A suspensão temporária dos embates entre os Estados Unidos e o Irã, anunciada na noite de terça-feira pelo presidente americano, Donald Trump, promoveu um forte alívio da percepção de risco na sessão de hoje, o que levou o Ibovespa a um novo recorde de fechamento.
Logo após a abertura dos negócios, o índice renovou o recorde intradiário, ao tocar os 193.759 pontos, zerando as perdas geradas pela guerra no Oriente Médio, mas o movimento perdeu um pouco de força ao longo do dia. Durante o pregão, a percepção de que o cessar-fogo temporário e a liberação segura da navegação pelo Estreito de Ormuz era frágil foi crescendo entre agentes financeiros. Relatos de violações à trégua e de um novo fechamento do Estreito, aliados a declarações do presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Baqer Qalibaf, voltaram a elevar um pouco o receio dos participantes ao longo do dia.
Com isso, o índice terminou em alta de 2,09%, aos 192.201 pontos, distante das máximas, porém renovando o recorde de fechamento nominal, batido anteriormente em 24 de fevereiro, de 191.490 mil pontos.
Embora o tombo de mais de 13% nos preços de petróleo tenha pesado sobre as ações da Petrobras, a alta forte de outras blue chips atuou como contraponto para manter o avanço expressivo do Ibovespa no pregão. No fim, as PN da Petrobras recuaram 3,92%, distantes das mínimas vistas no começo da manhã, que passaram de uma queda de 8%.
Na ponta contrária, as ON da Vale subiram 2,27%, assim como as blue chips de bancos, que avançaram até 6,72%, caso das units do BTG Pactual.
Para o CEO da Tenax Capital, Alexandre Silvério, o “rali de alívio” desta quarta-feira é justificado e não indica excesso de otimismo. A explicação, diz o executivo, é que o mercado nunca precificou, tanto na renda fixa global quanto no mercado de ações, a manutenção dos preços de petróleo na faixa entre US$ 100 e US$ 120 por um período mais longo, o que poderia levar a um cenário de estagflação.
“Se o petróleo permanecesse na faixa entre US$ 100 e US$ 120 por mais tempo, provavelmente, poderíamos ver revisões baixistas para a atividade e para os lucros das companhias, além de pressões altistas sobre a inflação. Seria o chamado cenário de estagflação”, resume Silvério. “Na minha opinião, o mercado não estava precificando isso, aguardando os próximos passos da guerra.”
Na avaliação do CEO da Tenax, a disposição de um acordo entre os EUA e o Irã cria um cenário de menor pressão geopolítica e tende a favorecer os preços dos ativos de risco.
Com a queda dos preços do petróleo e a sinalização de um choque inflacionário mais contido, o Brasil deve ser menos impactado, o que recoloca em pauta o tamanho do ciclo de corte da Selic. “Tudo isso, aliado ao fluxo estrangeiro, deve manter a bolsa muito bem”, avalia.
O executivo aponta que o movimento mais natural nos próximos dias é o de uma realocação setorial, uma vez que o Ibovespa foi afetado positivamente pela alta das ações da Petrobras, que acumulam valorização de 51,20% no ano, apesar de terem encerrado o pregão de hoje em queda. Com isso, a expectativa é de redução do apetite por empresas ligadas ao setor de energia — especialmente Petrobras e outras petroleiras — e de aumento da demanda por papéis que sofreram mais, em particular as cíclicas domésticas.
“É esperado que haja uma acomodação nos papéis e uma retomada das ações que foram muito prejudicadas, seja por uma possível desaceleração econômica, em função do juro real elevado, seja por efeitos secundários do choque do petróleo”, destaca Silvério. Nesse primeiro momento, segundo ele, as empresas domésticas tendem a se beneficiar.
Em virtude do forte fluxo de notícias, o volume financeiro negociado pelo Ibovespa hoje chegou a R$ 32,6 bilhões, bem acima da média diária de R$ 23,2 bilhões registrada desde o começo do ano. Já na B3, o giro financeiro alcançou R$ 41,6 bilhões.
O movimento local espelhou o visto em Nova York. Por lá, o Dow Jones encerrou em alta de 2,85%; o Nasdaq avançou 2,80%; e o S&P 500 ganhou 2,51%.