Quando decidi assistir The Witcher, lá em 2019, como imagino ter sido o caso de muitos telespectadores, não foi pela curiosidade de como os livros de Andrzej Sapkowski seriam adaptados, mas pelo desejo de conhecer melhor aquele universo que já havia me fisgado através dos jogos da CD Projekt Red.
Ainda que parte do público tenha se aproximado pela promessa de fidelidade literária, a série só se tornou uma grande aposta da Netflix porque havia uma massa de curiosos – como eu – atraída pela identidade visual extremamente semelhante à dos games, sobretudo pela caracterização de Henry Cavill como o protagonista, o bruxo Geralt de Rívia. Grande parte do marketing orbitava essa imagem.
O problema é que a estética nunca sustenta uma narrativa sozinha. Se não fosse minha teimosia em sempre concluir aquilo que começo, eu teria abandonado a série ainda na primeira temporada, que teve enorme dificuldade em apresentar aquele universo ao público leigo sem soar uma fantasia genérica ou temporalmente confusa. Essa introdução problemática deixou sequelas ao longo das temporadas seguintes. A produção foi gradualmente perdendo relevância popular, e a narrativa se mostrou incapaz de tornar seus personagens, conflitos e mundo suficientemente envolventes para justificar o investimento contínuo de tempo.
A recepção foi acompanhando essa sensação de esvaziamento e a história dava a sensação de não avançar para lugar algum concreto ou sequer ter começado de fato. Fora o nicho interessado na fidelidade aos livros, boa parte dos espectadores remanescentes parecia permanecer principalmente por Henry Cavill, que, apesar de limitações dramáticas evidentes, possuía fisicalidade e presença carismática suficientes para sustentar o centro da narrativa. Quando foi anunciada sua saída após a terceira temporada, a série perdeu seu rosto mais reconhecível, sofrendo uma espécie de boicote por antecipação, forçando a Netflix a mudar seus planos para a franquia.
Inicialmente, The Witcher estava planejada para ser longeva e multifacetada, com a expansão desse universo em produções derivadas como a série The Witcher: A Origem (2022), os filmes animados Lenda do Lobo (2021) e Sereia das Profundezas (2025), dentre outras, sendo lançadas em conjunto com a série principal que adaptaria os livros em detalhes no seu tempo, considerando a quantidade de material disponível. Isso justifica o ritmo arrastado e quase procedural das primeiras temporadas, porque a ideia era uma construção gradual de longo prazo e sem data para o fim.
A saída de Henry Cavill, no entanto, conforme dito, alterou esse planejamento. Em abril de 2024, a Netflix confirmou que a produção se encerraria na quinta temporada, e que ela adaptaria os três livros finais da saga: Batismo de Fogo, A Torre da Andorinha e A Dama do Lago. Além disso, as quarta e quinta temporadas seriam filmadas em sequência, já com Liam Hemsworth no papel de Geralt – que, já adianto, dentro também das suas limitações como ator, está bem no personagem ao ponto de Cavill não fazer tanta falta. Tais movimentações, numa leitura breve de mercado, indicam a desistência parcial do plano (acredito que o universo continuará sendo expandido, apesar do cenário pouco animador) e a série principal teria de correr atrás do prejuízo para conseguir fechar a história em sincronia com o material base.
Essa reorganização forçada fica evidente logo na primeira cena da temporada, que introduz um contador de histórias, Stribog (Clive Russell), para narrar as aventuras de Geralt para crianças de uma vila. A intenção é dupla: legitimar a nova face do protagonista e estabelecer um direcionamento claro para o arco final da série. Por mais que a escolha dialogue com elementos presentes nos livros mais tardios, que exploram múltiplas perspectivas e a construção histórica do mito de Geralt, na prática, o efeito colateral do retcon é problemático.
