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Conforme nos lembra Muniz Sodré, o sentido primeiro do verbo comunicar é o de pôr em comum, agir em comum, deixar agir o comum. Em A ciência do comum: Notas para o método comunicacional, o sociólogo e jornalista baiano afirma que “os seres humanos são comunicantes não porque falam, mas porque relacionam ou organizam mediações simbólicas em função de um comum a ser compartilhado” – o que necessariamente leva à ideia de cidadania. Com a crise da razão esclarecida que vimos vivendo, as massas irrompem nos ambientes virtuais e esboroam-se, por conseguinte, não somente a própria noção de cidadania como também a noção de que a comunicação tenha uma finalidade ética: a de contribuir para a felicidade da coletividade humana. Se a brutalidade se espraia pelas ruas da cidade (basta ter olhos para ver), as infovias da Web imitam tal processo. Sai de cena a palavra polida, e chega a vez de a desfaçatez e o insulto se transformarem naquele comum a ser compartilhado. A indecência cruel e o imoralismo dos enunciados modernos – preconizados há mais de um século pela literatura de Franz Kafka, vale lembrar – são as commodities do grande mercado global da comunicação digital e de suas mais subservientes integrantes, as redes sociais.
Vigiada e punida, da companhia canadense Théâtre Prospero, dirigida por Philippe Cyr, tendo as cantoras Safia Nolin e Katia Lévesque à frente de um coro composto por vinte e uma vozes, é uma experiência cênico-musical que demonstra o fracasso da comunicação contemporânea diante da hipertrofia da expressão do eu, o que se convencionou chamar de “era do indivíduo-mídia”. Quando a mediação cede lugar à midiatização, desaparece, por sua vez, a intermediação com o Outro e com a Coletividade, surgindo uma nova instância de orientação da realidade, segundo uma vez mais Muniz Sodré, a vida midiática, que dá suporte à exacerbação das singularidades e sua contrapartida mais terrível: os comportamentos sem sanção. Aprendemos com a teoria crítica de Adorno que a forma é o conteúdo sócio-histórico decantado. O que são as redes sociais, então, senão o respaldo tecnológico à abolição de todo e qualquer princípio ético como pressuposto à liberdade de expressão. O Outro agora está reduzido a uma função específica. Atualizando o velho ritual grego do φαρμακός (pharmakós), as redes sociais vivem de eleger sazonalmente um bode expiatório, um inimigo, sobre o qual precisam recair toneladas e toneladas de ódio sob a forma de livre expressão. É preciso falar mal do Outro porque o gozo dele me ameaça e, como eu não tenho papas na língua, eu falo o que penso, isto é, sou autêntico, é melhor me expressar desse jeito do que ser hipócrita.
Safia Nolin sofreu um ataque em massa nas redes sociais por sua condição de mulher racializada e artista lésbica cujo corpo não se encaixa nos alegados padrões femininos. Sua resposta a tamanha violência foi conceber o espetáculo Vigiada e punida, no qual, além de atuar como cantora, assina a música (em parceria com Vincent Legault) e o libreto (em parceria com Jean-Philippe Baril Guérard). Dentre suas inúmeras qualidades estéticas e políticas, essa estranha criação (atribuir-lhe o adjetivo belo seria cegar a faca com a qual ela fere nossa sensibilidade) denuncia a forma pela qual as redes sociais estão se tornando um hiperobjeto, uma entidade cujos contornos são tão inapreensíveis que excedem nossa capacidade de a percebermos de fato e de avaliá-la criticamente.
O espetáculo está assentado sobre duas linhas de força de cuja articulação extrai uma ácida eloquência. A primeira delas faz contrastar a beleza da música especialmente composta para a empreitada com a brutalidade dos enunciados cantados harmonicamente quase sempre em coro. (Aqui e ali alguns solistas de destacam). Todos os textos de que se compõe o libreto foram extraídos de postagens das redes sociais; eles são os virulentos ataques verbais sofridos reiteradamente pela artista. Assim é que os ouvir emoldurados melodicamente por uma massa sonora que remete às liturgias religiosas (a atitude dos integrantes do coro reforça o aspecto litúrgico da iniciativa) constitui um violento choque de sentidos. Será essa então a abjeta missa de que participam os cidadãos de bem? Os sistemas digitais não passariam de uma sinistra melopeia que serviria de trilha sonora ao incentivo capitalista à massificação capilarizada da violência?
