O lançamento surpresa do freestyle “Sag Harbor”, de Tyler, The Creator, no dia de Natal, foi uma clara volta de vitória após seu triunfante 2025. Na faixa de quatro minutos, Tyler fala sobre comprar propriedades nos Hamptons, transformar seus ídolos em rivais e tentar conseguir um contrato musical de US$ 100 milhões (R$ 550 milhões). “I’m on the road to doing stadiums next”, ele rima. “But y’all keep counting me out, like what’s the cheat code?”
Esse nível de sucesso é uma realidade relativamente nova para o músico, produtor e empreendedor da moda de 34 anos, que no início da carreira foi rotulado como um artista “cult” por causa da pequena — porém extremamente fervorosa — base de fãs que desenvolveu logo fora do mainstream do hip-hop. Depois de vender cerca de US$ 175 milhões (R$ 962,5 milhões) em ingressos para mais de 90 arenas com ingressos esgotados na América do Norte, Europa e Ásia enquanto fazia turnê com o álbum Chromakopia, lançado no fim de 2024, ao longo do último ano Tyler se tornou um dos maiores artistas do mundo.
O artista ainda marca passagem pela América Latina como um dos headliners do festival de música Lollapalooza na Argentina, Chile e Brasil. Em território brasileiro, o artista se apresenta no último dia de festival no domingo, dia 22/03. Além de Tyler, The Creator, outros grandes nomes comoLorde e Djo também fazem show no Autódromo de Interlagos, em São Paulo.
No meio da turnê mundial no último ano, ele lançou ainda uma mixtape adicional, Don’t Tap The Glass, que também alcançou o primeiro lugar na parada da Billboard. Seus dois álbuns foram indicados ao Grammy — Don’t Tap The Glass para Melhor Álbum de Música Alternativa, Chromakopia para Melhor Álbum de Rap, Melhor Capa de Álbum e, pela primeira vez em sua carreira, Álbum do Ano. No final da noite, artista levou como Melhor Capa de Álbum. E, em novembro passado, a Apple Music o nomeou Artista do Ano.
Somente com sua música, a Forbes estima que Tyler ganhou US$ 53 milhões (R$ 291,5 milhões) antes de impostos e taxas em 2025, colocando-o na 13ª posição da lista dos músicos mais bem pagos do mundo. E isso não inclui seus outros empreendimentos empresariais, como a marca de roupas Golf Wang e seu festival musical Camp Flog Gnaw Carnival, nem seu papel coadjuvante no filme Marty Supreme, estrelado por Timothée Chalamet, com nove indicações ao Academy Awards, incluindo Melhor Filme.
Assim como Tyler superou o rótulo de “cult”, toda a indústria da música evoluiu nesse sentido. Hoje, todo artista busca criar momentos virais e estabelecer conexões pessoais com seus fãs. Seja Beyoncé lançando um álbum surpresa ou Taylor Swift escondendo “Easter eggs” em suas letras, até os maiores artistas tentam desenvolver uma base de fãs com fervor quase cult.
“O termo, quando começou a ser usado, descrevia pessoas que realmente estavam fazendo algo diferente”, diz Dan Runcie, fundador do grupo de pesquisa focado em hip-hop Trapital. “Agora isso virou praticamente o mínimo necessário para qualquer artista.”
Runcie afirma que a carreira de Tyler segue um modelo que ele chama de “a vantagem OutKast” — referência à dupla de hip-hop dos anos 1990 formada por André 3000 e Big Boi, do OutKast, que construiu uma enorme (e extremamente fiel) base de fãs ao abraçar a alta moda, o afrofuturismo e, claro, sua música. Tyler, de forma semelhante, criou conteúdo para outsiders com interesses parecidos, construiu audiências em plataformas independentes e apostou no longo prazo em vez de buscar vitórias rápidas, potencializando seus esforços com ferramentas de redes sociais que o OutKast nunca teve.
