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terça-feira, março 17, 2026

Novo livro de Paulo Henriques Britto trata da perspectiva do fim com ‘o gosto, o som e a cor da poesia’

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“Embora” é a palavra que dá nome ao nono livro de poesia de Paulo Henriques Britto. Palavra essa que percorre os poemas e se destaca nas balizas do primeiro, “(Escreva, porém. Apesar. Embora.)”, e do último, “não é mesmo? Hora de ir embora. Adeus.” Os sentidos, mesmo diferentes, simbolizam temáticas importantes para Britto, como a fixação pela escrita, o sentido do nada e, o novo tema, o envelhecimento e a perspectiva do fim. Prestes a completar 75 anos, o poeta, tradutor, professor e imortal da Academia Brasileira de Letras conta:

— Eu tenho obsessões que vão aparecer no livro.

A obra — que será lançada hoje, 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo, na Zona Sul do Rio — apresenta poemas em português e inglês. A série “Intransitivas”, com dez poemas, demonstra a insistência em escrever: “impulso visceral, orgânico,/ que mantém o cérebro ativo/ e combate ataques de pânico”. Em “Terminais”, com 18 poemas, o verso de abertura anuncia: “Tão natural quanto qualquer começo é o fim.”

Capa do nono livro de poemas de Paulo Henriques Britto. — Foto: Divulgação Companhia das Letras

Britto define a sua preocupação obsessiva com a linguagem como uma restrição criadora.

— Eu tenho a maior admiração pelo verso livre. Mas quando tento escrevê-los, escrevo banalidades. Enquanto, quando me obrigo a seguir uma forma, rimas e padrões rítmicos, quando me imponho essas coisas, acabo dizendo algo que não tinha pensado, e aí fica mais interessante.

As soluções do poeta, obedientes à métrica tradicional, não deixam de lado a profícua expressão de sensibilidade. Para Britto, a inspiração vem de diversos lugares, mas o importante é fazer com que o que está sendo dito não fique restrito ao seu interesse pessoal:

— O que escrevo tem muito das circunstâncias e do momento que vivo. Na juventude escrevia sobre ser jovem e, agora, escrevi sobre a velhice. Mas a ideia toda é fazer isso passar por um crivo formal para não ficar um simples desabafo, uma coisa óbvia.

‘Solução possível’

Há pouco tempo, Britto retomou o estudo do piano, e não por acaso “Embora” é repleto de referências à música clássica, tanto nos versos quanto nos nomes dos poemas, como em “Noturno em dó sustenido menor”.

O poeta diz que o que “queria mesmo era ser músico” e, quando criança, insistia para fazer aulas, mas os pais o enrolavam. Aos 14 anos, finalmente conseguiu.

— Até ganhei um piano, mas logo vi que não levava jeito. Com a palavra eu levo jeito, então a poesia foi uma solução possível — conta.

Fica claro que, além da palavra, outra obsessão do poeta é a sonoridade e musicalidade da poesia:

— Às vezes a inspiração vem de sons ou ritmos.

No novo livro, aconteceu algo que é raro e caro para Britto:

— O poema “Mais uma falange” veio pra mim em um um sonho. Acordei com o verso “Atrás deles vêm mais seis”. Anotei, e o estalo veio em poucos dias — diz ele, para quem “Mais uma falange” evoca o sentimento do conto “Casa tomada”, do argentino Julio Cortázar, escritor formador para o poeta.

Outra inspiração é o neto Antônio, que, neste livro, deu dois terços do primeiro poema da série “Do desejo” e é a grande razão para Britto ter feito a sua estreia na literatura infantojuvenil, o livro “As incríveis aventuras do super-herói Cupcake Gigante e seu fiel escudeiro Jarbas”, (Companhia das Letras, 2025):

— Eu nunca pensei em escrever para crianças, mas o livro surgiu de uma forma tão espontânea. Eu contava as histórias do Cupcake para o Antônio dormir.

Paulo Henriques Britto, que completa 75 anos este ano, em sua casa na Gávea. — Foto: Letícia Guimarães
Paulo Henriques Britto, que completa 75 anos este ano, em sua casa na Gávea. — Foto: Letícia Guimarães

Além de 14 livros publicados, Britto já traduziu cerca de 120 obras do inglês, de autores como Charles Dickens, Oscar Wilde, Virginia Woolf, James Baldwin e Elizabeth Bishop. E diz que até seus pensamentos são bilíngues. Apesar de suas várias referências a Baudelaire, Britto afirma que os poetas mais caros a ele são os das línguas que domina: português e inglês. O grego Konstantínos Kaváfis também é uma de suas grandes paixões, que sempre que possível recebe menção honrosa nas suas aulas na Faculdade de Letras da PUC-Rio.

Nascido em 1951, no Rio, Britto foi com a família para os EUA aos 11 anos. Morou por lá mais de dois anos. Nessa época, encantou-se por Shakespeare, Emily Dickinson e Walt Whitman — graças a uma professora que foi uma das grandes responsáveis por sua paixão pela poesia. De volta ao Brasil, foi atrás de poetas que despertassem esse mesmo interesse. Foi então que se deparou com a poesia de Fernando Pessoa, que é um dos seus favoritos e o que mais relê.

Fugindo do clima hostil de um Brasil pós AI-5, Britto foi cursar cinema na Califórnia, onde chegou a realizar seus próprios filmes.

— Mesmo assim, o que eu mais fiz por lá foi escrever. Inventava de traduzir por conta própria e comecei a escrever os textos que me renderam o meu primeiro livro de contos (“Paraísos artificiais”) — lembra.

Em suas aulas na PUC-Rio, Britto busca dar ênfase a poetas contemporâneos, como Claudia Roquette Pinto e André Capilé.

— Tem muita coisa interessante acontecendo na poesia de agora que tento acompanhar — diz.

Britto tem uma pesquisa robusta, extensa e interminável sobre a poesia atual. No seu escritório, há uma pilha de livros de novos autores, como Lucas Ferreira, João Paulo Bense e Marcello Sorrentino.

Ainda este mês, o escritor também lança a tradução de “Quarto de Jacob”, de Virginia Woolf, autora que descreve como “extraordinária”. Sobre as próximas traduções, estão em fase de revisão uma antologia do poeta inglês Philip Larkin e o último romance lançado por Thomas Pynchon, que aos 88 anos troca e-mails com o tradutor. Ele ainda está trabalhando na sua tradução do último romance de Jane Austen, “Persuasion”.

Na ABL, Britto vai organizar seu primeiro ciclo de debate sobre poesia contemporânea em novembro. Ele também conta que está trabalhando na elaboração de um dicionário com a Academia, e que esse sempre foi um de seus grandes sonhos. O poeta é aficionado por dicionários, seus grandes companheiros nas traduções.

‘Vanitas’ — poema de ‘Embora’

As coisas espalhadas sobre a mesa/ não são aleatórias. São um texto/ escrito com objetos, não palavras./ E o que ele diz diz tanto quanto um gesto/ ou expressão facial incontrolável./ A mesa é uma tela a exibir coisas/ que, embora o escritor nem imaginasse,/ ele tinha resolvido esconder./ (Coisas que era necessário escrever.)

Ficha técnica: “Embora” de Paulo Henriques Britto. Companhia da Letras, 160 páginas, R$ 69,90.

Lupa sobre dicionário Oxford, da coleção de Paulo Henriques Britto. — Foto: Letícia Guimarães
Lupa sobre dicionário Oxford, da coleção de Paulo Henriques Britto. — Foto: Letícia Guimarães

(*) Estagiária, com supervisão de Nelson Vasconcelos

[Fonte Original]

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