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sábado, abril 4, 2026

Artemis 2: Por que demorou tanto para astronautas voltarem à Lua?

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A missão Artemis 2 foi lançada com sucesso no dia 1º de abril de 2026, levando quatro astronautas para um sobrevoo no lado oculto da Lua a bordo da cápsula Órion

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Muito aguardado, o lançamento encerrou um hiato de mais de 50 anos sem missões tripuladas da NASA ao satélite natural, após o encerramento do programa Apollo em dezembro de 1972 com a aterrissagem da Apollo 17.

O retorno de astronautas da NASA à vizinhança lunar ocorre após décadas de interrupções causadas por mudanças de prioridades políticas e limitações orçamentárias, e não por falta de capacidade técnica.

O novo modelo de exploração busca ser sustentável, utilizando a Lua como base de aprendizado para futuras viagens tripuladas a Marte. É o que destaca Domenico Vicinanza, da Anglia Ruskin University, em artigo publicado no The Conversation recentemente.

Alinhamento de incentivos políticos e econômicos ditou o ritmo do retorno de astronautas da NASA à vizinhança lunar

Confira abaixo o texto do artigo na íntegra (traduzido para português):

“Às 13h24m59s no horário padrão central dos EUA do dia 19 de dezembro de 1972, o módulo de comando da Apollo 17 amerissou no Oceano Pacífico, a cerca de 350 milhas náuticas a sudeste de Samoa, encerrando a última missão tripulada americana à Lua.

Durante sua carreira, o comandante da Apollo 17, Eugene A. Cernan, registrou 566 horas e 15 minutos no espaço, das quais mais de 73 horas foram passadas na superfície da Lua. Cernan foi o segundo americano a caminhar no espaço e a última pessoa a deixar suas pegadas na superfície da Lua.

A conclusão da jornada da Apollo 17 marcou não apenas o fim de uma missão, mas o fim de uma era. Entre 1969 e 1972, 12 astronautas caminharam na Lua em seis pousos distintos.

Meio século depois, a NASA está retornando à Lua, com seu programa Artemis. Para a missão Artemis 2, que foi lançada no dia 1º de abril de 2026, quatro astronautas farão um sobrevoo do lado oculto da Lua dentro de uma cápsula tripulada – a Órion .

Mais de 50 anos é um longo intervalo, e é natural perguntar: se os americanos conseguiam chegar à Lua rotineiramente no início da década de 1970, por que demoraram tanto para tentar voltar?


A resposta não é simples. Tem pouco a ver com tecnologia e muito mais com a forma como a política, o dinheiro e o apoio global funcionam. O ponto de partida é o próprio programa Apollo: seu modelo de exploração não foi construído para durar, e claramente não era sustentável.

Em 25 de maio de 1961, perante uma sessão conjunta do Congresso americano, o presidente John F. Kennedy comprometeu os EUA com a meta de levar um homem à Lua e trazê-lo de volta em segurança à Terra antes do fim daquela década.

Após o assassinato de Kennedy em 1963, o presidente Lyndon B. Johnson garantiu que essa meta de pouso na Lua fosse cumprida. Mas os custos crescentes da Guerra do Vietnã e das reformas internas reduziram o interesse em novos investimentos espaciais.

Na verdade, o orçamento da NASA atingiu seu pico em 1966 e começou a cair mesmo antes do sucesso do programa Apollo, prejudicando as perspectivas de uma exploração sustentável. O financiamento adicional foi rechaçado, missões planejadas foram canceladas e o programa Apollo chegou ao fim em 1972 – não porque tivesse fracassado, mas porque havia cumprido sua missão.

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A exploração sustentável (tanto no espaço quanto na Terra) requer um compromisso político estável, financiamento previsível e um objetivo claro de longo prazo. Após o Apollo, os EUA tiveram dificuldades para manter esses três aspectos simultaneamente.

Os formuladores de políticas começaram a questionar qual direção a NASA deveria tomar a seguir. Em 1972, o então presidente Richard Nixon instruiu a agência espacial a iniciar a construção do ônibus espacial. Isso levaria a NASA a mudar seu foco da exploração do espaço profundo para operações na baixa órbita terrestre.

Visão de lado de um ônibus espacial pousando
Após três décadas de lançamentos, a NASA aposentou seus ônibus espaciais – Imagem: Arquivo Nacional dos EUA

Divulgado como um ‘caminhão espacial’ reutilizável, o ônibus espacial tinha como objetivo tornar o acesso à órbita da Terra algo rotineiro e relativamente barato. Mas ele acabaria se revelando um veículo de incrível complexidade, marcado por falhas técnicas e tragédias humanas – os acidentes com o Challenger e o Colúmbia, nos quais 14 astronautas perderam a vida.

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Oito anos após o início do programa do ônibus espacial, alguns integrantes da comunidade aeroespacial acreditavam que era hora dos EUA voltarem a mirar a Lua – e a perspectiva tentadora de um pouso em Marte. Em 20 de julho de 1989, no 20º aniversário do primeiro pouso lunar da Apollo 11, o presidente George H.W. Bush anunciou a Iniciativa de Exploração Espacial (SEI).

