Crédito, Anadolu via Getty Images
- Author, Amir Azimi
- Role, BBC News Persa
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O ataque aéreo de Israel que matou o chefe de segurança do Irã, Ali Larijani, na terça-feira (17/3), tirou de cena um dos políticos mais experientes e influentes da República Islâmica do Irã em um momento crítico.
Larijani não era um comandante militar, mas ocupava posição central nas decisões estratégicas do Irã.
Como secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, ele sentava no coração da tomada de decisões relacionadas a guerra, diplomacia e segurança nacional.
Sua voz tinha peso no sistema iraniano, particularmente ao lidar com o confronto contra os Estados Unidos e Israel.
Depois da morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em 28/2, Larijani adotou um tom desafiador, sinalizando que o Irã estava se preparado para um longo conflito.
Sua morte, agora confirmada pela mídia estatal do Irã, ocorre em meio a uma ampla campanha na qual diversas autoridades sêniores do Irã foram mortas em questão de semanas. Esse padrão sugere, aliás, um esforço específico para enfraquecer a estrutura de liderança do Irã durante a guerra.
Apesar de declarações e posições linha-dura contra o Ocidente, Larijani costumava ser descrito dentro do Irã como um pragmático. Ele combinava lealdade ideológica com uma abordagem tecnocrática, preferindo estratégias calculadas à retórica.
Larijani era profundamente cético em relação à reaproximação com potências ocidentais, como os EUA, mas ele esteva envolvido em esforços diplomáticos, e foi um dos principais envolvidos no fechamento do acordo de cooperação de longo prazo firmado entre o Irã e a China.
Até ser morto, Larijani estava à frente do gerenciamento de três crises enormes.
A primeira crise era a própria guerra com Israel e os EUA. Larijani argumentava que o Irã precisava estar preparado para um sofrimento prolongado e para expandir o conflito na região e além, incluindo o fechamento do Estreito de Ormuz, hidrovia por onde são transportados cerca de 20% do petróleo e gás do mundo.
A segunda crise era a onda de manifestações dentro do Irã, que começou ligada a insatisfações econômicas, mas rapidamente se transformou em uma série de protestos que buscavam derrubar o comando da República Islâmica do Irã. A resposta violenta do governo iraniano a esses protestos deixou milhares de manifestantes mortos ao redor do país.
A terceira crise é sobre o programa nuclear do Irã e as negociações emperradas com o governo dos EUA, ambos agora abalados pelos ataques americanos e israelenses.
Sua remoção deixa essas questões sem solução e as transfere para um sucessor ainda desconhecido, que enfrentará uma situação extremamente frágil. Embora o Irã tenha demonstrado resiliência, em parte ao provocar turbulências nos mercados globais de energia, seu espaço aéreo permanece aberto a novos ataques. Qualquer nova figura de alto escalão enfrentará o risco imediato de ser assassinado por Israel ou pelos EUA.

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Isso pode deslocar ainda mais o poder em direção aos militares. Declarações recentes do presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, sugerem que as unidades das Forças Armadas receberam ampla autoridade para agir caso a liderança superior fique incapacitada. Na prática, isso pode significar decisões tomadas com mais rapidez, mas com menor coordenação central.
Também há sinais de que a liderança enfrenta dificuldades para administrar a sucessão. O Irã tem adiado anúncios públicos e mantido algumas figuras, incluindo o novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, em grande parte fora de vista. Não está claro se isso ocorre por razões de segurança ou por incerteza interna.
No curto prazo, o desfecho mais provável é uma situação mais volátil: uma postura militar mais dura na guerra e repressão mais severa no país.
O chefe do Exército iraniano, general Amir Hatami, também ameaçou lançar uma retaliação “decisiva” pela morte de Larijani.
“No momento e local apropriados, será dada uma resposta decisiva, dissuasiva e que causará arrependimento à criminosa América e ao regime sionista sanguinário”, afirmou Hatami em comunicado.
Ele acrescentou que a morte do chefe de segurança e de outros “mártires serão vingadas”.
Com o tempo, porém, um sistema que continua a perder figuras de alto escalão pode ter cada vez mais dificuldade para funcionar de forma eficaz, especialmente em um país com mais de 90 milhões de habitantes.
O impacto da morte de Larijani, portanto, não se limita à perda de um único dirigente. Ela aprofunda uma crise de liderança que pode afetar tanto o rumo da guerra quanto a própria estabilidade do Estado iraniano.