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quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Crítica | O Gerente da Noite – 2ª Temporada – Plano Crítico

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  • spoiler apenas da grande (e mais do que óbvia) revelação que acontece ao final do terceiro episódio.

Sei muito bem que, especialmente na competitiva Era do Streaming em que vivemos, nada no audiovisual permanece intocado por muito tempo, mas confesso que eu não imaginaria nem em um milhão de anos que desenterrariam a minissérie O Gerente da Noite, baseada em romance homônimo de John le Carré, e a converteriam em série, continuando a história 10 anos depois de ela ir ao ar e não apenas com uma, mas duas temporadas extras. O que acabou muito bem fechado e redondo é reaberto por completo, com Tom Hiddleston retornando como Jonathan Pine, agora trabalhando em Londres para o MI-6 sob o nome Alex Goodwin, como “gerente” de uma divisão de espionagem noturna criada para justificar a permanência do título original. Tudo bem que faz parte do modus operandi de Hollywood mergulhar profundamente no baú de propriedades intelectuais esquecidas para não precisar criar nada do zero, pois dá mais trabalho e parece não chamar tanta atenção como deveria, mas minha reação à notícia da ressuscitação dessa série foi de incredulidade e também uma certa frustração.

Uma coisa, porém, é aplaudível nesse esforço de David Farr de criar uma história que reabre a Caixa de Pandora de Pine e sua obsessão por tudo que se conecta a Richard Roper (Hugh Laurie), o traficante de armas que ele foi bem sucedido em fisgar e que, no preâmbulo quatro anos depois do evento da agora primeira temporada, vemos morto em uma prisão na Síria: ele soube manter a atmosfera elegante, sofisticada e enervantemente calma que eu salientei logo no começo de minha crítica de 10 anos atrás. E saliento esse aspecto, pois, essa escolha é cada vez mais rara no momento atual, em que tudo precisa obedecer à regra não escrita que séries e filmes precisam ter sequências de ação e/ou reviravoltas a cada 10 minutos para que o espectador não tenha tempo de desviar os olhos da tela para repousá-los na maquininha dos infernos conhecida pelo enganoso epíteto smartphone. Se alguma coisa, o segundo ano da série é uma obra de queima lenta, que constrói tensão com tempo e paciência e não com pancadaria e que coloca o personagem de Hiddleston, mais uma vez, no centro do palco, dando tempo para o ator trabalhar todas as suas nuances.

Dessa vez, porém, o resultado final não tem o mesmo frescor ou eficiência de uma década atrás. Ao contrário até, o que notei foi que Farr não quis se afastar do que ele mesmo criou anteriormente, ao mesmo tempo que, certamente por determinação das produtoras, precisou criar um híbrido que mantém a lentidão necessária para fazer da série o que ela é, mas comprometendo-a com bem mais sequências clássicas de ação que acabam fazendo de Pine um personagem menos crível ainda do que ele havia sido no primeiro ano, pois ele parte de ex-militar para superespião em um piscar de olhos e, agora, vai de superespião de escritório para um expert em campo à la James Bond, e, ainda por cima, na Colômbia. Além disso, uma coisa é a lentidão progressiva que a série tinha e outra bem diferente é a lentidão pela lentidão, que é o que acontece agora, com a estrutura da série sofrendo muito por sua necessidade de manter escondido o fato de que Roper, na verdade, não morreu e vem, desde sua “morte” há seis anos, trabalhando nas sombras para reconstruir seu império de armas com a ajuda não só dos britânicos, como também de Teddy dos Santos (Diego Calva) um ambicioso traficante de armas colombiano que ele alberga como seu pupilo.

Para colocar Pine ao encalço de Roper, o roteiro de Farr cria uma coincidência, que é a detecção, por Pine, de um minion de Roper durante uma de suas noites monitorando pessoas de interesse em hotéis de Londres. Obcecado por qualquer coisa conectada com Roper, ele manobra secretamente sua equipe para investigar o sujeito e essa tênue linha vai, aos poucos, tornando-se algo mais palpável, mais provável e mais sólido, até que ele, ao lado de dois agentes de sua equipe, Basil Karapetian (Paul Chahidi) e Sally Price-Jones (Hayley Squires), sai em missão não sancionada atrás de Teddy. Em um primeiro momento, a história funciona, mas ela logo freia, demorando demais a decolar novamente, tudo para que o mistério sobre o que realmente aconteceu com Roper possa ser empurrado para a metade da temporada, o que, então, leva ao reinício da dinâmica entre os personagens e à melhoria da história, já que ela passa a ter um norte definido e não mantido no lusco-fusco.

Há muita sensualidade na temporada, algo que vem de um triângulo amoroso entre Pine, dos Santos e Roxana Bolaños (Camila Morrone), a femme fatale da vez cuja lealdade é mais do que maleável, mas é no mínimo curioso como os roteiros tem receio de sexo ou até mesmo de beijos. Não que todo espião charmoso precise acabar na cama com a Bond Girl, claro, mas, aqui, é notável e até um pouco cômico como há diversas cenas que aproximam corpos, mas que não acabam em lugar algum. Não sei muito bem como diagnosticar isso, mas me pareceu um pouco de covardia não deixar que nenhum dos personagens chegue às vias de fato diante das câmeras, algo que é especialmente estranho se considerarmos as insinuações homossexuais que não são nada discretas, como se o resultado final tivesse sido levado para aprovação dos engravatados e eles tenham exigido que esse aspecto fosse suavizado o quanto fosse possível sem comprometer a história (e, claro, sem gastar mais dinheiro).

Com uma fotografia muito bonita que faz belo uso de filmagens em locação em diversos lugares da Colômbia, tanto centros urbanos enormes quanto vilarejos diminutos e selvas densas, O Gerente Noturno segura seu charme e permite bom uso de seus personagens, algo que fica marcadamente melhor quando Hugh Laurie tem o espaço que a persona ameaçadora e maior que a vida de seu marcante personagem finalmente aparece em cena. Há, porém, muita história andando de lado aqui que leva o espectador a um final que é a antítese da ex-minissérie original, ou seja, fica completamente em aberto para a já prometida terceira temporada que fechará a história toda, isso se, claro, não inventarem de continuar depois com outro grande vilão para Pine espionar, pois nada tem fim na máquina audiovisual dos tempos modernos, nem mesmo material que estava descansando em berço esplêndido há uma década…

O Gerente da Noite (The Night Manager – Reino Unido, 1º de janeiro a 1º de fevereiro de 2026)
Direção: Georgi Banks-Davies
Roteiro: David Farr (baseado em obra de John le Carré)
Elenco: Tom Hiddleston, Diego Calva, Camila Morrone, Paul Chahidi, Hayley Squires, Indira Varma, Kirby Howell-Baptiste, Slavko Sobin, Unax Ugalde, Alberto Ammann, Diego Santos, Cristina Umaña Rojas, Hugh Laurie, Olivia Colman, Alistair Petrie, Douglas Hodge, Michael Nardone, Noah Jupe
Duração: 367 min. (seis episódios)



[Fonte Original]

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