A economia brasileira passa por um processo de mudança estrutural na participação das atividades econômicas no Produto Interno Bruto (PIB) e esse movimento, que ocorre de maneira lenta e gradual, pode conduzir a um perfil diferente do PIB nos próximos anos, segundo especialistas.
Uma parte desse processo pode ser visualizada no resultado do PIB de 2025. Pelo lado da oferta, a participação da atividade agropecuária no PIB do país terminou o ano passado em 7,1% do total. Não somente acima da fatia de 2024 (6,7%), mas a maior desde 2000, início da série do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em contrapartida, a indústria da transformação terminou o ano passado com fatia de 13,7% do PIB. Além de ser menor do que a proporção observada em 2024 (14,1%), foi o patamar mais baixo desde 2020 (12,3%). “Eventualmente podemos chegar a um momento em que a gente possa ver o tamanho do agro ser maior em participação do que a indústria de transformação”, disse o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. Ele ponderou, que, caso isso realmente ocorra, seria em horizonte de longo prazo. A médio prazo, Vale comentou que a fatia da indústria pode diminuir para cerca de 10%. “E agro está subindo. Vai ficar entre 7% e 8%.”
Vale fez outra ressalva: atividades industriais e de serviços relacionadas ao agro não entram na composição agropecuária do valor adicionado dessa atividade no PIB. “A indústria total no Brasil hoje é 23,4% [do PIB]”, disse. “Parte dessa indústria tem composição agrícola. Se juntarmos toda a cadeia da agroindústria, comparada com indústria total, ela [a agroindústria] já está acima como participação da indústria total no [PIB do] Brasil.”
O percentual oficial da agropecuária no PIB foi de 7,1%, mas cálculos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada – Cepea-Esalq/USP mostram que o espalhamento na economia é bem maior. A expectativa é que a participação do setor alcance 24,4% em 2025, ante 22,9% em 2024. Para 2026, a projeção é de 24,2% em 2026. A conta engloba todo o agronegócio, como em serviços e indústria voltados ao campo.
“A agropecuária no Brasil tem se mostrado muito competitiva nos últimos anos. Tivemos muito investimento, muita expansão de área”, disse Armando Castelar, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
Castelar, ex-chefe do Departamento Econômico do BNDES, disse que houve direcionamentos para que tal movimento ocorresse: alocação de recursos, pesquisas genéticas de sementes, de adubos, entre outras estratégias que elevaram a produtividade no campo. Em contrapartida, continuou, a perda de participação da indústria de transformação no PIB tem ocorrido de forma contínua há alguns anos. O movimento no setor industrial brasileiro difere um pouco do que ocorre em países de perfil semelhante. Historicamente, países pobres dependem mais da agropecuária. Porém, quando a economia se desenvolve, a indústria ganha participação no PIB. Foi o que ocorreu no Brasil entre 1930 e 1980.
Quando os países atingem perfil de alta renda, o setor de serviços cresce significativamente. Mas no Brasil a agropecuária e a indústria extrativa ganham participação no PIB de forma consistente. Um dos aspectos que explicam esse quadro é o mercado internacional. Ocorreram nos últimos anos constantes e crescentes valorizações de preços de commodities agrícolas e minerais que têm no Brasil um forte produtor. O que impulsionou o valor adicionado dessas atividades. E as mudanças, na composição do PIB, não abrangem somente agropecuária e indústria, disse Castelar.
Ele chamou atenção para a evolução da participação da atividade de serviços na economia. Em 2025, a fatia de serviços representou 69,5% do PIB, levemente acima de 2024 (68,9%).
Castelar destacou que, embora a participação dos serviços como um todo possa não subir muito mais nos próximos anos, o mesmo não pode ser dito do que ocorre “por dentro” da atividade. Para ele, há uma “sofisticação” interna na economia de serviços do país, influenciada por novas tecnologias. Ele não descartou que alguns subsetores, como o comércio, possam cair dentro do PIB nos próximos anos. E, ao mesmo tempo, podem crescer os serviços de informação, comunicação e financeiros.
Sinais desses movimentos podem ser vistos nas contas nacionais de 2025. O comércio respondeu por 11,6% do PIB. Além de inferior a 2024 (12,1%), foi o menor desde 2005 (10,8%). Por outro lado, serviços de informação e de comunicação atingiram 3,6% do PIB, igual a 2024 e o maior desde 2021 (3,9%). “Minha percepção é que, sim, há mudança estrutural [no PIB do Brasil]”, resumiu Castelar.
Nem mesmo a pandemia em 2020 teve força para mudar de forma estrutural o PIB, acrescentou Claudio Considera, economista e coordenador do Núcleo de Contas Nacionais (NCN) do FGV Ibre. “A pandemia certamente atrapalhou um pouco, principalmente o setor de serviços. Toda essa parte de restaurante, viagem, isso tudo foi mudado pela pandemia”, lembrou. Isso foi perceptível na fatia de serviços no PIB na época. A participação de serviços na economia saiu de 73,3% em 2019 para 70,9% em 2020 e recuou em 2021, para 66,5%, a menor desde 2005 (66%). Mas Considera ponderou que a atividade voltou a se mostrar forte: “Não acho que a pandemia tenha tido papel tão importante nessa mudança estrutural”.