Aconteceu no gélido inverno de 2003 no Palácio do Eliseu. O objetivo da ligação do então presidente americano George W. Bush para Jacques Chirac, à época chefe do Executivo francês, era assegurar o apoio de Paris à iminente invasão americana no Iraque. Cerca de uma hora depois, após um protocolar “até breve”, o sisudo político encarou seus auxiliares mais próximos com ar atipicamente atarantado. E pediu que lhe explicassem quem eram, afinal de contas, os tais Gog e Magog de quem o republicano tanto falara na conversa. Silêncio. O mistério só foi resolvido após a convocação de um teólogo suíço, especializado no Antigo Testamento, que os iluminou sobre os textos bíblicos do profeta Ezequiel em torno das representações do mal.
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A história, confirmada anos depois por pessoas diretamente envolvidas no arremedo de incidente diplomático, ressuscitou este mês na mente do professor Juan Cole. O déjà vu se deu quando o catedrático em Religião e Oriente Médio da Universidade de Michigan atentou para as imagens e falas, na Casa Branca e no Pentágono, que, após hiato de duas décadas, mesclavam intencionalmente fervor religioso e conflito bélico, agora em meio ao ataque dos EUA e de Israel ao Irã, iniciado há quatro semanas. E, sublinha o acadêmico ao GLOBO, com potencial de estrago ainda maior.
No último dia 5, duas dezenas de pastores — 19 homens e duas mulheres — oraram no Salão Oval da Casa Branca pelo presidente Donald Trump. E para “Deus proteger nossos soldados”. Os mais ao centro posicionaram suas mãos no corpo do republicano. Vídeo e foto divulgados viralizaram. Na cena, todas as cabeças, inclusive a de Trump, que, diferentemente de Bush, não é evangélico ou especialmente religioso, estão voltadas para o chão, os olhos fechados, em expressões respeitosas.
Vinte dias depois, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, protagonizou um ato religioso no Pentágono em que citou trechos bíblicos para justificar o ataque. A esta altura, o bombardeio a uma escola primária na cidade de Minab, no sul do Irã, com a morte confirmada por Teerã de 175 pessoas, já havia se tornado o episódio mais escandaloso do conflito. Na cerimônia em Washington, o veterano militar de missões no Iraque e Afeganistão pediu a Deus que “arrancasse os dentes” e destruísse “os inimigos ímpios”, “não merecedores de misericórdia”. Eles, seguiu, devem ser “lançados à condenação eterna, à qual estão destinados”. Também conclamou o “Senhor a nos conceder alvos claros e justos para atos de violência”.
O ex-apresentador da Fox News tem tatuadas em seu corpo mensagens cristãs, uma delas a inscrição Deus Vult, “Deus deseja isso” em tradução livre do latim, expressão associada a um grito de guerra nas Cruzadas medievais.
— Usa-se novamente no governo americano a linguagem da “guerra santa”, um arremedo de cruzada contemporânea, mas não por um presidente crente, contido por oficiais graduados e auxiliares ciosos em reafirmar a separação de Estado e religião estabelecida na Constituição, como na época de Bush, e, sim, por quem está no comando das operações militares — afirma Cole.
A Fundação Militar para Liberdade Religiosa, organização independente fundada dois anos após a invasão do Iraque, que defende soldados e oficiais americanos às voltas com discriminação religiosa, informou ter recebido, desde o início do ataque ao Irã, mais de 200 reclamações formais de proselitismo coercitivo, inclusive por fuzileiros navais.
No ano em que os EUA se preparam para celebrar 250 anos de independência e a afirmação dos valores democráticos, a contaminação da operação contra o Irã pela religião destilada como ideologia é um sinal amarelo para defensores da Primeira Emenda da Constituição, que assegura a liberdade religiosa no país.
