Casada há nove anos, a consultora de vendas Bianca La Greca, de 46, não se lembra da última vez em que teve um momento a dois ou de carinho com o marido. Morando na Holanda, a carioca diz estar vivendo uma vida “de solteira”, e que, na relação, há pouco ou nenhum diálogo. Raros, também, são os momentos de afeto. “Quando o conheci, ele não tinha uma vida social ativa. Parecia estar um pouco desesperado para casar, mas, tentava fazer as coisas de uma maneira agradável”, relembra ela. Um dos motivos da união com o marido, um sírio naturalizado holandês, conta, foi uma preocupação dos pais por Bianca viver sozinha em outro país.
“Não foi uma grande paixão. Hoje, faço tudo por mim mesma. Nunca tivemos assuntos profundos. Ele foi muito mimado pela família, e a maioria dos estrangeiros acha que a função da mulher é cuidar da casa e dos filhos”. Embora esteja tentando se separar, Bianca e o marido têm uma filha de 8 anos, o que, segundo ela, tem dificultado o processo. “Pouco se fala do cansaço emocional que uma situação assim traz, ele quase não se preocupa com o que sinto. É um peso, uma carga”, lamenta.
Apesar do número de casamentos no Brasil ter aumentado quase 1% em 2024, e os divórcios terem tido uma queda de 2,8% no mesmo período, segundo pesquisa do IBGE, não é incomum que, para as mulheres, esse status de relacionamento ainda seja sinônimo de solidão e infelicidade. Estudo feito pela consultoria americana Research Insight com casais de todo o mundo revelou que de cada dez entrevistados com mais de dois anos de casamento, quatro sentem-se solitários no matrimônio. Entre mulheres, o número aumenta para sete.
Para a psicanalista e escritora Ana Suy, autora de livros como “A gente mira no amor e acerta na solidão” e “Não pise no meu vazio”, as mulheres têm uma relação com o amor muito mais íntima do que os homens, e não raro, esperam que o casamento traga certas soluções para a vida. “E isso não é do nada. Se fizermos um recorte transgeracional e voltarmos ao passado, as mulheres eram posse dos homens. O matrimônio era o único destino validado socialmente”, explica ela. Embora hoje as experiências de relacionamento sejam diferentes, ressalta Ana, a expectativa do “par perfeito” é algo marcado inconscientemente. “As mulheres, de modo geral, centralizam mais o amor romântico, a vida a dois, do que os homens. A consequência inevitável é se sentir mais solitária”.
Ainda segundo a escritora e psicanalista Elisama Santos, que escreveu o livro “Conversas corajosas”, a desigualdade de funções e o cuidado recaindo sobre elas transformam o casamento em mais uma obrigação. “Muitas vezes, casar não vem agregado a uma parceria de visão de mundo, de interesses. Vem como mais um check que a maioria de nós dá na vida adulta”, pontua. As mulheres, continua Elisama, são educadas para fingir e agradar ao outro, a performar o que se espera delas. O resultado, claro, não poderia ser outro senão a frustração. “Quando crio essa ‘imagem falsa’ para que o parceiro me ame, essa máscara me impede de ser vulnerável. E é na vulnerabilidade que acontece a permanência, a sintonia, a troca”.
Mas nem sempre o peso da solidão vem apenas com a total execução de tarefas domésticas ou as práticas do dia a dia. Durante oito anos, a petsitter paulistana Carolina Tizano, de 48, acumulou não só essa função, como também a sobrecarga emocional própria e a do ex-marido. Já não havia mais espaço para diálogo, lazer e nem mesmo sexo. “Ele era muito acomodado. Eu me sentia sobrecarregada, porque resolvia tudo dentro de casa. Com o tempo, ficou cada vez menos afetuoso. Não me procurava sexualmente. Tentei uma terapia de casal, mas ele não se interessou”, diz Carolina. Um dos momentos decisivos que a fez optar pela separação foi após um jantar. “A gente não tinha mais assunto, os dois estavam desconfortáveis. Então, a minha solidão estando casada aconteceu pela falta de atitude dele de regar esse casamento. Eu não tinha um marido e nem um amigo”. Ao fazer terapia, a petsitter conta ter “renascido” e aprendido mais sobre si mesma e o que espera de futuros encontros amorosos. “Foi uma libertação ter me separado. Hoje quero, acima de tudo, um homem companheiro, mas, cada um morando na sua casa”.
Se o casamento ainda nos moldes tradicionais parece ser inevitável — e até mesmo desejado — como tornar a convivência e a relação mais saudável para ambos? “Há várias maneiras, e uma delas, é a terapia. O homem precisa assumir o que não sabe, e a necessidade de aprender. Eles são ensinados a falar, mas não a escutar”, analisa Elisama. Mais do que isso: é importante estar ciente de que a mudança exige esforço e dedicação. “Existe a fantasia de que é possível fazer as coisas ‘sem bagunça’, sem sofrimento, sem conversas difíceis. E não é. Ajustar o relacionamento é como uma obra: não dá para passar por ela sem ter trabalho”, finaliza Ana Suy.