Após ter avançado fortemente pela manhã ao subir até os 182.800 pontos, o Ibovespa devolveu boa parte dos ganhos ao longo do dia. Pela manhã, a declaração feita pelo presidente Donald Trump, de que a maioria dos aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) não pretende se envolver na guerra no Irã ajudou a afastar o índice das máximas, juntamente com a alta dos preços de petróleo.
Durante a tarde, o movimento se acentuou e o Ibovespa perdeu ainda mais força, em virtude do aumento dos temores inflacionários quanto a uma eventual greve de caminhoneiros. Segundo apuração do jornal Folha de S.Paulo, motoristas de veículos pesados de diferentes regiões do país estão articulando uma paralisação que pode ocorrer nos próximos dias, em meio ao aumento do custo do diesel e da insatisfação com o governo para propor medidas com o objetivo de conter a alta do combustível.
Com a intensificação das preocupações inflacionárias, a percepção de agentes financeiros de que o Banco Central terá que cortar os juros em 0,25 ponto na reunião de amanhã ganhou ainda mais força, o que teve reflexo direto sobre a bolsa, que se beneficiaria de uma redução mais expressiva. Com isso, no fim do dia, o Ibovespa encerrou em alta de 0,30%, aos 180.410 pontos, distante dos 179.850 pontos vistos na mínima intradiária.
No término do pregão eletrônico, o mercado de opções digitais do Copom colocava uma probabilidade implícita de 70% de que o Comitê possa reduzir a Selic em 0,25 ponto na reunião de amanhã. No começo do dia, a chance de um corte desse nível estava em 66%.
Com a perda de tração do Ibovespa ao longo do pregão, blue chips de commodities terminaram no positivo, enquanto bancos encerraram majoritariamente no negativo. No término da sessão, as PN da Petrobras subiram 1,76%, ao passo que as ON da Vale ganharam 0,15%; já as units do Santander lideraram as quedas, no valor de 1,18%.
Embora os mercados globais tenham sofrido com a forte aversão a risco desde o início da guerra no Irã, cálculos feitos pelo VALOR DATA mostram que as ações de petroleiras ajudaram a evitar uma queda mais acentuada da bolsa brasileira. Entre 2 de março — primeiro pregão após o início do conflito — e o fechamento de segunda-feira, 16, o Ibovespa recuou 4,98%. Sem o suporte de Petrobras, Prio, PetroReconcavo e Brava, a perda teria sido ainda maior, de 6,30%.
Dentro do setor, o melhor desempenho no período foi o da Petrobras, cujas ações ordinárias e preferenciais avançaram 12,10% e 10,82%, respectivamente. Embora as cotações do óleo bruto já tenham avançado bastante desde o início do conflito, o Itaú BBA avalia que o mercado internacional projeta preços do petróleo elevados por ainda mais tempo, refletindo o risco geopolítico prolongado envolvendo o Irã.
Nesse contexto, o banco afirma que estrangeiros que buscam exposição ao setor dividem suas preferências principalmente entre Petrobras e Prio, com a estatal sendo vista como um nome de qualidade e que deve se beneficiar dos fluxos de capital estrangeiro.
Em meio à disparada dos preços de petróleo e a um ambiente geopolítico mais volátil, a avaliação de investidores e bancos estrangeiros é que o mercado de ações brasileiro e o da América Latina vem emergindo como um “safe haven” (porto seguro, em tradução livre), como explicam as equipes do Citi e do J.P. Morgan.
Na visão da equipe de estratégia do Citi, os mercados de ações do Brasil e da América Latina podem funcionar como “refúgios geopolíticos relativamente seguros” no longo prazo, porque podem se manter resilientes, já que tendem a ser menos expostos às consequências negativas da guerra, como a disparada do petróleo. “O Brasil é um exportador líquido de petróleo bruto e uma potência global em biocombustíveis — embora não seja totalmente autossuficiente em produtos refinados”, destacou o banco, em relatório.
A equipe de estratégia voltada para o mercado acionário latino-americano do J.P. Morgan, liderada por Emy Shayo Cherman, também diz que ouviu de alguns investidores estrangeiros que a América Latina agora é um “porto seguro”, em reuniões feitas recentemente.
Em relatório, os profissionais do J.P. Morgan ressaltam que a América Latina é responsável hoje por cerca de 20% das reservas mundiais de petróleo e por 10% da oferta atual. “Com exceção do Chile e do Peru, a região é exportadora líquida de petróleo. Assim, de uma perspectiva geopolítica, o status da América Latina foi reforçado.”
O volume financeiro negociado pelo Ibovespa foi de R$ 19,8 bilhões e de R$ 26,7 bilhões na B3. Já em Wall Street, o Nasdaq encerrou em alta de 0,47%; o S&P 500 subiu 0,25%; e o Dow Jones ganhou 0,10%.