25.5 C
Brasília
sexta-feira, março 13, 2026

Os fatores que atrapalham o impacto da isenção do IR na aprovação de Lula

- Advertisement -spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_imgspot_img

Principal aposta do governo para o ano eleitoral, os primeiros meses de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil têm tido impacto político aquém do que se esperava, pelo menos nas últimas rodadas de pesquisas de opinião pública. A medida entrou em vigor em janeiro, mas os contracheques com a desoneração foram pagos em fevereiro e março. Nesse período, a aprovação do governo ficou estacionada ou teve discreta piora e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viu seu principal adversário para outubro crescer nas pesquisas e ficar em empate técnico.

Integrantes do governo ponderam que não se deveria esperar que uma medida isoladamente fizesse grande diferença na popularidade. Ainda assim, apontam que é preciso esperar um pouco mais de tempo para ter uma efetiva dimensão do impacto na percepção das pessoas.

Esses interlocutores lembram que o início do ano é um período marcado por aumento nas despesas das famílias, seja com as contas do fim do ano, seja com escola, tarifas de transportes e tributos, como o IPVA. Passada essa fase, o efeito do ganho de renda na vida da classe média ficaria mais claro, o que tenderia a trazer bônus político.

O estímulo econômico de um ponto de vista mais amplo também, já que a medida tende a ampliar a capacidade de consumo dessa população. Isso mesmo se considerando que, nas hipóteses do próprio governo, parte da renda extra será poupada ou direcionada para o pagamento de dívidas.

A dificuldade de o IR impactar na percepção das pessoas também decorre de uma combinação de fatores que transcendem a sazonalidade do início de ano, mas têm caráter conjuntural. Os dados do PIB do ano passado, por exemplo, mostraram o consumo estagnado no segundo semestre do ano, mesmo com queda da inflação. A principal hipótese é que a paradeira está relacionada aos juros altos.

Ainda no campo econômico, percebe-se que acabou ou pelo menos estaria perto do fim o “bônus” da queda da inflação de alimentos, que acompanhou a forte valorização do real ante o dólar ao longo do semestre passado.

Para além desses marcadores, há outros fatores de natureza mais político/ideológica que afetam a percepção das pessoas, diminuindo a suscetibilidade aos eventos econômicos. Nesse sentido, um interlocutor do governo destaca que a renda real das pessoas tem aumentado consistentemente nos últimos anos, sem que isso tenha se traduzido em grandes ganhos na aprovação do governo.

O economista Manoel Pires, pesquisador do FGV Ibre, reforça essa leitura e lembra que o caso brasileiro não é isolado. Segundo ele, há uma mudança no ambiente político global que elevou o chamado “custo de ser incumbente”, dificultando a manutenção de popularidade por governos em exercício.

“Com indicadores como os atuais, historicamente a aprovação do governo deveria ser maior. O que estamos vendo é uma quebra desse padrão, que também aparece em outros países, como Estados Unidos, Europa e Chile”, afirmou. Ele lembrou que o noticiário sobre o escândalo do Master, ainda que não tenha envolvimento direto do governo até o momento, acaba fazendo um estrago na aprovação pelo feito de rejeição ao sistema político.

Ainda assim, Pires também evoca fatores econômicos que ajudam a explicar a frustração de expectativas. Ele lembra, por exemplo, que o Bolsa Família não teve reajustes desde que foi consolidado em R$ 600 em 2023 e, sobretudo com a inflação de alimentos, houve perda de poder de compra.

“Embora o mercado de trabalho esteja forte, a inflação de alimentos continua pesando muito para essa faixa de renda. Isso neutraliza parte da sensação de melhora econômica”, afirma Pires.

Na classe média, grupo que o governo tentou atingir diretamente com a ampliação da faixa de isenção do IR, Pires comenta que também há um fator operacional que pode estar pesando: o ganho imediato aparece somente para trabalhadores com retenção na fonte, como assalariados com carteira assinada. Profissionais liberais e outros contribuintes que fazem ajuste anual só sentirão o impacto integral na declaração do próximo ano. E esse descompasso temporal tende a reduzir o retorno político imediato da medida em um público que globalmente já tem tido uma postura refratária aos incumbentes.

Se ainda é cedo para chegar a conclusões sobre os ganhos políticos da isenção do IR para o governo, o cenário à frente torna tudo mais desafiador. O Banco Central prometeu iniciar um ciclo de corte de juros na semana que vem, o que pode ajudar a aliviar empresas e famílias endividadas. Mas a crise gerada pela guerra no Irã complicou o processo decisório, mesmo com o governo agindo rápido para conter possíveis repasses da alta de preços para o diesel.

[Fonte Original]

- Advertisement -spot_imgspot_img

Destaques

- Advertisement -spot_img

Últimas Notícias

- Advertisement -spot_img