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quarta-feira, março 18, 2026

Muitas vezes a gente senta e chora, diz Ministério da Justiça sobre cripto

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Durante o MERGE São Paulo 2026, realizado no World Trade Center, representantes do setor público detalharam como o avanço do ambiente multichain transformou o rastreamento de crimes com criptoativos em uma tarefa mais complexa, fragmentada e, muitas vezes, emocionalmente desgastante para investigadores.

Samuel do Nascimento Souza, Crypto Crime Police Commissioner do Ministério da Justiça e Segurança, resumiu o tamanho do problema ao destacar que, muitas vezes, os investigadores não conseguem seguir com facilidade o “rastro” do dinheiro diante da complexidade das operações com bridges, mixers e múltiplas blockchains.

“Muitas vezes, diante de certos cenários, a sensação é de sentar e chorar”, afirmou, ao descrever a rotina de quem tenta seguir o caminho do dinheiro em operações que passam por Bitcoin, Ethereum, bridges, mixers e múltiplas redes.

Segundo ele, o problema não atinge apenas a dimensão técnica. Também pressiona a saúde mental de quem investiga. “A questão central é se esse ambiente afeta a capacidade de investigação. E eu diria que sim, não apenas a capacidade técnica, mas também a capacidade mental e psicológica do investigador”, declarou.

Na prática, Samuel explicou que o ambiente multichain rompe a lógica linear das apurações. Antes, quando um criminoso dava poucos passos e terminava em uma exchange, o trabalho avançava de forma mais objetiva.

“Muitas vezes, damos graças quando encontramos um criminoso menos experiente, que percorre poucos passos e chega a uma exchange”, disse. Nesse cenário, completou, a autoridade consegue oficiar a plataforma, obter dados e identificar o responsável.

Bridges, mixers e stablecoins elevam a dificuldade

De acordo com Samuel, o crime migrou para uma dinâmica mais sofisticada. O suspeito começa em uma rede, atravessa para outra, usa pontes entre blockchains, recorre a mixers e, em alguns casos, ainda retorna ao ponto de partida.

“De repente, ele faz uma ponte do Bitcoin para a rede Ethereum, e aí já perdemos a linearidade”, afirmou.

Samuel também chamou atenção para o papel das stablecoins nesse ecossistema. Na visão dele, o criminoso procura eficiência e previsibilidade. Em vez de buscar ativos mais voláteis, ele tende a escolher moedas digitais estáveis para preservar valor ao longo da operação.

“No fundo, ele procura uma moeda que seja estável”, disse. Segundo o comissário, esse perfil aparece porque o agente criminoso quer financiar atividades ilícitas, ocultar recursos ou transferir valores com rapidez, alcance global e baixo custo, sem sofrer perdas bruscas com oscilações de mercado.

“Ele não quer correr riscos de volatilidade”, resumiu. Para Samuel, o diferencial das stablecoins é justamente oferecer um ambiente “mais eficaz” para circulação de recursos ilícitos, já que o criminoso consegue movimentar valores com maior segurança e previsibilidade.

A procuradora da Fazenda Nacional Ana Paula Bez Batti, da AGU, reforçou esse diagnóstico ao dizer que o ecossistema de múltiplas redes ainda funciona como um grande labirinto regulatório e operacional. Para explicar o cenário, ela comparou as blockchains paralelas a ruas em que o usuário consegue mudar de identidade cada vez que cruza uma ponte entre redes.

“Hoje, esse ecossistema de múltiplas blockchains ainda funciona como um verdadeiro labirinto”, afirmou.

Segundo Ana, esse labirinto cria um problema que vai além da tecnologia. Para ela, o desafio é também jurídico e institucional. A dificuldade, explicou, está em definir quem armazena logs, quem estabelece critérios de geolocalização para compliance e quem responde pelas informações geradas nas transferências entre redes.

Na avaliação da procuradora, esse vazio de responsabilidades dificulta a conexão entre as pontas da investigação. Ao mesmo tempo, ela ressaltou que uma harmonização internacional pode mudar esse quadro e tornar o rastreamento reverso mais eficiente.

“À medida que avançarmos em uma harmonização internacional, especialmente sobre a definição de responsabilidades no armazenamento de dados durante essas transferências, será possível estabelecer conexões mais claras”, disse.

Cooperação entre blockchain, corretoras e autoridades é decisiva

Apesar do cenário mais desafiador, Samuel afirmou que a perda de linearidade não impede a investigação. Para ele, o ponto central é entender que o ambiente cripto não elimina rastros, apenas exige mais preparo técnico e articulação institucional para identificá-los.

“O ambiente deixa rastros”, afirmou. “O grande desafio é saber identificá-los e utilizar os meios corretos para reconstruir essa trajetória.”

Ele também defendeu que nenhuma apuração desse tipo avança sozinha. Segundo Samuel, investigações envolvendo criptoativos sempre exigem cooperação entre análise on-chain e instrumentos off-chain, com participação de exchanges, autoridades e outras instituições.

“Ninguém consegue conduzir esse tipo de investigação sozinho, especialmente quando envolve criptoativos”, declarou. “Em algum momento, saímos do ambiente on-chain e precisamos avançar para o off-chain.”

Ana Paula seguiu a mesma linha e observou que, embora muita gente imagine que o criminoso desaparecerá depois de passar por uma DeFi, por um mixer e por diversas carteiras, a prática é mais simples do que a teoria sugere. Segundo ela, sempre existe um endereço de origem, outro de destino e, em algum momento, um elo útil para a investigação.

“No fim do dia, ele quer usar esse dinheiro”, afirmou. Para a procuradora, é justamente nessa hora, quando o valor precisa virar bem, serviço ou moeda utilizável no mundo real, que surge a oportunidade de conectar transações e reconstruir a trilha.

Ana também ressaltou que as stablecoins apresentam um risco diferente em relação ao Bitcoin. Por um lado, elas são mais rápidas e menos voláteis, o que aumenta sua atratividade para agentes ilícitos. Por outro, oferecem uma possibilidade importante para o poder público: o congelamento de ativos.

“Há a possibilidade de congelamento de ativos, o que é extremamente relevante”, disse. Segundo ela, isso cria um ponto focal de atuação para o Estado, que pode oficiar uma corretora ou outro intermediário e solicitar o bloqueio de uma carteira específica.

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