Tempo de leitura: 10 min
Aviso: esta reportagem contém detalhes de extrema violência e referências a suicídio
Quatro soldados russos expuseram o horror e a brutalidade das condições do lado russo da linha de frente na guerra na Ucrânia, que completou quatro anos nesta terça (24/02). Dois deles disseram à BBC ter visto soldados serem executados no local por se recusarem a cumprir ordens.
Um dos homens afirmou à equipe do documentário da BBC que presenciou a execução de um soldado por ordem de seu comandante, que foi declarado “Herói da Rússia” em 2024.
“Eu vi isso – a apenas dois metros, três metros… clique, estalo, tiro”, disse.
Outro soldado, de uma unidade diferente, disse ter visto pessoalmente seu comandante atirar contra quatro homens.
“Eu os conhecia”, disse ele sobre os militares executados. “Eu me lembro de um deles gritando ‘Não atire, eu faço qualquer coisa!’.”
Um dos entrevistados relatou ainda ter visto 20 corpos de soldados mortos em uma vala após terem sido “zerados” pelos companheiros. O termo “zerar” é uma gíria militar russa para executar soldados da própria tropa.
No documentário The Zero Line: Inside Russia’s War (A Linha Zero: Por Dentro da Guerra da Russa, em tradução livre), esses homens relatam detalhadamente como foram torturados por se recusarem a participar de ataques que descrevem como missões suicidas. Tropas russas chamam esses ataques de “meat storms” (tempestades de carne, em tradução livre), expressão usada para classificar ondas sucessivas de homens enviados para a linha da frente de forma incessante, na tentativa de desgastar as forças ucranianas.
Essa é a primeira vez, segundo análise da BBC, que soldados russos da linha de frente relatam em frente às câmeras ter presenciado comandantes ordenando a execução de seus próprios homens.
Um dos entrevistados, cuja função era identificar e contabilizar soldados mortos, apresentou listas detalhadas que indicam ser o único sobrevivente de um grupo de 79 homens com os quais foi mobilizado.
Ele disse que, por se recusar a ir para a linha de frente, foi torturado e urinaram em cima dele. Segundo seu relato, outros integrantes da unidade que também se recusaram e foram submetidos a choques elétricos, tiveram de passar fome antes de serem enviados desarmados às chamadas “meat storms”.
Os quatro homens, que estão foragidos, relataram os horrores que testemunharam de um local não divulgado fora da Rússia.
Quase toda a oposição pública à invasão da Ucrânia pelo presidente russo, Vladimir Putin, foi sufocada na Rússia. Moscou não divulga os números oficiais de baixas, mas o Ministério da Defesa do Reino Unido afirma que mais de 1,2 milhão de militares russos foram mortos ou feridos desde o início da invasão em larga escala, em 24 de fevereiro de 2022.
O governo russo declarou que suas Forças Armadas “operam com a máxima contenção possível nas condições de um conflito de alta intensidade, tratando seu pessoal com o máximo cuidado”.
“As informações sobre supostas violações e crimes são devidamente investigadas”, acrescentou o governo russo. “Não somos capazes de verificar de forma independente a precisão ou a autenticidade das informações fornecidas.”

Crédito, Ben Steele/BBC
Os relatos detalhados em primeira mão dos quatro homens também corroboram informações sobre a violação da lei e da ordem na linha de frente russa.
Ilya, o soldado responsável por identificar e contabilizar os mortos, é um dos homens que afirmam ter visto companheiros serem mortos pelos comandantes.
Antes da guerra, o homem de 35 anos dava aulas para crianças com necessidades especiais e autismo em Kungur, nos Montes Urais. Em maio de 2024, segundo ele, policiais foram à casa de seus pais e informaram que ele havia sido convocado.
Ilya afirma ter sido mobilizado ao lado de outros 78 homens em um centro de recrutamento na cidade de Perm.
“Quase todos estavam bêbados”, diz. “Avante para a batalha! Vamos pegar o Zelensky e hastear nossa bandeira!”, se recorda de ouvi-los gritar.
“Eu os observava e pensava: ‘Como é que eu vim parar aqui?’ Eu estava com muito medo.”
Ao chegar à Ucrânia, Ilya conta que a maioria dos homens foi enviada diretamente para a linha da frente. Ele diz que não queria atirar nem matar ninguém e acabou num posto de comando.
As condições eram brutais. Segundo ele, presenciou quatro pessoas serem baleadas à queima-roupa por um comandante — uma em Panteleimonivka e três em Novoazovsk, ambas em Donetsk, território ocupado pelas forças russas, no leste da Ucrânia — porque haviam fugido da linha de frente e se recusado a retornar.
“A coisa mais triste é que eu os conhecia. Eu me lembro de um deles gritando ‘Não atire, eu faço qualquer coisa!’, mas ele [o comandante] os zerou assim mesmo”, afirmou Ilya.
Segundo os entrevistados, o “zeramento” costuma ser aplicado como punição por desobediência a ordens e funciona como forma de intimidação para outros que cogitam fazer o mesmo.
“Seu destino dependia do comandante. O comandante estava no rádio: ‘Zere este, zere aquele'”, disse Ilya.
As execuções de soldados que se recusavam a cumprir ordens não se limitavam à unidade de Ilya.

