22.5 C
Brasília
quinta-feira, janeiro 29, 2026

Entenda por que o dólar saiu de R$ 5,50 para R$ 5,20 em menos de um mês

- Advertisement -spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_imgspot_img

Da virada do ano para o fim de janeiro, o dólar à vista caiu mais de 5% frente ao real, abandonando o nível de R$ 5,48 no último fechamento de 2025 para algo em torno de R$ 5,20 nos últimos dias. O movimento de depreciação da moeda americana não é isolado e exclusivo do mercado brasileiro, mas a magnitude observada frente ao real é a que mais se destaca. Lá fora, o dólar cai neste mês 4,44% frente ao peso mexicano; 4,37%, ante o peso chileno; 3,88% contra o rand sul-africano; e 2,73% ante ao peso colombiano. O que explica, então, essa valorização mais forte do real neste começo de ano?

Desvalorização do real em dezembro

Ainda que, neste mês de janeiro, o real se destaque entre os pares de moedas emergentes e também de mercados desenvolvidos, em dezembro a dinâmica foi exatamente a aposta. Já no começo de dezembro, o anúncio da pré-candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o mercado apreensivo quanto a uma redução na probabilidade de alternância de Poder nas eleições deste ano, elevando a percepção de risco fiscal, uma vez que passou a dominar a leitura de que o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderia ter um quarto mandato presidencial.

O prêmio de risco embutido nos ativos — incluindo o real — atrelado à questão fiscal cresce quando o petista avança nas pesquisas, por conta da condução da política fiscal da atual gestão.

A sazonalidade de fim de ano do fluxo cambial ajudou a pressionar adicionalmente o câmbio. Todo ano, em dezembro, há saídas elevadas de dólares do país, mas, no ano passado, houve uma tensão particular. Os agentes esperavam que fosse sair do país um montante ainda mais elevado de dólares, semelhante ou até superior ao visto no ano anterior, em 2024. Isso porque, no ano passado, houve mudanças na tributação de lucros e dividendos e, buscando contornar essa tributação antes do início de sua validade, as empresas poderiam antecipar remessas para o exterior. A pressão não se concretizou, com a saída de capital do país em dezembro de 2025 sendo a metade da observada um ano antes: US$ 13,5 bilhões contra US$ 27 bilhões.

Com o mau humor político e fiscal e incertezas sobre fluxo, operadores foram cautelosos e evitaram montar posições favoráveis ao real no período. Por conta disso, o real se distanciou dos pares, como bem mostrou matéria do Valor no fim do ano. Em janeiro, portanto, passado o estresse do fluxo e com o noticiário eleitoral mais silencioso, não havia barreiras para uma recuperação do real, que “devolvesse” o mau humor visto em dezembro.

Desvalorização global do dólar

Além do ambiente local menos ruidoso, o cenário externo também beneficiou o câmbio doméstico. Esse foi o principal motor para a valorização do câmbio na segunda metade do mês. O movimento foi resultado da intenção dos agentes do mercado em reduzir a exposição a ativos dos Estados Unidos, em meio a crises geopolíticas envolvendo o país e também diante da insegurança institucional, em especial após o Departamento de Justiça (DoJ) abrir uma investigação criminal contra o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell.

Como resultado, houve uma busca por ativos alternativos como segurança em vez do dólar, o que beneficiou metais preciosos, como ouro e prata. Esse sentimento também se mostrou presente na piora da percepção de risco fiscal nas economias desenvolvidas. Isso reacendeu no mercado a discussão sobre o “debasement trade” (desvalorização acentuada de moedas em contraponto a ativos reais).

Assim, seja por questões geopolíticas, institucionais ou pelo endividamento público, o dólar perdeu atratividade neste começo de ano.

Busca por diversificação

Com o dólar mais fraco e com os “valuations” (preços no mercado) dos ativos americanos bastante esticados, investidores globais passaram a procurar oportunidades de investimentos em outros mercados. O movimento de rotação dos portfólios globais, com os investidores estrangeiros buscando diversificar suas carteiras, beneficiou os mercados emergentes. Não à toa, o Ibovespa acumulou valorização próxima de 15% em menos de um mês. Com o fluxo crescente para a bolsa brasileira, a entrada de capital estrangeiro para o país dá suporte ao câmbio brasileiro.

Alta de preços de commodities

Em geral, quando o valor do dólar recua globalmente, os preços das commodities avançam — e é o que está ocorrendo agora. O banco americano J.P. Morgan chama atenção para o fato de que o ambiente global está altamente pró-cíclico, algo que não era visto desde a recuperação pós-covid. Daí a valorização de bolsas de mercados emergentes mais sensíveis a preços de commodities — da mesma forma que há valorização das moedas também sensíveis aos preços das matérias-primas.

Preços baixos dos ativos

Outro fator que explica essa diversificação de investimentos e o interesse pelos mercados brasileiros é o baixo preço dos ativos locais. Tanto a bolsa brasileira quanto o câmbio estavam com seus “valuations” amassados (baixos em relação ao nível justo). Isso significa que o investidor estrangeiro pode fazer grandes alocações no Brasil. “É como se um gestor internacional chegasse com uma nota de US$ 100 em uma loja de R$ 1,99 no Brasil. Ele tem poder de compra muito elevado não só por conta de seu dinheiro supervalorizado frente ao real, mas pelos baixos preços dos produtos”, diz um operador de câmbio na condição de anonimato.

Juros elevados e prestes a cair

Outro motivo que mantém o Brasil atrativo são os juros elevados e a proximidade do início dos cortes da Selic. Pode soar contraditório, mas tanto os juros elevados quanto o início de corte de juros beneficiam o câmbio por conta do fluxo ao país. No primeiro caso, os juros elevados beneficiam o real por conta da estratégia de “carry-trade”, de o investidor se financiar em moeda de um país com juros baixos e investir em outro com taxas mais elevadas, lucrando com a diferença entre os juros. Portanto, a Selic a 15% é um atrativo de capital para esse tipo de estratégia. Hoje, o Brasil se destaca entre os emergentes por conta de suas taxas elevadas.

No segundo caso, a perspectiva de corte de juros no Brasil abre espaço para que os investidores façam aportes tanto na renda fixa (buscando capturar o rendimento da queda das taxas) quanto na renda variável (buscando aproveitar toda a futura valorização de ações de empresas pró-cíclicas, que se beneficiam dos juros mais baixos). Daí o influxo de capital estrangeiro ser propício neste momento.

Por fim, com o recesso parlamentar e com o cenário eleitoral ainda indefinido, ruídos políticos e fiscais se dissiparam neste começo de ano, abrindo espaço para que o real acompanhasse os pares no movimento global de desvalorização do dólar.

Daqui em diante, essas variáveis podem se alterar e mudar essa “constelação perfeita” que beneficia o câmbio. Para gestores ouvidos pelo Valor, os mercados emergentes ainda podem receber entrada de capital estrangeiro, uma vez que ficaram muitos anos “esquecidos”.

Da mesma forma, a menor exposição ao dólar, por contas de incertezas relevantes nos EUA, pode levar a um enfraquecimento adicional da moeda americana. O que pesa contra o real é o cenário eleitoral brasileiro, em especial as perspectivas da sustentabilidade da dívida pública, e isso pode começar a pressionar o câmbio à medida que os nomes da disputa presidencial deste ano foram sendo definidos.

[Fonte Original]

- Advertisement -spot_imgspot_img

Destaques

- Advertisement -spot_img

Últimas Notícias

- Advertisement -spot_img