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terça-feira, fevereiro 24, 2026

Empresas preveem demissões e inflação com jornada 5×2

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Depois da movimentação em Brasília, nos últimos dias, para acelerar o andamento do fim da escala de seis dias trabalhados para um de folga, o setor privado reagiu e avançou com reuniões para alinhar o tamanho dos impactos da medida e tentar encontrar alternativas à pressão política favorável à nova regra.

O governo federal e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), trabalham para acelerar a tramitação da PEC que acaba com o 6×1, para aprovação em maio, e os empresários do setor industrial, comércio e serviços estão claramente incomodados com essa articulação em ano de eleições.

A expectativa é de um repasse do aumento das despesas operacionais aos preços e de redução do quadro de pessoal, com a entrada da escala 5 x 2, para equilibrar a elevação nos custos. Isso porque as horas trabalhadas cairiam, mas seriam mantidos os salários. Há um movimento para tentar adiar o debate para 2027, após as eleições, tanto na federação das indústrias de São Paulo, quanto nas entidades de varejo, como no IDV, que representa mais de 70 empresas.

“Foram dez anos discutindo reforma trabalhista e numa canetada querem desestruturar uma conta de custos que afeta todo o setor privado brasileiro por questões eleitorais”, disse ontem um empresário e membro de conselho de administração de uma grande varejista nacional.

Um segundo empresário, da indústria têxtil, disse que, nas últimas horas, depois da movimentação de Motta no domingo, as empresas se mobilizaram junto a representantes da FPE.

“Somos completamente favoráveis a uma flexibilização das normas, que engessam a política de contratação, e uma discussão séria desse tema, mas não a toque de caixa, como está sendo feito”, disse ele.

Há críticas à aceleração da pauta por parte do governo federal com o intuito de angariar mais votos neste ano, disseram ontem entidades que representam os lojistas.

“O fim do 6×1 por questões políticas, sem um debate profundo, vai levar a uma migração de lojas de shoppings para as ruas [com custo menor] e levar a demissões e fechamento de pontos nesse processo. Nós não conseguimos absorver integralmente nem a inflação anual, como suportar um novo peso nos custos?”, disse Mauro Francis, presidente da Associação Brasileira de Lojistas Satélites de Shoppings (Ablos).

A entrada em vigor do 5×2, sem redução salarial, foi foco de um debate ontem entre associações de varejo, em reunião remota. Segundo fontes, isso deve elevar em 10% o custo por hora trabalhada por causa da queda de 44 horas semanais para 40 horas, uma das hipóteses de redução que está no projeto em discussão.

A equipe de analistas da XP Investimentos mapeou os gastos das empresas abertas que acompanha. Assumindo uma alta de 10% nos custos de mão de obra e que os varejistas não consigam repassá-los aos preços, o valor do Ebitda e o e lucro líquido cairiam 8% e 18%, em média. Isso, naturalmente, reduz os dividendos pagos e, com possíveis efeitos também sobre o caixa, pode impactar investimentos futuros.

Empresas mais diversificadas internacionalmente, diz a XP, como Mercado Livre e Smart Fit, ou com maiores margens ou lucro líquido, como Lojas Renner, Vivara, Vulcabras e Track&Field, seriam as menos afetadas. Aquelas com margens de mais baixas (varejo farmacêutico e alimentos) e ou mais alavancadas sofreriam mais.

“As empresas podem ter algum espaço para aumento de produtividade, mas acredito que teria que ter repasse para preço. Minha análise considera apenas custo de mão de obra, mas algumas empresas terão impacto via repasse de outros elos”, como serviços terceirizados, disse Danniela Eiger, chefe de análise de varejo da XP.

Analistas do Itaú BBA estimam, no caso da rede Assaí, que poderia reduzir o lucro líquido projetado em pelo menos 14% para 2027 sem medidas de mitigação. O BTG Pactual menciona em relatório, em fevereiro, após reuniões com empresas, que cerca de 30% da forma de trabalho na Vulcabras será impactada se a escala mudar.

Representantes de entidades afastaram ontem qualquer ganho de produtividade que possa vir de um eventual descanso remunerado nos fins de semana, que poderia compensar a alta no custo.

“Isso não existe, não há comprovação técnica de que um trabalhador mais relaxado trabalharia tanto que isso superaria o tamanho da perda com o aumento do custo. Todos os trabalhos mostram que a produtividade dele sobe menos que o aumento das despesas”, afirma o diretor de uma grande atacadista nacional.

O Valor apurou que uma compensação a ser negociada, como desonerar a folha de pagamentos, sugerida pela Frente Parlamentar Mista do Empreendedorismo (FPE), não tem apoio da maioria das entidades da indústria e varejo. Com as contas do INSS no olho do furação, a ideia pode ser um “tiro no pé”, disse um empresário da indústria de calçados.

Procurada, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, disse em nota que o fim do 6×1 é uma causa justa que conta com empenho do presidente Lula. E que estudos consistentes, em linha com divulgado pelo Ipea, indicam que os setores podem absorver “perfeitamente” o impacto da redução da jornada, considerando as peculiaridades dos pequenos negócios.

Gleisi criticou “argumentos falaciosos” no debate e disse que a adoção do descanso semanal e a redução da jornada de 48 horas para 44 horas tiveram manifestações alarmistas que não se concretizaram. (Colaborou Adriana Peraita)

[Fonte Original]

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