Crédito, Ben Steele/BBC
“É claro que eles matam os próprios homens, isso é algo normal”, diz Dima, de 34 anos.
Antes da guerra, ele vivia com a mulher e a filha e trabalhava em Moscou como técnico de conserto de lava-louças.
Em outubro de 2022, ele relata estar caminhando entre um trabalho e outro quando foi abordado por um grupo de policiais.
“Eles apenas olham meu passaporte, fazem algo no laptop deles e me dizem: ‘Se você não for para o Exército, você vai para a prisão'”, recorda, em inglês.
Dima afirma que não queria matar ninguém e, apesar de não ter experiência médica, ingressou em uma unidade de paramédicos. Depois, foi transferido para uma brigada responsável por evacuar soldados feridos da linha de frente.
Foi ali, na 25ª Brigada, que Dima diz ter visto colegas serem executados por ordem de seu próprio comandante.
“Eu vi isso – a apenas dois metros, três metros. São assassinatos, apenas clique, estalo, tiro. Não é drama, não é filme, é a vida real”, afirmou.
Seu comandante, Alexei Ksenofontov, recebeu a Estrela de Ouro, a mais alta condecoração estatal, e foi declarado “Herói da Rússia” em 2024.
Mas Ksenofontov foi denunciado por familiares de homens que morreram em sua unidade. Em carta conjunta enviada em janeiro de 2025, eles apelaram diretamente a Putin para que investigasse denúncias de brutalidade na unidade comandada por ele.
“Eles defenderam a nossa pátria com honra e orgulho!!! Mas, na realidade, acabaram na gangue desses comandantes, que receberam prêmios por dezenas de milhares de mortos e desaparecidos!”, dizia o texto.
“E eles continuam a exterminar nossos homens! Sentindo-se impunes!”
Dima chama Ksenofontov de “açougueiro”.
“Ele dá ordens demais para matar soldados, há sangue demais em suas mãos, demais.”
Dima também relata ter visto os corpos de 20 homens, que haviam chegado à sua base na noite anterior, jogados em uma vala após terem sido baleados.
Ele afirma ter conversado com vários deles — todos ex-condenados — antes de vê-los serem levados na manhã seguinte.
Como médico, Dima recebia rotineiramente os registros de mortos. Segundo ele, foi informado de que esses homens haviam sido executados por um comandante e tiveram seus cartões bancários confiscados.
“Vinte rapazes foram trazidos para nós. Eles simplesmente pegaram os cartões bancários e os mataram”, recordou. “Não é um problema dar baixa em alguém. Você apenas inventa um relatório.”
Dima afirma que lhe disseram que os cartões haviam sido tomados por comandantes.
O documentário da BBC também ouviu outro ex-soldado — um oficial sênior do Estado-Maior, que afirma ter servido por 17 anos nas Forças Armadas russas. O ex-oficial, cujo nome não divulgaremos, disse ter conversado com um homem que ajudou a matar um grupo de oficiais de alta patente.
Segundo ele, o homem afirmou ter integrado um “esquadrão de liquidação enviado para eliminar quaisquer sobreviventes”, lembrou o ex-oficial.
“Eu nunca vi nada parecido em todos os meus anos de serviço.”

