O cenário mais pessimista do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para o aumento de temperatura no planeta é de mais 4,4 graus Celsius até 2100. Quanto maior a mudança, mais eventos extremos devem ocorrer.
Essas mudanças climáticas representam um desafio também para a construção civil, como aponta o relatório “Adaptação de edifícios às mudanças climáticas”, feito pela Saint-Gobain, multinacional francesa de material de construção, em parceria com a Arup, consultoria especializada em construção e meio ambiente.
Edifícios são afetados de forma óbvia em casos de enchentes, desabamentos e incêndios, mas outros eventos associados às mudanças climáticas também causam efeitos “de uma forma mais silenciosa, mas transformacional”, aponta o estudo, que se baseou em dados dos Estados Unidos, da Espanha e da Índia.
O aumento da temperatura eleva a demanda por energia — e por instalações que suportem essa demanda — e prejudica o conforto dos usuários. O estresse hídrico pode tornar áreas inabitáveis e exige economia do recurso. Chuvas intensas trazem riscos para a estrutura dos edifícios e desafiam sua capacidade de drenagem. Ventos fortes ameaçam a segurança estrutural e a continuidade dos serviços nos prédios, e exigem estudos atualizados sobre cargas de vento.
A pesquisa lembra, também, que os próprios edifícios contribuem para agravar as mudanças climáticas, ao contribuir para a formação de “ilhas de calor” nas cidades. “Temos que adaptar o estoque de prédios enquanto também repensamos como criamos novos edifícios”, afirma o relatório.
Nos Estados Unidos, 6,2 milhões de propriedades foram atingidas por granizo apenas em 2020, o que causou US$ 14,2 bilhões em prejuízos. Incêndios também são um problema no país: afetaram mais de 16 mil estruturas apenas em Los Angeles em 2025, com perdas que devem ir de US$ 76 bilhões a US$ 131 bilhões.
Tudo isso tem impacto também no mercado de seguros: o estudo da Saint-Gobain aponta que custos com seguro são a despesa que mais cresce atualmente para proprietários de edifícios. Nos Estados Unidos, os prêmios dos seguros comerciais subiram 88% em cinco anos.
Segundo a pesquisa, em mercados emergentes, apenas cerca de 30% das construções que existem hoje ainda estarão em pé em 2050. Já em mercados desenvolvidos, o índice sobe para 80%.
Para mercados emergentes, como é o caso do Brasil, é uma oportunidade para criar construções mais resilientes a eventos climáticos extremos. Nos imóveis já existentes, técnicas de retrofit (reforma) podem amenizar os problemas e prolongar a vida útil.
Já existem soluções construtivas que amenizam os problemas agravados pelas mudanças climáticas, mas são sistemas que exigem investimento por parte dos construtores e de quem encomenda as obras.
Para excesso de chuvas, por exemplo, há pavimentos permeáveis, jardins de chuva (que ajudam na drenagem) e valas de infiltração, que reduzem o escoamento superficial da água. Telhados verdes, com vegetação, retêm a chuva por mais tempo e retardam seu escoamento. Também existem membranas impermeabilizantes, que protegem a estrutura da entrada da água.
Para lidar com temperaturas mais altas, há dispositivos de sombreamento, como beirais — solução já tradicional e antiga — e itens mais novos, como vidros com controle de entrada de luz solar e sistemas de envoltório térmico para edifícios, que isolam a temperatura. Também podem ser usados materiais que refletem a luz, de cores claras.
Para aumentar a resiliência das edificações ao clima, é possível ter painéis fotovoltaicos nos telhados e também usar o topo do prédio para captar água da chuva. O estudo lembra que fachadas ventiladas também aumentam sua resistência.
Para situações de ventos e chuvas fortes, há persianas específicas para resistir a tempestades, telas de malha que impedem a entrada de detritos e barreiras contra inundações, que podem ser acionadas em caso de necessidade.
“Originalmente desenvolvidas para nichos de mercado ou condições extremas, essas soluções agora estão alcançando uma maior aceitação comercial”, afirma o relatório.
A consultoria JLL, citada no relatório, estima que proprietários de edifícios vão gastar mais em itens de resiliência climática e que investidores darão preferência a edifícios que sejam resilientes. Por isso, deve ser dada mais atenção às avaliações de risco climático dos ativos, para “entender o risco e os planos de adaptação climática, desenvolver adaptações para ativos existentes e encontrar novas maneiras de integrar as mudanças climáticas em novos projetos”.
Conforto térmico no Minha Casa, Minha Vida
As construções feitas hoje em São Paulo para o programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) podem não oferecer o conforto térmico necessário aos seus ocupantes no futuro, mostrou uma pesquisa feita pela arquiteta Beatriz Mélo, para seu trabalho de conclusão de curso na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, em 2024.
Tomando como base uma planta de 32 metros quadrados e dois quartos, comumente vendida em imóveis do MCMV na cidade, ela aplicou a projeção futura do IPCC para cenário de aumento de 4,4 graus Celsius na temperatura média e comparou com o desempenho atual nesses projetos.
Se os quartos hoje podem ser considerados termicamente confortáveis em 85% do tempo, em 2050 essa parcela cai para 82% e, em 2090, para 67%.
Já a sala passa por situação pior, com conforto em 62% do tempo, atualmente, mas uma projeção de que essa fatia recue para 30% em 2050 e apenas 12,5% em 2090.
A pesquisa de Mélo aponta algumas causas para isso, como a área diminuta das unidades e a falta de ventilação cruzada. A pesquisadora ressalta que as simulações foram feitas em plantas sem varanda. Nos imóveis com varanda fechada com vidro, a situação pode ser pior.
“Quase que como numa lógica de bens de consumo, os apartamentos já saem dessa ‘esteira’, com data de validade”, descreve a autora na pesquisa.