Os mercados financeiros reagiram com inquietação moderada à mais importante ofensiva militar do governo de Donald Trump, para pôr fim ao regime dos aiatolás no Irã. Enquanto o conflito se alastrava por 12 países do Oriente Médio, os ativos financeiros apresentaram alta moderada ontem, indicando que, por enquanto e com os dados disponíveis, os investidores não preveem uma guerra prolongada e altamente destrutiva. Após subir 13% logo na abertura dos pregões, o petróleo tipo Brent aumentou 6,26%, a US$ 77,43 o barril. O dólar, uma moeda que serve de refúgio em turbulências, avançou 0,9% diante de uma cesta de moedas de países com os quais mais comercia. As bolsas americanas oscilaram para baixo, mas sem perdas significativas. Os títulos do Tesouro americano quase não se moveram, sugerindo de novo que já não são um porto seguro predileto em época de incertezas, papel que parece ter sido em parte transferido ao ouro, que subiu 1,5%.
As avaliações dos ativos guardam relação com o último evento armado de junho, quando EUA e Israel atacaram os locais de enriquecimento de urânio do Irã. O Irã respondeu com moderação, lançando mísseis contra o território israelense, em reação comedida e de curta duração. Com isso, o petróleo subiu logo para US$ 80 o barril, para retroceder rapidamente em uma dezena de dias. Não é possível saber se esse roteiro se repetirá agora.
O regime iraniano abriu fogo contra a infraestrutura de energia dos países vizinhos, mostrando que apesar da intensidade e rapidez dos ataques conjuntos de Israel e EUA ainda mantém alguma capacidade de reação. Ontem a principal planta de produção de gás natural liquefeito (GNL) do Catar foi paralisada após ataques ao complexo de Ras Laffan. O Catar é o maior produtor mundial da commodity e abastece 20% da demanda mundial. China e Índia são grandes consumidores, mas vários países europeus deslocaram suas compras para o Oriente Médio após a Rússia ter cortado seu fornecimento em represália às sanções que lhe foram impostas por invadir a Ucrânia. O preço do GNL no mercado europeu aumentou 48%. Não é possível prever quando a produção será restabelecida, incógnita relevante diante da queda dos estoques europeus ao fim do inverno.
O Irã atacou com drones a maior refinaria da Arábia Saudita, de Ras Tanure, capaz de produzir 550 mil barris por dia. As instalações não sofreram danos significativos, mas a estatal petrolífera do país, Saudi Aramco, resolveu preventivamente suspender as operações. Líder do cartel dos produtores, a Opep, a Arábia Saudita é o país que tem maior capacidade disponível para aumentar a produção.
Os preços dos fretes para cargas no Estreito de Ormuz avançaram mais de 50%. As maiores companhias suspenderam a oferta de seguros para navegação na área. Tanto na interrupção do fluxo de petróleo quanto na paralisação da produção de GNL no Catar é a China, grande compradora das duas commodities. Mas os chineses há seis meses fazem compras para elevar estoques do petróleo, de forma que podem conviver com esta situação por um bom período.
Analistas estimam que entre os males, o fechamento provisório do Estreito de Ormuz é o menor, em relação à destruição ampliada da capacidade produtiva de óleo e gás da região. No primeiro caso, a retomada do escoamento pode ser feita imediatamente. No segundo caso, não. As perdas do conflito estão, nesse momento, majoritariamente concentradas no Oriente Médio. Exportações de GNL compõem 60% do PIB do Catar. A paralisação por tempo indefinido dos maiores hubs aéreos da região (Doha e Dubai, um dos mais movimentados do mundo) indica que o turismo pode sofrer um duro golpe caso o conflito se prolongue, e o setor representa em média 10% do PIB dos países da região.
Tanto pelo aumento do combustível como pela interrupção de sua rota em Ormuz, as bolsas europeias puniram ontem as ações das companhias aéreas e de viagens. As ações nos pregões do continente caíram 2,42% na Alemanha (Dax), e 2,17% (Paris). Como a Europa é mais dependente de petróleo e gás natural liquefeito que os EUA, que é autossuficiente em ambos, os papéis europeus refletiram temor mais intenso de alta da inflação, embora o índice ao consumidor na zona do euro encontre-se hoje em 1,75% abaixo da meta do Banco Central Europeu.
Com o petróleo até US$ 80, as consequências para a economia mundial serão limitadas, estima a Oxford Economics. A inflação americana subiria 0,3-0,4 ponto percentual e se manteria mais distante da meta do que já está (foi de 2,8% em fevereiro), limitando ainda mais a capacidade do Fed de cortar mais os juros.
No caso do Brasil, em que o repasse da alta do petróleo aos preços não é imediata, o JP Morgan calculou que um aumento de 10% no óleo elevaria em 0,2 ponto percentual a inflação e traria ligeiro aumento do PIB (0,1%) porque o Brasil é grande exportador da commodity. A maior preocupação com a guerra é com seus efeitos financeiros, como a valorização do dólar, que tem sido um fator decisivo para o recuo da inflação.