Ao recriar cenas marcantes das temporadas anteriores com Hemsworth, a série reescreve sua própria memória interna e reforça como sua narrativa é perdida de propósito, afinal, o resumo dado recriando cenas principais das outras temporadas com o Liam deixa a impressão de que nada daquilo foi realmente importante. Sem contar que a maneira que personagens são reposicionados parte de novos pontos dramáticos que parecem pouco dependentes das consequências acumuladas até ali.
A quarta temporada age como se estivesse começando uma nova história dentro da própria história. Se, por um lado, isso é positivo para o recorte específico da temporada que adota uma linha mais linear e objetiva entre seus núcleos, por outro, ainda é desastroso para a série como um todo. Geralt, Yennefer (Anya Chalotra) e Ciri (Freya Allan) passam a maior parte do tempo separados, vivendo jornadas individuais com novos grupos de apoio, desenvolvendo-se de forma até mais clara do que nas temporadas anteriores, mas dentro de um isolamento estrutural que os impede de ter uma convergência dramática de suas evoluções.
É aqui que Geralt é oficialmente nomeado cavaleiro por Meve (Rebecca Hanssen) e passa a ser reconhecido oficialmente como “Geralt de Rívia”; é aqui que Yennefer reorganiza as feiticeiras sobreviventes e assume uma posição de liderança no conflito mágico que domina aquele mundo; é aqui que Cirila atravessa sua maior provação, deixando de ser apenas a “criança profetizada” para se tornar uma guerreira moldada pela violência e pelas próprias escolhas. São pontos de transformação claros, mas a sensação que fica é a de que a série trata todos eles como apenas mais um evento da jornada, sem a densidade dramática que deveria acompanhar esse tipo de virada.
Por óbvio, esse é um problema cumulativo da falta de construção narrativa consistente desde o início da série. Ainda assim, para ser justo, o arco de Ciri é o que mais se aproxima de alcançar um impacto dramático relevante. Entre o trio principal, ela é a personagem que mais passou por transformações ao longo da história: de jovem indefesa fugindo de Cintra a uma guerreira habilidosa, emocionalmente marcada pelas sucessivas violências que enfrenta.
Sua relação com a gangue dos Ratos em Nilfgaard, especialmente o romance com Mistle (Christelle Elwin), recebe tempo de tela suficiente para construir intimidade, cumplicidade e até uma sensação de pertencimento distorcido. Isso faz com que, no episódio final, sintamos o peso do massacre promovido pelo caçador de recompensas Leo Bonhart (Sharlto Copley), que, por sinal, é uma das melhores adições da série até aqui, graças ao seu carisma irreverente, personalidade marcante e senso real de ameaça – bem diferente do apagado e enfadonho vilão Vilgefortz (Mahesh Jadu).
A cena do massacre é ótima, e o gancho deixado ao final sobre o destino de Cirilia funciona muito bem. No entanto, a montagem da sequência prejudica seu impacto ao intercalá-la com outros núcleos que estão em ritmos completamente distintos de intensidade. Esse problema se repete ao longo da temporada. Um exemplo evidente está no terceiro episódio, intitulado Trial by Ordeal, no núcleo em que Geralt precisa impedir a execução de uma jovem acusada de feitiçaria. Isoladamente, a sequência é bem construída em termos de tensão; o conflito cresce de forma orgânica e promete uma explosão dramática significativa.
No entanto, toda vez que a cena se aproxima do ápice, ela é interrompida: corta para Ciri em um momento leve na feira, ajudando uma criança, em uma sequência que se estende por vários minutos; depois para Yennefer em uma conversa política explicando a origem da profecia de Ciri, igualmente longa e expositiva. A montagem insiste em intercalar esses núcleos antes que a situação de Geralt chegue a uma resolução, quebrando sucessivamente a progressão dramática. Quando a conclusão finalmente ocorre, já próximo ao fim do episódio, o impacto emocional se dissipou. O timing se perde, e as consequências como a morte da criança pelos soldados do reino que invadem a confusão soam arbitrárias.
