Lembro como se fosse ontem.
Eu estava na pequena sala do departamento de Latin American Studies da Brown University tirando uma xerox. Quem lembra disso? Na máquina, uma matéria do jornal O Globo sobre um evento que eu estava organizando. Era 2004 e aquele seria o primeiro festival de cinema brasileiro da universidade, em Providence, Rhode Island.
Naquela época, o cinema brasileiro ainda não tinha a projeção internacional que vemos hoje. Ainda assim, havia curiosidade. Providence tinha uma grande comunidade de descendência portuguesa e o sucesso recente de Cidade de Deus havia criado um burburinho inesperado.
A ideia do festival surgiu de uma conversa com um ex-aluno coreano que foi, curiosamente, uma das primeiras pessoas que ouvi usar o termo BRICS. Ele já falava com convicção sobre o futuro do Brasil como potência cultural e econômica.
Enquanto eu fazia minhas fotocópias, estudantes entravam e saíam da sala procurando seus professores durante os office hours.
Com licença, você sabe onde fica a sala do Professor Gomez?
Do Professor Lopez?
Do Professor Cardoso?
Já acostumada, eu apontava quase automaticamente para o corredor à esquerda.
Alguns minutos depois, um dos alunos volta acompanhado do professor e me agradece.
Obrigada por me direcionar ao Professor Cardoso. Foi ótimo.
Só então me dei conta de quem estávamos falando.
O Professor Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil, que naquele momento era visiting scholar na universidade.
Com sua simpatia característica, ele me perguntou o que eu estava fazendo ali.
Presidente, estamos no jornal.
E comecei a explicar sobre o festival.
Que legal. Eu adoro cinema, ele respondeu. Quando é? Posso participar?
Foi assim que Fernando Henrique Cardoso acabou abrindo o meu primeiro festival de cinema brasileiro.

Organizar aquela programação foi um desafio delicioso. Como escolher apenas oito filmes para representar o talento vasto e diverso do nosso cinema?
Decidi que o mais importante era mostrar o nosso alcance. Do fenômeno cultural de Cidade de Deus à sensibilidade de Abril Despedaçado. Da performance marcante de Rodrigo Santoro em Bicho de Sete Cabeças à leveza elegante de Bossa Nova, de Bruno Barreto, que veio de Nova York prestigiar a abertura do festival.
Mas o momento que mais me marcou aconteceu após uma sessão especial de Cidade de Deus. Convidei o ator Leandro Firmino da Hora para um bate-papo com o público. Era sua primeira viagem internacional e eu traduzia suas respostas em tempo real durante o Q&A.

Ver aquele auditório lotado, com cerca de 80% da plateia sem falar português, foi emocionante. A curiosidade genuína pela cultura brasileira era palpável.
Isso aconteceu há mais de vinte anos.
Naquele momento eu imaginava que minha carreira seguiria diretamente no cinema. Cheguei a escrever um roteiro, trabalhei na Miramax, na Paramount e tive a oportunidade de colaborar com talentos visionários como a diretora Katia Lund e o ator Matt Dillon.

Mas a vida foi me levando por outros caminhos. Aos poucos mergulhei no universo da hospitalidade e do mercado de luxo.
Ainda assim, nunca perdi minha conexão com o cinema.
Talvez porque ele sempre tenha estado presente na minha história.
Cresci vendo minha avó, Heloisa Helena, na televisão. Uma atriz com mais de cinquenta anos de carreira na Globo, além de décadas dedicadas ao teatro, sua grande paixão, e ao cinema, onde contracenou com Carmen Miranda em Alô, Alô Carnaval.

Também fui batizada Paula em homenagem ao meu avô paterno, o teatrólogo Paulo Magalhães, cuja peça Feia marcou a estreia de uma jovem Fernanda Montenegro.
Em casa, o palco, os roteiros e as histórias sempre fizeram parte das conversas. Talvez por isso o cinema nunca tenha sido apenas um interesse profissional para mim. Sempre foi parte da minha vida.
Em dezembro passado, o marido de uma amiga de Brown me conectou por e-mail com um dos produtores envolvidos em trazer o Golden Globes para o Brasil. Pouco depois fui apresentada aos produtores Uri Singer e Orlando John, que lideram essa iniciativa ambiciosa.
Uma semana depois eu já estava mergulhada no projeto, com pouco mais de três meses para ajudar a estruturar a estratégia de um evento que nasce com a proposta de celebrar o cinema brasileiro sob um olhar global.
O projeto também nasce do entusiasmo e da visão da presidente do Golden Globes, Helen Hoehne, que abraçou a ideia de escolher o Brasil para sediar pela primeira vez na história uma celebração da premiação fora de Los Angeles. Em um país com uma tradição cinematográfica tão rica e uma nova geração de talentos cada vez mais presente no cenário internacional, a escolha carrega um simbolismo especial.
O Golden Globes é uma marca internacional. Mas o que se celebra aqui são conquistas do cinema e da televisão brasileiros feitas por brasileiros, em um momento em que o mundo demonstra uma curiosidade crescente pela nossa produção cultural.
Há algo de muito bonito nisso.
Ver artistas brasileiros, histórias brasileiras e uma indústria criativa que sempre existiu com tanta força ocupar esse espaço de reconhecimento global é motivo de orgulho.
O talento sempre esteve aqui.
A diferença é que agora o mundo inteiro está olhando.
E amanhã, quando as luzes se acenderem e o tapete vermelho receber alguns dos maiores nomes do nosso audiovisual no Copacabana Palace, celebraremos juntos mais do que um evento.
Celebraremos um momento simbólico para o cinema brasileiro.
Um encontro entre tradição e futuro. Entre o Brasil e o mundo.
E, para mim, de certa forma, também um reencontro com aquela estudante que um dia organizava fotocópias em uma pequena sala da Brown University tentando convencer o mundo de que o cinema brasileiro merecia ser visto.