Essas habilidades são evidentes desde sua adolescência como líder informal do coletivo de hip-hop Odd Future (abreviação de Odd Future Wolf Gang Kill Em All), grupo baseado em Los Angeles formado em 2007 que incluía entre seus primeiros integrantes Frank Ocean, Earl Sweatshirt e o ator Lionel Boyce, estrela da série The Bear. Além da música, o grupo lançou um programa de pegadinhas chamado Loiter Squad, produzido pela empresa responsável por Jackass. O humor de choque e as letras que ultrapassavam limites tornaram o Odd Future controverso — incluindo proibições temporárias de turnês no Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia —, mas também deram ao grupo um apelo underground entre fãs mais jovens em plataformas emergentes como MySpace, Facebook e Tumblr.
Tyler levou a mesma autoexpressão provocativa e caótica para sua carreira solo em 2009 com a mixtape Bastard, e depois entrou no top cinco da Billboard com seus álbuns de estúdio Goblin (2011), Wolf (2013), Cherry Bomb (2015) e Flower Boy (2017). Ele finalmente chegou ao nº 1 com Igor em 2019 e, no ano seguinte, aos 28 anos, foi reconhecido na lista Forbes 30 Under 30 na categoria Música. Além de escrever, arranjar e produzir quase toda a sua música, Tyler cria um estilo visual e um guarda-roupa distintos para cada álbum — o que hoje seria chamado de “eras”, em um mundo pós-The Eras Tour — usando desde camisas de rugby em tons pastel até chapéus trapper ushanka de pele e uma peruca loira estilo bob.
Esse espírito criativo e empreendedor levou ao lançamento da Golf Wang (um anagrama de Wolf Gang) em 2011, quando ele tinha apenas 20 anos. A empresa de roupas vende streetwear premium inspirado na moda chamativa do próprio Tyler, colaborando com marcas como Converse, Lacoste e Louis Vuitton, além de marcas fora do setor de vestuário, como Jeni’s Ice Cream, Arizona Green Tea e Super73. Muitas vezes, os produtos são vendidos em lançamentos exclusivos e por tempo limitado que exploram o FOMO (Fear Of Missing Out) coletivo da internet. A empresa nunca divulgou números financeiros, embora em um freestyle de 2019 Tyler tenha se gabado: “If they talking M’s, Golf did 17 in ‘18 m—-f—- and that’s just one season.”
No outono de 2012, ele esteve entre os primeiros artistas a organizar seu próprio evento ao vivo, reunindo cerca de 2.000 fãs para o primeiro “OFWGKTA Carnival” (nome derivado da sigla do nome completo do Odd Future) no estacionamento de um pequeno espaço no centro de Los Angeles. Com o tempo, o evento cresceu e se transformou no Camp Flog Gnaw Carnival (cujo nome escreve Golf Wang ao contrário), que esgotou ingressos no Dodger Stadium por dois dias consecutivos em 2025. A Forbes estima que o evento do ano passado gerou mais de US$ 25 milhões (R$ 137,5 milhões) em vendas de ingressos e milhões adicionais em merchandising. O Los Angeles Times relatou que alguns frequentadores do festival estavam comprando entre US$ 600 e US$ 750 (entre R$ 3.300 e R$ 4.125) em roupas cada.
Ainda assim, por mais popular e mainstream que Tyler se torne, seus fãs mantiveram o espírito de outsiders. Quando Drake apareceu como convidado surpresa para se apresentar no Camp Flog Gnaw em 2019 — então, possivelmente o maior músico do planeta — os fãs o vaiaram até ele sair do palco, depois de se convencerem online de que a surpresa seria o ex-membro do Odd Future Frank Ocean.
“Isso sempre me chamou atenção como um sinal de que ele estava atraindo uma base de fãs muito particular”, diz Runcie. “E isso explica por que o festival dele continuou existindo em um momento em que muitos festivais não sobreviveram após a pandemia, ou artistas tentaram criar os seus e não funcionou.”
Do palco do festival deste ano, Tyler tirou um momento de sua apresentação para reconhecer que foi a lealdade desses mesmos fãs que o levou a novos patamares. “I’ve had such a super busy, super transitional, super crazy awesome year”, disse ele ao público. “And it really all comes down to you that’s supported me since day one — I appreciate each and every one of you.”
*Matéria originalmente publicada em Forbes.com