.”