Crédito, Ben Steele/BBC
Os quatro homens relataram, em detalhes explícitos, as temidas missões chamadas “meat storms” — parte da tática mais ampla de “moedor de carne” adotada pelas forças russas nos campos de batalha da Ucrânia.
Essas “meat storm” são descritas como tão letais que se assemelham a missões suicidas.
“Eu vi eles [os comandantes] enviarem onda após onda [de “meat storm”], jogando homens como carne contra os ucranianos, para que eles fiquem sem munição e drones e, então, outra onda consiga alcançar o objetivo”, afirmou outro ex-soldado, Denis.
Uma estimativa do Ministério da Defesa do Reino Unido aponta que, em 2025, entre 900 e 1.500 russos foram mortos ou feridos por dia na Ucrânia.
Dima explica como essas “meat storm” funcionam na prática.
“Você envia três homens, depois mais três. Não deu certo, manda dez. Não deu certo com dez, manda 50”, explicou.
“Em algum momento você vai romper. Essa é a lógica dos militares. Tivemos 200 mortos em três dias. Na primeira ‘meat storm’ do nosso regimento, eles nos destruíram, nosso regimento foi aniquilado em apenas três dias”, disse.
Dima então mostra um vídeo, publicado nas redes sociais em outubro de 2023, no qual mães e esposas de homens mortos em sua unidade denunciam as grandes perdas.
Uma mulher pode ser ouvida dizendo: “Nossos homens receberam ordem para avançar armados apenas com metralhadoras e pás.” Outra diz: “Há perdas terríveis. Nossos homens estão sendo massacrados.”
Segundo Ilya, aqueles que não são mortos por se recusarem a participar de uma ofensiva frequentemente enfrentam consequências graves e desumanizantes.
Ele mostra um vídeo no Telegram de homens de sua unidade em Panteleimonivka, em Donetsk.
“Vamos alimentar os animais”, dizia um homem, antes de levantar uma tampa e revelar três homens agachados em uma vala.
“Ah, vocês estão com fome? Querem ser alimentados?”, pergunta o homem que grava. Um dos homens ergue a cabeça e acena, estendendo as mãos, enquanto grãos secos são despejados na vala.
“Olhem como está comendo”, dizia o autor da gravação, enquanto o homem na vala consome os grãos.
Alguns homens eram “deixados sem comida por dias” e submetidos a choques elétricos, contou Ilya, antes de serem enviados desarmados às “meat storms”.
Ele próprio foi torturado, segundo relata, após se recusar a participar de uma dessas “meat storms”.
“Eles me amarraram a uma árvore, me bateram algumas vezes com um cassetete e colocaram uma arma na minha cabeça”, contou.
“Não sei como dizer, eles fizeram as necessidades em cima de mim. O comandante disse a todos: ‘Nós temos um novo banheiro’. Fiquei amarrado por meio dia.”
Depois de ser desamarrado, Ilya tentou tirar a própria vida.

Crédito, Ben Steele/BBC
Denis, que afirma ter levado comida e água às escondidas para soldados mantidos em uma vala, mostra à equipe do documentário um vídeo de um suposto desertor recebendo jatos de urina. A BBC informa que não conseguiu verificar de forma independente a autenticidade das imagens.
“É uma humilhação da honra e da dignidade de uma pessoa. No Exército russo, isso se tornou a norma”, afirmou.
“É ilegal, mas ninguém é punido por isso. Pelo contrário, os caras são até incentivados a fazê-lo.”
Denis, 27, também mostra uma fotografia que, segundo ele, foi tirada pouco depois de ter perdido os dois dentes da frente, arrancados por um de seus superiores, após ter dito que não queria procurar um drone desaparecido.
“É terrível, eu simplesmente tive que continuar.”
Dima eventualmente acabou sendo promovido, apesar de ter dito que não queria se tornar oficial. Ele mostra uma fotografia da cerimônia em que foi nomeado.
Após a promoção, diz que se recusou a enviar seus homens para uma “meat storm”.
“Eu me recusei a fazer isso. Eu mesmo não teria de avançar, mas não podia simplesmente dar a ordem.”
Segundo ele, a decisão levou à sua prisão pela polícia militar e à transferência para Zaitsevo, que descreve como uma prisão improvisada.
“[Lá] eles me torturaram com choques elétricos”, recordou, acrescentando que a intensidade do primeiro choque o fez defecar.
Ele afirma ter sido torturado todos os dias durante 72 dias.
“Só tortura, todos os dias, com rosto de pedra. Sem qualquer emoção, é uma loucura”, disse, referindo-se a seus torturadores.

Crédito, Ben Steele/BBC
Todos os homens ouvidos pela BBC estão agora fora da Rússia, mas carregam marcas psicológicas da linha de frente na Ucrânia.
“Eu tenho sonhos. Eu vejo [uma] floresta cheia de cadáveres, pessoas esmagadas com os rostos desfigurados, bocas brancas sujas de sangue. O cheiro… não é um cheiro, é um sabor”, contou Dima.
“Eu sou um criminoso, e ninguém se importa — meu crime é apenas não querer matar”, explicou.
“No Exército russo, há muitos caras que não precisam dessa guerra, que odeiam os comandantes, que odeiam Putin, que odeiam nosso sistema, e eles precisam nos quebrar.”
Ilya diz que ama o seu país, “mas não o que Putin fez com ele”.
“Eles podem quebrar qualquer um ali, não importa se você é forte ou não. Eles quase me quebraram, mas não completamente.”