Quando Seren, de seis anos, recebeu a prescrição de antibióticos, tomá-los quatro vezes ao dia rapidamente se tornou uma batalha. O líquido alaranjado tinha um gosto horrível e grande parte dele acabava nas bancadas da cozinha em vez de na boca dela. Sua mãe nunca tinha certeza de quanto ela realmente havia ingerido, mas tinha medo de dar mais, caso a dose fosse excedida.
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A gota d’água foi no quinto dia, quando o frasco caiu e a dose restante se espalhou pelo chão. A família desistiu. Seren nunca terminou o tratamento.
Essa é uma situação que encontro com muita frequência na minha prática clínica como médica de família. Mas um novo artigo que escrevi com meus colegas sugere que uma solução pode ser incentivar mais crianças a tomar comprimidos.
Medicamentos líquidos são comumente prescritos para crianças. Acredita-se amplamente que sejam a opção mais segura e prática. Na realidade, podem ser difíceis de administrar e fáceis de serem administrados incorretamente.
As crianças podem cuspir o medicamento líquido, engolir apenas parte dele ou recusá-lo completamente. Medir as doses com precisão pode ser difícil com uma criança agitada ou que se mexe muito, e muitas formulações têm sabor desagradável. Os líquidos estragam rapidamente, sendo muitas vezes necessária a refrigeração. Juntos, esses fatores aumentam a probabilidade de que os tratamentos não sejam concluídos conforme prescrito.
As consequências são significativas. A dosagem incompleta ou inconsistente pode tornar o tratamento menos eficaz e contribuir para o desenvolvimento de resistência aos antibióticos. As crianças podem permanecer doentes por mais tempo ou retornar ao médico para novas consultas ou para obter antibióticos alternativos, aumentando a pressão sobre as famílias e o sistema de saúde.
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Medicamentos líquidos orais, prescritos ou comprados em farmácias, podem ser muito caros. Pesquisas mostram que mais de dois terços das prescrições de medicamentos líquidos poderiam ser substituídas com segurança por comprimidos ou cápsulas, economizando três quartos dos custos do tratamento.
Os custos não afetam apenas os pais e os sistemas de saúde, mas também o meio ambiente. Os medicamentos líquidos geralmente têm uma pegada de carbono muito maior do que os comprimidos. Eles exigem mais embalagens, são mais pesados para transportar e, em alguns casos, precisam de refrigeração.
Além disso, persiste a ideia de que crianças não conseguem engolir comprimidos. Essa crença é generalizada entre pais e profissionais de saúde e influencia fortemente os hábitos de prescrição. No entanto, um número crescente de pesquisas questiona essa visão antiga.
Evidências do Reino Unido e de outros países mostram que a maioria das crianças consegue aprender a engolir comprimidos. Pesquisas demonstraram que, com um breve treinamento estruturado, a maioria das crianças a partir dos quatro anos de idade consegue aprender a engolir comprimidos com segurança e confiança.
A experiência internacional corrobora essas conclusões, com as orientações europeias fazendo recomendações semelhantes.
Então, se os comprimidos costumam ser mais baratos, mais fáceis de armazenar e mais confiáveis, por que os medicamentos líquidos continuam sendo a opção padrão.
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A prática consolidada desempenha um papel fundamental. Fora dos ambientes pediátricos especializados, médicos, farmacêuticos e pais frequentemente presumem que crianças pequenas só conseguem ingerir líquidos. Comprimidos podem parecer intimidantes, e tanto pais quanto profissionais podem se preocupar com o risco de engasgamento. Os pais podem ter dificuldades para introduzir uma nova habilidade quando a criança está doente e chateada.
Como ensinar as crianças a engolir comprimidos?
A melhor forma de introduzir a ingestão de comprimidos é quando a criança está bem. O ensino pode ser feito pelos pais, com recursos online disponíveis para auxiliar nesse processo. Programas de treinamento recomendam começar com balas bem pequenas e aumentar gradualmente o tamanho à medida que a confiança da criança cresce. A criança escolhe sua bebida favorita, coloca a bala na língua, toma alguns goles e engole. Para a maioria das crianças, o progresso é rápido.
Os líquidos serão sempre necessários para bebês, crianças pequenas e crianças com necessidades complexas ou dificuldades de deglutição. Mas não precisam ser a opção padrão para todas as crianças.
Os médicos de clínica geral e outros profissionais de saúde que prescrevem medicamentos poderiam perguntar rotineiramente se uma criança consegue engolir comprimidos e registrar essa informação no prontuário médico, tornando-a facilmente acessível para consultas futuras. Os sistemas de prescrição poderiam ser ajustados para que os líquidos não sejam a opção padrão apresentada para crianças.
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Será necessário promover educação e mudança cultural. O treinamento sobre a ingestão de comprimidos poderia ser incluído nos currículos de médicos de família, farmacêuticos e prescritores, com atualizações para os profissionais já atuantes. Os farmacêuticos comunitários estão em uma posição privilegiada para orientar as famílias e aconselhar sobre as formulações adequadas. Escolas e programas de televisão infantis podem contribuir para a mudança cultural, normalizando a ingestão de comprimidos.
Os medicamentos líquidos costumam ser complicados de administrar, caros e difíceis de gerir. O seu uso generalizado contribui para tratamentos incompletos, utilização desnecessária dos serviços de saúde e custos ambientais desnecessários.
Com orientação simples e mudanças no sistema, muitas crianças podem tomar comprimidos desde cedo. Isso poderia reduzir o estresse das famílias, melhorar a eficácia do tratamento, diminuir custos e reduzir o impacto ambiental dos medicamentos.
* Rebecca Payne é professora clínica sênior na Universidade de Bangor