O problema de montagem é parte de uma queda de qualidade técnica da série. As cenas de ação, que antes ao menos mantinham alguma clareza geográfica, ainda que nunca tenham sido um grande trunfo de coreografia, agora soam ainda mais genéricas, com cortes rápidos, planos fechados e pouca visceralidade. A magia, que deveria ser um dos pilares visuais de um universo como o de The Witcher, continua visualmente pobre: efeitos pouco inventivos, repetição de soluções gráficas e ausência de identidade estética marcante. Há exceções pontuais como a sequência animada que narra o passado de Regis (Laurence Fishburne) que funciona isoladamente pela ambição estética, que, porém, também surge totalmente deslocada do tom e da linguagem da temporada.
Falando em tom,eu até gosto que a direção e o texto se levem menos a sério do que em outrora, já que não consegue entregar densidade narrativa. Pelo menos rende dinâmicas interessantes com personagens secundários. Além dos ratos já mencionados, o grupo que acompanha Geralt formado por Regis, Milva (Meng’er Zhang), Zoltan (Danny Woodburn), Yarpen (Jeremy Crawford) e Jaskier (Joey Batey) tem uma química funcional, sendo uma espécie de “Sociedade do Anel da Shopee” que torna o núcleo mais carismático.
Em contrapartida, o núcleo de Yennefer carece desses personagens secundários para dar uma dinâmica menos chata a sua ingrata função de ter de explicar e contextualizar as engrenagens políticas e mitológicas daquele universo. A tal da “guerra mágica”, que deveria ser o grande pano de fundo geopolítico do continente, permanece tanto faz como tanto fez, tendo sua relevância muito mais falada do que realmente sentida quando encenada no capítulo Twilight of the Wolf, carecendo de escala visual e envolvimento emocional do telespectador.
E assim, voltamos ao problema crônico que acompanha a série desde o início: a má introdução de seu universo, agora agravada pela urgência de concluir a história em, provavelmente, apenas, mais oito episódios que dificilmente conseguirão reverter essa situação. Depois de quatro temporadas, dá para constatar que Geralt e Yennefer permanecem praticamente os mesmos personagens que conhecemos no começo, como se seus arcos jamais tivessem atravessado um verdadeiro meio dramático, apenas um início prolongado que agora precisa se encerrar às pressas.
Nesse contexto, a quarta temporada de The Witcher não é exatamente desastrosa. Há bons momentos, personagens secundários interessantes e uma noção mínima de organização e alinhamento dos arcos que apontam para um desfecho. Contudo, a base estrutural que sustenta suas ideias nunca foi sólida e volta a deixar a sensação de preparação eterna, de que o que é importante na história ainda vai acontecer. Assim, o fim se aproxima com a inquietante impressão de que essa saga pode terminar sem jamais ter realmente começado. É aquela máxima, nem sempre correta, mas aqui bastante aplicável: de que o que começa mal tende a terminar pior.
The Witcher – 4ª Temporada | EUA, 30 de outubro de 2025
Criadora: Lauren Schmidt
Direção: Sergio Mimica-Gezzan, Tricia Brock, Alex Garcia Lopez, Jeremy Webb
Roteiro: Lauren Schmidt, Troy Dangerfield, Tania Lotia, Rae Benjamin, Clare Higgins, Matthew D’Ambrosio, Javier Grillo-Marxuach, Mike Ostrowski, David French, Danusia Stok (baseado na obra de Andrzej Sapkowski)
Elenco: Liam Hemsworth, Anya Chalotra, Freya Allan, Joey Batey, Christelle Elwin, Mahesh Jadu, Meng’er Zhang, Danny Woodburn, Bart Edwards, Ben Radcliffe, Fabian McCallum, Connor Crawford, Juliette Alexandra, Cassie Clare, Laurence Fishburne, Linden Porco, Jeremy Crawford, James Purefoy, Simon Paisley Day, Ricky Champ, Mimî M Khayisa, Mecia Simson, Therica Wilson-Read, Rochelle Rose, Audrey Kattan
Duração: 8 episódios – 50 minutos em média cada episódio.