A segunda linha de força do espetáculo é convidar à cena corpos não sujeitados a nenhuma espécie de normatividade e fazê-los usufruir de suas próprias subjetividades à vista de todos. Enquanto os que destilam seu ódio na Internet o fazem em nome de uma “vida vivida” pelo combustível de uma autoestima que é pura mercadoria – publicizada e capitalizável –, Safia e Katia encarnam no palco a vida desfrutável como potencial de recusa ao que já está dado.
Por fim, duas cenas independentes da estrutura musical do espetáculo chamam a atenção. A reprodução do diálogo entre a vítima do ódio coletivo e a autoridade policial, cuja destreza verbal a serviço de uma razão que mal disfarça seu cinismo o desloca do papel de agente da lei para o de cúmplice do crime. A outra cena diz respeito aos nomes projetados em vídeo de todos aqueles indivíduos que proferiram discursos de ódio contra a cantora. Seja pelo longo tempo que dura tal exibição, seja pela forma como ela ocorre – aos moldes da exibição dos créditos finais de um filme –, uma atmosfera de mal-estar logo se instaura. Será essa então a execrável película em que trabalham os cidadãos de bem? A serialização dos nomes evidenciaria uma obra cinematográfica de terror na qual o cenário sinistro seria a repetição fastidiosa de significantes desincumbidos de seus significados?
Vigiada e punida é um excelente exercício de conversão de um corpo ferido em um corpo insubmisso, emancipado da violência que o procurou aniquilar. Um corpo que respira e conspira com Outros uma contundente resposta àquilo que Raymond Williams chamou de “maquinização do mundo”, de “ruptura das solidariedades comunitárias”. Safia Nolin, Philippe Cyr e o Théâtre Prospero mostram como a cintilação utópica da arte do teatro pode ser colocada a serviço da antioxidação do real.
VIGIADA E PUNIDA
Safia Nolin e Philippe Cyr
Théâtre Prospero
Welington Andrade é bacharel em Artes Cênicas pela Uni-Rio, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da Faculdade Cásper Líbero.
(Versão para o francês : Thaïs Chauvel*)
Comme nous le rappelle Muniz Sodré, le sens premier du verbe communiquer est celui de mettre en commun, agir en commun, laisser agir le commun. Dans A ciência do comum: Notas para o método comunicacional, le sociologue et journaliste bahianais affirme que « les êtres humains sont communicants non pas parce qu’ils parlent, mais parce qu’ils mettent en relation ou organisent des médiations symboliques en fonction d’un commun à partager » – ce qui renvoie nécessairement à l’idée de citoyenneté. Avec la crise de la raison éclairée que nous traversons, les masses font irruption dans les environnements virtuels et, par conséquent, réduisent en miettes, non seulement la notion même de citoyenneté, mais aussi le concept selon lequel la communication aurait une finalité éthique : celle de contribuer au bonheur de la collectivité humaine. Si la brutalité se répand dans les rues de la ville (il suffit d’avoir des yeux pour le voir), les autoroutes de l’information du Web imitent ce processus. La parole polie quitte la scène, c’est au tour de l’impudence et de l’insulte de devenir ce commun à partager. L’indécence cruelle et l’immoralisme des énoncés modernes – annoncés, il y a plus d’un siècle, par la littérature de Franz Kafka, il faut bien le dire – sont les commodities du grand marché mondial de la communication numérique et de ses serviles composantes : les réseaux sociaux.
Surveillée et punie, de la compagnie canadienne Théâtre Prospero, mise en scène par Philippe Cyr, avec les chanteuses Safia Nolin et Katia Lévesque à la tête d’un chœur composé de vingt et une voix, est une expérience scéno-musicale qui met en évidence l’échec de la communication contemporaine face à l’hypertrophie de l’expression du moi, ce que l’on a pris l’habitude d’appeler « l’ère de l’individu-média ». Lorsque la médiation cède la place à la médiatisation, disparaît en retour l’intermédiation avec l’Autre et avec la Collectivité, laissant émerger une nouvelle instance d’orientation du réel, à savoir, la vie médiatique, d’après, encore une fois, Muniz Sodré, qui soutient l’exacerbation des singularités et son corollaire le plus terrible : les comportements sans sanction. La théorie critique d’Theodor W. Adorno nous apprend que la forme est le contenu socio-historique décanté. Que sont donc les réseaux sociaux, sinon le soutien technologique à l’abolition de tout principe éthique comme condition préalable à la liberté d’expression ? L’Autre est désormais réduit à une fonction spécifique. Réactualisant l’ancien rituel grec du φαρμακός (pharmakós), les réseaux sociaux vivent de l’élection saisonnière d’un bouc émissaire, d’un ennemi, sur lequel doivent se déverser des tonnes et des tonnes de haine sous la forme de l’expression libre. Il faut dire du mal de l’Autre parce que sa jouissance me menace et que, comme je n’ai pas ma langue dans ma poche, je dis ce que je pense, autrement dit, je suis authentique, il vaut mieux s’exprimer comme ça qu’être hypocrite.