O plano visava um compromisso de longo prazo para construir a Estação Espacial Freedom, levar astronautas de volta à Lua ‘para ficar’ e, finalmente, enviar humanos ao planeta vermelho.

Mas os altos custos estimados da SEI, que chegavam a centenas de bilhões de dólares, levaram ao seu fracasso. O fraco apoio no Congresso, juntamente com outros fatores, levou ao seu cancelamento durante o governo do presidente Bill Clinton.

Durante a década de 1990, o projeto da Estação Espacial Internacional (ISS) consolidou a baixa órbita terrestre como prioridade para a exploração humana. O ônibus espacial foi o meio utilizado pelos EUA para construir a estação e transportar tripulações de e para o posto avançado em órbita.

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A ISS tornou-se um símbolo de cooperação científica internacional e de proeza técnica. As experiências realizadas na estação geraram insights valiosos em tudo, desde a pesquisa médica até a ciência de materiais. Mas também consumiram recursos que, de outra forma, poderiam ter apoiado a exploração do espaço profundo.

O desastre do Colúmbia em 2003 – no qual o ônibus espacial se desintegrou sobre o Texas, causando a morte de toda a tripulação – levou a uma nova reflexão sobre a direção da exploração espacial nos Estados Unidos. Como resultado, o presidente George W. Bush anunciou a Visão para a Exploração Espacial.

O objetivo dessa proposta, que daria origem ao que ficou conhecido como Programa Constellation, era reconstruir a capacidade da NASA de chegar à Lua, tendo Marte como meta de longo prazo. Mas análises independentes alertaram que os custos e cronogramas eram irreais. O Congresso americano nunca deu apoio financeiro total ao Constellation, levando ao seu cancelamento em 2010, durante a Presidência de Barack Obama.

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Esse ciclo repetido de projetos espaciais cancelados expõe algumas limitações inerentes ao sistema de financiamento da exploração lunar. Um programa lunar sustentável precisa de um forte compromisso multissetorial e de mecanismos para garantir financiamento por várias décadas.

Mas programas de tal magnitude precisam competir anualmente com gastos com defesa, saúde e assistência social. A rotatividade eleitoral e as mudanças na liderança das comissões nos EUA enfraquecem ainda mais a perspectiva de continuidade.

orion artemis 2 nasa lua
Astronautas da missão Artemis 2 dentro da cápsula Orion – Imagem: NASA

A exploração lunar também tem sofrido com uma questão estratégica não resolvida: por que voltar, afinal? O objetivo do programa Apollo era em grande parte geopolítico e, após a Guerra Fria, nenhuma justificativa igualmente convincente realmente surgiu.

Os retornos científicos das missões espaciais tripuladas são limitados em comparação com a exploração robótica. As perspectivas comerciais permanecem incertas, e o prestígio por si só raramente sustenta ou garante grandes orçamentos.

Talvez uma pergunta mais adequada seja: por que o Artemis parece ter escapado desse padrão? Bem, a NASA argumenta que enviar astronautas de volta à superfície lunar – e, em particular, estabelecer uma presença sustentada lá – ajudará os pesquisadores a aprender ‘como viver e trabalhar em outro mundo enquanto nos preparamos para missões tripuladas a Marte’. Isso é verdade, até certo ponto.

A NASA também enfatiza que o Artemis será construído por meio de parcerias comerciais e cooperação internacional, criando a primeira presença humana de longo prazo na Lua.

O programa parece situar-se numa interseção cuidadosamente elaborada entre a liderança do governo dos EUA, as capacidades de lançamento comercial e uma ampla coalizão de parceiros internacionais reunidos sob os Acordos Artemis. Os acordos são um conjunto de princípios comuns relativos ao uso da Lua e de outros alvos no espaço sideral, acertados entre os EUA e outros países.

A principal diferença em relação às promessas anteriores de retornar à Lua é que isso, pelo menos em teoria, distribui o risco e amplia a base de apoio político. Na prática, porém, o Artemis continua sendo caro e está exposto a mudanças nos orçamentos e nas prioridades.

Há também uma dimensão cultural nessa questão. O programa Apollo criou um mito poderoso – embora frágil – de avanço tecnológico rápido e heroico. O Artemis está construindo sua ampla base tecnológica em sociedades e contextos democráticos onde investimentos e compromissos tendem a evoluir lentamente, moldados por negociações, acordos e interesses concorrentes.

Se o Artemis for bem-sucedido, será porque todos os incentivos políticos, econômicos, sociais e científicos finalmente se alinharam de forma duradoura. Mas, até que esse alinhamento seja comprovado, o intervalo de 50 anos entre o Apollo e o Artemis é menos um quebra-cabeça de engenharia do que um lembrete de como a exploração espacial sustentada é difícil para as democracias modernas.”

Pedro Spadoni

Pedro Spadoni

Pedro Spadoni é jornalista formado pela Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). Já escreveu para sites, revistas e até um jornal. No Olhar Digital, escreve sobre (quase) tudo.


[Fonte Original]

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