— Os EUA não são um espelho exato para a teocracia iraniana, mas a discussão sobre a invasão da religião na argamassa democrática do país é urgente, uma provocação pertinente — diz Cole. — Esta guerra não tem como razão central o embate religioso, mas ele auxilia a Casa Branca em dois aspectos. Por um lado, escamoteia a falta de estratégia geopolítica, a carência de objetivos claros e factíveis. Por outro, em momento de crescente impopularidade de Trump, dialoga com parte importante de sua coalizão. No cálculo dos governistas, os evangélicos formam um quarto dos que de fato sairão de casa para votar em novembro.
Em sete meses, os americanos escolherão quem comandará o Congresso, além de governadores e Legislativos estaduais. Pesquisas indicam o favoritismo dos democratas para retomarem o comando da Câmara e, ainda que menos provável, o Senado. O que seria, nas palavras do próprio presidente, “o fim de meu governo”, com “mais um impeachment a enfrentar”. E neste caso Trump está coberto de razão.
O ataque ao Irã sem um plano de saída claro pode ter sido o maior passo em falso da segunda temporada do republicano na Casa Branca. Trump hoje amarga 56% de rejeição ao seu governo no monitoramento semanal do YouGov/Economist, responsabilizado pelo aumento da gasolina e do custo de vida como sequela direta de um conflito ainda sem fim no horizonte. E, destaca ao GLOBO Stephen Duncombe, diretor do Centro de Pesquisas de Ativismo e Arte da Universidade de Nova York (NYU), seu desespero se reflete na tentativa de reviver à direita um “messianismo medieval cristão datado e fora de lugar em democracias liberais”.
‘Retórica de violência’
Diferentemente do ano passado, quando o Irã foi atacado por Israel e os EUA na guerra dos 12 dias e reagiu de forma coreografada, desta vez o revide de Teerã foi exponencialmente maior.
— E dentre os motivos, além de mais perda de vidas no país, e da eliminação em sequência de líderes, deve-se incluir a retórica da violência, aumentada por todos os lados na esfera religiosa — pondera Duncombe.
Ele lembra ainda que a denúncia do uso de termos como “Grande Satã” pelo Irã, em referência aos EUA, deve ser acompanhada da correspondente condenação a uma “reinterpretação desonesta” do cristianismo, propagada em “neocruzadas contra países com populações majoritariamente muçulmanas”. E que a apropriação desonesta de “imaginários mítico-religiosos” para avançar pautas ideológicas não se restringe ao Irã e ao trumpismo.
Assim como Bush e Hegseth, o premier Benjamin Netanyahu, logo no primeiro dia do conflito, revisitou as origens do Purim, celebrado este ano nos dias 2 e 3 de março. Buscou estabelecer paralelo direto, 2.500 anos depois, entre a ameaça ao povo judeu pelo império dos Aquemênidas, na Pérsia Antiga, e o governo dos aiatolás, que prega a eliminação de Israel.
Cole lembra que há razões terrenas, distantes da mitologia de Gog e Magog revisitadas por Bush, para a atual ênfase no uso da religião como propaganda de guerra pelos governos do Likud, de Netanyahu, e do Partido Republicano, de Trump. O premier israelense depende dos ortodoxos para seguir no poder após as eleições gerais, que é obrigado a convocar até outubro. E o trumpismo “se debate com o número recorde de americanos sem religião no país”, 30% de acordo com pesquisa do Pew Research Center no ano passado, além de crescente oposição ao atrelamento da política externa americana a Israel no Oriente Médio, especialmente após Gaza:
— Este pode ser um dos últimos suspiros da manipulação do imaginário medieval cristão com potencial decisivo de voto. Ainda assim, os aspectos simbólicos e a violência por motivação religiosa precisam ser ainda mais dissecados e combatidos do que em 2003.
Ao mesmo tempo, lembra Duncombe, isso se dá quando o Partido Democrata arrisca traçar novas linhas entre o exercício da fé e a política:
— Zohran Mamdani, muçulmano, venceu com folga a prefeitura de Nova York ano passado apresentando sua ética religiosa como trunfo. E a denúncia de abusos pela comunidade latina, em sua maioria católica, por agentes de imigração, teve enorme eco na Igreja, prenunciando uma disputa pelo voto cristão, especialmente em estrato que parecia migrar para o flanco conservador.