Pedir para uma criança largar a tela e abrir um livro é um desafio injusto. De um lado, vídeos e aplicativos desenvolvidos para capturar a atenção a cada poucos segundos. De outro, um livro que exige concentração e tolerância a um ritmo mais lento. A tecnologia começa a tomar conta dos mais diferentes aspectos da vida dos jovens, sempre associada ao entretenimento ou à facilidade. Trocar um aparelho pelo papel é como pedir que uma criança deixe de pegar um elevador panorâmico para subir pelas escadas.
É claro que esse problema é multifatorial, mas quando o assunto é despertar o interesse dos jovens pelos livros, um aspecto relevante é o entretenimento. Crescemos ouvindo dentro de casa que a leitura é uma obrigação (ou, para alguns, um castigo). “Você precisa ler 30 minutos se não vai ficar sem videogame”. A associação, aos poucos, começa a se tornar automática. A criança, que inicialmente gostava de ler, perde o interesse e a leitura deixa de ser escolha.
Na escola, em geral, a situação não é diferente. Quando o aluno começa a ter aulas de literatura, o tema é trazido de uma forma técnica. Ele aprende a identificar um narrador de Machado de Assis antes de descobrir por que ele é tão bom. Ao final, é ler para decorar e tirar uma nota boa na prova. Na hora de escolher qual profissão seguir, os clássicos surgem no vestibular. E esse adulto vai seguir enxergando nas páginas apenas uma ferramenta de aprendizado, dissociada do entretenimento, como confirmam as listas de livros mais vendidos. Pais que não servirão de exemplo para os filhos.
O problema, portanto, não está apenas nas telas, mas sobretudo em nós, adultos, que não conseguimos apresentar o livro como algo desejável.
E é nesse cenário que fica difícil ouvir desse jovem: eu sou apaixonado pelos livros. No Reino Unido, por exemplo, o relatório de 2025 do National Literacy Trust revelou que apenas um entre três jovens entre 8 e 18 anos leem por prazer em seu tempo livre, o que indica uma queda de 36% desde que a pesquisa começou a ser feita, em 2005. Há, sim, exceções. Mas a tendência é que o hábito da leitura continue caindo. Se essa forma de abordar a leitura já foi um dos fatores responsáveis por formar uma geração de adultos de maioria não leitora, como no caso do Brasil, imagine quando somarmos a isso crianças que crescem com o estímulo irresistível das telas?
A mudança passa por tornar a leitura lúdica antes de ser educativa. Ler junto, em voz alta, deixar a criança escolher o livro na livraria, transformar a história em conversa. Na escola, o meu desejo era que os alunos tivessem dois momentos distintos: a leitura curricular, inevitável, e um momento de leitura por prazer, sem prova e sem obrigação.
A concorrência com a tela é desleal, sim. E é justamente por isso que mudanças na forma como abordamos a leitura são mais urgentes do que nunca. Seguir no automático é alimentar a tendência de que o hábito da leitura se perca. Talvez um primeiro passo seja simples: abrir um livro na frente de uma criança ou adolescente sem pedir nada em troca.