Seriam os quadrinhos, lidos por adultos, conteúdos diletantes de quem não atingiu a maturidade? Esse questionamento, estabelecido ao ser surpreendido lendo Odisseia, parte do projeto Clássicos da Literatura em Quadrinhos, apoiado pela UNESCO e lançado aqui no Brasil pela Editora L&PM, veio ao retomar, meses depois, o material, para a análise nesse ciclo acerca da poesia homérica, pavimentação de um caminho de maior compreensão do universo em questão, para contemplação da versão vindoura do poema, traduzida para o cinema, por Nolan. A associação direta entre histórias em quadrinhos e o público juvenil é um estigma enraizado em um preconceito cultural que desconsidera a complexidade estética e narrativa da nona arte. Ao rotular o consumo de HQs por adultos como um sinal de imaturidade ou diletantismo superficial, ignora-se que esse suporte é capaz de abordar temas profundos, como filosofia, política e traumas históricos, muitas vezes com camadas de interpretação inacessíveis a crianças. Essa visão redutora nega aos quadrinhos o status de literatura legítima, tratando uma escolha consciente de linguagem artística como se fosse um retrocesso no desenvolvimento intelectual do indivíduo. Até na arte e em momentos de lazer, precisamos lidar com problematizações.
Além disso, julgar a maturidade de um leitor com base no formato da obra que ele consome é uma forma de elitismo intelectual que ignora a evolução do meio nas últimas décadas. Obras consagradas e premiadas demonstram que a fusão entre texto e imagem exige um letramento visual sofisticado, muitas vezes mais exigente do que a prosa convencional. Estigmatizar o adulto que lê quadrinhos é, portanto, reproduzir um pensamento anacrônico que confunde entretenimento visual com infantilismo, desprezando a capacidade humana de encontrar profundidade e reflexão em diversas plataformas de expressão cultural. Dito isso, algo que define mais ou menos a resposta dada no momento mencionado na abertura dessa breve análise, volto para declarar que Odisseia, roteirizada por Christophe Lemoine e desenhada por Miguel Lalor Imbiriba, é um trabalho introdutório ao universo homérico que nos apresenta traços mais firmes, linhas coesas e riqueza de detalhes que poucos artistas conseguem delinear em suas versões.
Nesse espetáculo de momentos de aventura acompanhados por cores vibrantes e desenhos expressivos, em especial, ao retratar os seus personagens, a transposição semiótica da Odisseia para as histórias em quadrinhos revela um desafio intrínseco de tradução cultural e formal. Ao migrar da densidade da poesia épica hexâmétrica para a gramática visual das HQs, ocorre uma inevitável diluição do conteúdo ponto de partida. A complexidade das camadas narrativas de Homero, ricas em epítetos, digressões genealógicas e um ritmo contemplativo, muitas vezes é “mutilada” em prol da fluidez sequencial e das limitações do suporte editorial contemporâneo, que exige uma síntese nem sempre generosa com a profundidade do texto base. Assim, nesse processo de adaptação, estabeleceu-se um padrão quase canônico de seleção de episódios, privilegiando o espetáculo visual em detrimento da jornada interior de Odisseu.

A narrativa costuma ser impulsionada pela fúria de Poseidon, cuja ira divina serve como o motor de ação perfeito para as páginas vibrantes de um gibi. Esse conflito estabelece o tom de uma aventura de sobrevivência, onde a força da natureza e o capricho dos deuses justificam a sucessão de perigos que o herói deve enfrentar. O embate com o Ciclope Polifemo surge, então, como o ponto alto da engenhosidade transformada em ação gráfica. É nesse momento que os roteiristas costumam brilhar ao ilustrar a tensão entre a brutalidade física do monstro e a astúcia intelectual de Odisseu. A cena do “Ninguém” e a cegueira do gigante oferecem um apelo visual imediato, consolidando a ideia de que a adaptação para quadrinhos busca, primordialmente, os momentos de maior impacto dramático e de fácil compreensão mítica.
Em quase todas as versões, temos a iconografia que se tornou um clichê estrutural no meio: até hoje, das várias traduções da Odisseia para quadrinhos, praticamente todas seguem esse mesmo roteiro episódio básico. Temos também o encontro hipnótico com as sereias e a passagem pela ilha de Circe. Outro ponto recorrente é o episódio do presente de Éolo (frequentemente confundido ou fundido com Hélio em certas adaptações simplificadas), onde a falta de responsabilidade dos marinheiros ao abrir o odre dos ventos serve como uma lição moral sobre a fragilidade humana. Esses fragmentos são escolhidos a dedo por permitirem uma exploração estética da fantasia e do erro trágico, elementos que funcionam organicamente na dinâmica de quadros e balões, aqui dispostos ao longo de 60 páginas.

O retorno a Ítaca, por sua vez, é frequentemente apressado para convergir no clímax da vingança. O foco se estreita no embate final contra os pretendentes que usurpam o trono, transformando a complexa política doméstica do palácio em uma sequência de ação catártica. O episódio das flechas, onde Odisseu revela sua identidade através da perícia física, torna-se o ápice da narrativa visual, preparando o terreno para a resolução do conflito que se arrastava por décadas de ausência. Assim, em linhas gerais, as traduções costumam encerrar-se no reencontro amoroso com Penélope, funcionando como um porto seguro narrativo que oferece o fechamento emocional esperado pelo leitor. Embora essa estrutura simplificada ignore as nuances da fidelidade conjugal e as sombras que a guerra deixou na alma do herói, ela cumpre o papel de traduzir o mito em uma jornada de herói clássica. É o que basicamente encontramos por aqui, nessa versão com impressão sofisticada e formato que permite uma boa experiência de leitura.
Lançada em fevereiro de 2016, a graphic novel Odisseia representa uma excelente tradução semiótica da poesia homérica para o suporte das HQs, integrando uma espetacular coleção de clássicos do patrimônio literário mundial originalmente publicada pela Editora Glénat. Adaptadas por renomados roteiristas e ilustradores belgas e franceses, as edições oferecem um rico painel sobre o autor e sua obra, contando inclusive com o prestigiado apoio da UNESCO, que chancela o projeto por seu alto valor pedagógico. Longe de tentar substituir a profundidade da poesia original de Homero, esses quadrinhos criam uma porta de entrada visual que, embora diluída para o novo formato, combina tradição e modernidade para manter viva a chama da aventura mais antiga do Ocidente. Esta publicação apresenta um estudo sintético e informativo sobre o autor, sua época e obra. O conteúdo é elucidativo e essencial para quem deseja se aprofundar no profícuo universo da poesia homérica. Uma boa porta de entrada para a saga de Odisseu.
Clássicos da Literatura em Quadrinhos: Odisseia (França/Fevereiro de 2016)
Roteiro: Christophe Lemoine
Arte: Miguel Labor Imbiriba
Editora no Brasil: Editora L&PM
60 páginas