Safia Nolin a subi une attaque massive sur les réseaux sociaux en raison de sa condition de femme racialisée et d’artiste lesbienne dont le corps ne correspond pas aux prétendues normes féminines. Sa réponse à une telle violence est de concevoir le spectacle Surveillée et punie, où elle intervient en tant que chanteuse, compose la musique (en partenariat avec Vincent Legault) et écrit le livret (en partenariat avec Jean-Philippe Baril Guérard). Parmi ses nombreuses qualités esthétiques et politiques, cette étrange création (la qualifier de « belle » reviendrait à émousser le couteau qu’elle enfonce dans notre sensibilité) dénonce la manière dont les réseaux sociaux sont en train de devenir un hyperobjet, une entité aux contours tellement insaisissables qu’ils excèdent notre capacité à l’identifier vraiment et à l’évaluer de manière critique.
Le spectacle repose sur deux lignes de force articulées de façon à produire une éloquence tranchante. La première fait contraster la beauté de la musique spécialement composée pour l’entreprise avec la brutalité des énoncés chantés, presque toujours de façon harmonique, par le chœur. (Çà et là, quelques solistes se détachent). Tous les textes qui composent le livret ont été tirés de publications sur les réseaux sociaux : des attaques verbales virulentes subies à répétition par l’artiste. Les entendre ainsi encadrés mélodiquement par une masse sonore qui évoque les liturgies religieuses (l’attitude des membres du chœur renforce l’aspect liturgique de l’initiative) produit un violent choc de sens. Serait-ce donc la messe abjecte à laquelle participent les « citoyens de bien » ? Les systèmes numériques ne seraient-ils rien d’autre qu’une sinistre mélopée servant de bande sonore à l’incitation capitaliste à la massification capillaire de la violence ?
La seconde ligne de force du spectacle consiste à mettre en scène des corps qui ne se soumettent à aucune forme de normativité leur permettant de jouir de leurs propres subjectivités sous le regard de tous. Tandis que ceux qui distillent leur haine sur Internet le font au nom d’une « vie vécue » alimentée par le carburant d’une estime de soi qui n’est que pure marchandise – rendue publique et capitalisable –, Safia et Katia incarnent sur scène la vie comme expérience jouissive et comme potentiel de refus de ce qui nous est déjà donné.
Enfin, deux scènes indépendantes de la structure musicale du spectacle retiennent particulièrement l’attention. La première reproduit le dialogue entre la victime de la haine collective et l’autorité policière, dont la dextérité verbale, mise au service d’une raison qui dissimule à peine son cynisme, fait glisser l’agent de la loi au rôle de complice du crime. La seconde concerne les noms projetés en vidéo de tous les individus ayant proféré des discours de haine contre la chanteuse. Que ce soit par la durée prolongée de cette projection ou par la manière dont elle est présentée – à la manière du générique de fin d’un film –, le malaise altère l’ambiance assez rapidement. Serait-ce donc à ce film exécrable que travaillent les prétendus « honnêtes citoyens » ? La sérialisation des noms donnerait-elle à voir une œuvre cinématographique d’horreur dont le décor sinistre serait la répétition fastidieuse de signifiants déchargés de leurs significations ?
Vigiada e punida constitue un excellent exercice de conversion d’un corps blessé en un corps insoumis, émancipé de la violence qui a tenté de l’anéantir. Un corps qui respire et conspire avec d’Autres pour offrir une réponse cinglante à ce que Raymond Williams appelait la « mécanisation du monde » et la « rupture des solidarités communautaires ». Safia Nolin, Philippe Cyr et le Théâtre Prospero montrent ainsi comment la scintillation utopique de l’art théâtral peut être mise au service de l’antioxydation du réel.
SURVEILLÉE ET PUNIE
Safia Nolin e Philippe Cyr
Théâtre Prospero
(Versão para o francês : Thaïs Chauvel*)
*Thaïs Chauvel é franco-brasileira, possui mestrado e doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo e atua há quinze anos como professora de língua e literatura francesa.
*Thaïs Chauvel est franco-brésilienne. Elle est titulaire d’un master et d’un doctorat en lettres de l’Universidade de São Paulo et enseigne la langue et la littérature françaises depuis quinze ans.