Promover um diálogo construtivo com clássicos da literatura mundial não é tarefa para qualquer escritor. É preciso experiência e repertório para revisitar tramas e explorar, com originalidade, as dores e os prazeres secretos de personagens famosos, como Gregor Samsa, caixeiro-viajante protagonista da novela “A metamorfose”, do tcheco Franz Kafka (1883-1924).
Em “Recapitulações”, da escritora Maria Valéria Rezende, 83, ela propõe uma “metamorfose às avessas”, como bem definiu Maria José Silveira, no conto “Será isso?”. Rezende é minuciosa e, à moda do desconforto kafkiano clássico, narra a transformação de um inseto em “um monstro de corpo pesado, desprotegido de casca, de patas e antenas, com apenas quatro volumosas e pesadas extensões que se debatiam inutilmente”.
Ela explora a claustrofobia e a impotência, duas constantes na obra de Kafka, para discutir a fragilidade humana, acentuada nos últimos tempos por conta de guerras silenciosas, pandemias e ameaças nucleares. As baratas, inclusive, podem sobreviver a grandes tragédias, diferentemente dos homens. Rezende pinça uma característica primária de todos os seres, a animalidade, que se faz presente tanto no episódio kafkiano quanto em “Estranha causa”, referência direta ao conto “A causa secreta”, de Machado de Assis (1839-1908).
A admiradora confessa de Machado ficcionaliza o escritor com caraminholas na cabeça, flanando pelo Rio de Janeiro em direção à sua casa no Cosme Velho. Em determinado momento, exaurido pelas ladeiras, o escritor bate palmas em uma casa para pedir informação sobre o caminho, é recebido por um garoto com “um sorriso ainda infantil e solícito”, mas percebe a crueldade do menino quando este fica a sós com um gato.
Um velho escriba, cambaleante e um pouco arisco, é apresentado ao leitor “sem o sorriso do próprio escritor que acreditamos vislumbrar, por detrás das linhas, na maioria de suas histórias”. A história revela uma face menos conhecida de Machado, famoso por suas piscadelas maliciosas, voz que transformou os romances “Memórias póstumas de Brás Cubas” e “Quincas Borba” em livros essenciais da nossa literatura. Já quando entra no universo de “Dom Casmurro”, Rezende dá a resposta para o enigma mais candente e insolucionável da literatura brasileira: se Capitu traiu ou não Bentinho.
No conto que dá título ao livro, a personagem trata do assunto sem floreios. Está em Paris e escreve à amiga Sancha sobre o episódio envolvendo o amado e o amigo José Dias. Revela-se uma estrategista, pois ela mesmo pondera que “Há que reconhecer que a esperteza e o pecado do fingimento, muito mais do que a simples inocência e a piedade beata, podem resultar em lucro nesta vida e, por graça de Deus, contamos com a instituição do confessionário e dos rosários a rezar por penitência para gozar dos bens da terra sem perder os bens do céu”. Sem lugar para culpa ou devaneios coléricos, Rezende imprime em Capitu um tom feminista, alçando-a a conselheira sentimental, inclusive. “Resta-me apenas dizer, por hoje, para animar-te ainda mais.”
O clima descontraído também se faz presente em “Requadrilha”, conto inspirado no famoso poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). A reorganização da quadrilha drummondiana se passa em um diálogo inesperado entre João e Maria, os amantes impossíveis da historinha e os improváveis fins dos outros personagens. O humor sustenta o diálogo, que ganha ar teatral conforme Maria tenta ligar as peças sobre quem amava quem, algo já explícito na versão do poeta mineiro. Aqui, Rezende reformula os arranjos e, ao final, revela um segredo.
Ponto alto do livro, a história da pobre manicure Matilde, uma releitura atual do conto “O colar”, de Guy de Maupassant (1859-1893), mostra que continua acesa a fogueira das vaidades que o escritor apontava em sua época. A questão das lutas de classe perpassa pelo jogo de aparências, hoje alimentado pelas redes sociais. A mulher transita entre dois mundos: entre a comunidade que vive e o salão em que trabalha, enquanto o marido rala para crescer em uma firma.
Com referências a autores que vão do argentino Júlio Cortázar (1914-1984) ao português José Saramago (1922-2010), “Recapitulações” não prescinde da forma encontrada pelos autores para contar suas histórias. Do realismo ao absurdo, Rezende reimagina os caminhos e as circunstâncias em que foram escritos seus livros de cabeceira e convida o leitor a partir para os originais logo em seguida.
Recapitulações – Maria Valéria Rezende. Editora 34. 88 págs., R$ 57,00