Crédito, Agência Brasil
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A nova fase da operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraude na instituição financeira, também levou à prisão Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, Luiz Phillipi Mourão, chamado de ‘Sicário’, matador de alguel em espanhol, que estaria conduzindo monitoramento de adversários de Vorcaro, e o policial federal Marilson Roseno da Silva.
A decisão que autorizou a operação, do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), cita a formação de uma organização criminosa, danos bilionários e a possível prática dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.
Dois servidores de carreira do Banco Central — Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana — também foram alvos da operação. Mendonça determinou o uso de tornozeleira eletrônica e o afastamento de seus cargos.
A defesa de Vorcaro questionou as acusações enquanto a de Zettel disse que está à diposição das autoridades e não conhece o imputado contra ele. A BBC tentou, sem sucesso, contato a defesa dos servidores do BC.
Vorcaro já havia sido preso em novembro do ano passado, na primeira fase da operação, mas foi solto na sequência. Na época, foi determinado que o empresário fizesse o uso de tornozeleira eletrônica.
A decisão de Mendonça menciona mensagens trocadas entre o banqueiro e os demais alvos da operação, apontando que elas “indicam que os investigados atuavam de forma estruturada e com divisão de tarefas, característica típica de organizações criminosas”.
1. Por que Daniel Vorcaro foi preso de novo?
Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro do ano passado por determinação da Justiça Federal. Ele estava no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, tentando embarcar em um avião particular. Na época, seu celular foi apreendido também.
A prisão, realizada pela PF, ocorreu no âmbito da Operação Compliance. Ele era suspeito de gestão fraudulenta, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
No mesmo dia da operação, o Banco Central emitiu um comunicado decretando a liquidação extrajudicial do Master e a indisponibilidade dos bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição.
A prisão preventiva foi revogada dez dias depois pelo Tribunal Regional Federal (TRF), que determinou que ele usasse tornozeleira eletrônica.
Naquele momento, o inquérito, sob sigilo, estava nas mãos do ministro Antonio Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF). Mas o ministro deixou a relatoria do caso no mês passado, um dia depois que a PF enviou um relatório para o presidente do STF, Edson Fachin, com menções a Toffoli no caso.
A atuação de Toffoli no caso vinha sendo questionada devido a supostas relações dele com pessoas ligadas ao Master, incluindo Daniel Vorcaro.
Agora, sob relatoria do ministro André Mendonça, uma nova fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada na quarta-feira, culminando com a prisão, novamente de Vorcaro e mais três pessoas: o cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel, Luiz Phillipi Mourão, que estaria conduzindo monitoramento de adversários de Vorcaro, e o policial federal Marilson Roseno da Silva.
Ele era descrito como integrante de um suposto grupo liderado por Vorcaro para monitorar e ameaçar adversários empresariais, ex-funcionários e jornalistas.
Segundo a PF, horas após ser preso na quarta-feira, Mourão tentou se matar na Superintendência Regional da Polícia Federal, onde estava sob custódia. Ele foi socorrido por policiais e levado para um hospital em Belo Horizonte.
Na quarta-feira (4/3), duas fontes ouvidas pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmaram que os médicos deram início a um protocolo para morte cerebral em relação a Mourão. Neste protocolo, os médicos fazem uma série de exames para confirmar ou descartar a morte encefálica do paciente.
Nesta quinta-feira, a defesa de Mourão informou que o investigado está em unidade de terapia intensiva no hospital, em monitoramento contínuo.
“Não houve confirmação de observância de protocolo de morte cerebral. Essa informação chegou por volta das 22h”, diz nota da defesa.
Robson Lucas, um dos advogados de Mourão, disse que está em busca de atualizações do quadro clínico do seu cliente, “bem como está apurando rigorosamente as circunstâncias do incidente”.
Outra nota da defesa afirma que um dos advogados esteve pessoalmente com Luiz Phillipi durante o dia, até por volta das 14h, “quando ele se encontrava em plena integridade física e mental”.
“A informação sobre o incidente de supostamente ter atentado contra a própria vida foi conhecida após a nota de esclarecimento emitida pela Polícia Federal.”
Robson Lucas afirmou ainda que entrou com um pedido de autorização judicial para que os pais do seu cliente possam visitá-lo no hospital.
A Polícia Federal informou que uma investigação interna será aberta para apurar o caso e vídeos que mostram a dinâmica do que aconteceu serão entregues ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do processo no Supremo Tribunal Federal (STF).

Crédito, Reuters
Na quarta-feira, o pedido de prisão de Vorcaro, assinado pelo ministro André Mendonça, já mencionava a troca de mensagens do banqueiro com servidores do Banco Central, Fabio Zettel e Mourão.
Por meio das mensagens, os investigadores suspeitam que Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização do BC, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, prestavam uma espécie de consultoria para Vorcaro.
Segundo Mendonça, os servidores forneciam informações estratégicas de dentro do BC e orientavam sobre decisões do Master. Na decisão, o ministro aponta Belline como um “empregado” de Vorcaro.
Na quarta-feira, o ministro também autorizou que documentos fossem enviados à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. A CPMI também apura a atuação do Banco Master no mercado de empréstimos consignados a aposentados e pensionistas, objeto da investigação da comissão.
Com esses arquivos aos quais à BBC News Brasil teve acesso, novas mensagens de Vorcaro foram levantadas.
O Banco Master surgiu no final da década passada e ficou famoso no mercado financeiro por oferecer papéis com juros altos — e investir em empresas em situação financeira precária.
A estratégia fez com que a instituição tivesse forte crescimento — mas também despertou críticas e desconfiança no mercado.
No ano passado, o Master ganhou as manchetes ao ser alvo de aquisição por outros grupos financeiros — em meio a notícias de que o banco apresentava problemas para honrar seus CDBs.
O BRB anunciou, no início de 2025, a intenção de comprar o Master, em um acordo estimado em R$ 2 bilhões. A compra foi aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Também foi aprovada uma lei na Câmara Legislativa do Distrito Federal que autorizava a compra, que era defendida pelo governador Ibaneis Rocha (MDB).
No entanto, ela foi barrada pelo Banco Central, que analisou o negócio e concluiu haver dúvidas sobre a “viabilidade econômico-financeira do empreendimento”.
5. Por que o banco Master foi liquidado?
As investigações da PF sobre o banco tiveram início em 2024, a pedido do Ministério Público Federal (MPF). O inquérito estava concentrado na possível emissão de carteiras de crédito falsas.
Essas carteiras teriam sido vendidas a outro banco e, após fiscalização do Banco Central, substituídas por outros ativos sem avaliação técnica adequada, segundo a Polícia Federal.
O Banco Central tomou a decisão de liquidar o Banco Master com base em uma lei de 1974 que prevê essa medida quando uma instituição financeira apresenta riscos relevantes — como inadimplência, violação grave de normas e prejuízos que exponham credores a risco considerado anormal.
As autoridades monetárias poderiam ter optado por uma intervenção judicial, em que um interventor é nomeado para assumir a administração do banco com a intenção de fazê-lo voltar a operar.
No entanto, a opção escolhida foi a liquidação do Banco Master e da Master Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários.
O objetivo da liquidação, ocorrida em novembro do ano passado, foi encerrar as operações das instituições. Um liquidante é nomeado para levantar os bens das instituições e realizar o pagamento de todos os seus credores.
Além disso, com a liquidação, é acionado o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), uma associação mantida pelos bancos que protege correntistas, poupadores e investidores de instituições financeiras em situação de risco.
No caso do Banco Master, muitos investidores possuíam CDB, que é um tipo de título emitido pelo banco, com pagamento de juros.
O FGC protege investimentos de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira. Qualquer valor acima desse limite não é coberto pelo FGC — e só poderá ser recuperado a partir do processo de liquidação e venda dos bens do banco.
Outra parte do conglomerado, o Master Múltiplo, foi colocado em regime de administração especial temporária, em que as autoridades ainda tentam recuperar a instituição.
*Com reportagem de Iara Diniz, Leandro Prazeres, Julia Braun e Daniel Gallas