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segunda-feira, abril 6, 2026

“Violações contra mulheres são crimes políticos”: Entrevista com a antropóloga argentina Rita Segato – Revista Cult

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Aos 74 anos, a antropóloga argentina Rita Segato chega ao Brasil nesta semana para participar das comemorações dos dez anos da Bazar do Tempo, editora que publica suas obras no país. Referência internacional nos estudos sobre violência de gênero, colonialidade e poder, Segato é autora de livros que se tornaram centrais no debate feminista como Crítica da colonialidade em oito ensaios (2021) e Cenas de um pensamento incômodo: Gênero, cárcere e cultura em uma visada decolonial (2022).

Durante sua passagem pelo país, a pesquisadora participa, nesta quinta-feira (19), de um encontro em São Paulo – ao lado da crítica cultural Rita von Hunty, com mediação da jornalista Adriana Ferreira Silva, no Teatro Cultura Artística em parceria com a Livraria Megafauna. O debate propõe discutir temas centrais do feminismo contemporâneo, como gênero, violência, colonialidade, direitos reprodutivos e meio ambiente. O encontro terá, ainda, uma edição no Rio de Janeiro, na Estação NET Gávea, no dia 25 de março, com mediação da jornalista Cris Fibe.

Professora emérita da Universidade de Brasília (UnB), onde lecionou entre 1985 e 2010, Segato foi também uma das formuladoras da primeira proposta de cotas para estudantes negros e indígenas no ensino superior brasileiro.

Às vésperas de sua viagem ao Brasil, a Cult conversou com a antropóloga por chamada de vídeo, diretamente da Patagônia argentina, onde ela participava do quarto seminário “Pensando a partir do Sul”, organizado pela Universidad Nacional de Tierra del Fuego (UNTDF) e pela Universidad Nacional de Tres de Febrero (UNTREF). Devido à instabilidade da conexão com a internet, Segato concedeu a entrevista na recepção do hotel em que estava hospedada, na cidade de Río Grande, logo após uma longa viagem desde Ushuaia. Apesar de algumas interrupções — causadas tanto pela conexão quanto pelo movimento no saguão —, a autora prosseguiu com a entrevista.

Segato comentou episódios recentes de violência de gênero no Brasil – como o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro – e analisou a repercussão da “trend” misógina que viralizou no TikTok, conhecida como “Caso ela diga não”, em que jovens simulam agressões como reação à rejeição feminina. Ao longo da conversa, a antropóloga discute o que chama de “mandato da masculinidade”, reflete sobre as estruturas políticas da violência patriarcal e avalia também os efeitos das políticas de cotas raciais no Brasil.

Pere Joan Oliver / Divulgação

A senhora chega ao Brasil em um momento delicado, marcado por diversos casos recentes de feminicídio e violência de gênero. Um deles foi o estupro coletivo de uma adolscentre de 17 anos, no Rio de Janeiro, que chocou a opinião pública. Casos como esse revelam algo sobre o funcionamento do patriarcado nas sociedades contemporâneas? E por que esse tipo de violência continua a se reproduzir com tanta intensidade?

Eu acho que a agressão contra a mulher é um sintoma da fragilidade masculina. O que temos que nos perguntar é: por que está surgindo uma fragilização tão grande dos homens? Tenho a impressão de que as razões são econômicas: a posição masculina está fragilizada pela imensa concentração do capital; isso não é só no Brasil, mas no mundo (o que faz com que cada vez mais homens se vejam numa posição frágil, justamente naquele campo em que o homem era provedor). Essa fragilização não é, como pensamos, por conta de que as mulheres estão se tornando mais exigentes. O homem, de certa forma, está perdendo terreno. A fragilidade, às vezes, é considerada uma consequência do fortalecimento das mulheres. Eu não leio assim. Leio que a fragilidade dos homens os leve a considerarem a violência e a agressão como a única forma de restaurar a masculinidade fragilizada. A capacidade do homem como provedor vem sendo ameaçada por uma ordem econômica, através da qual a concentração da riqueza e a insegurança, inclusive do emprego, estão aumentando. Existem também, dentro da masculinidade, movimentos que dizem aos homens que eles estão autorizados a agredir. Isso acontece nas redes sociais. Devemos proteger uma legislação – uma justiça – que ainda é capaz de prevenir e frear a autorização que alguns homens recebem de suas parcerias masculinas, levando-os a acreditar que infringir a lei é possível e impune. Mas a justiça está mostrando que não existe essa impunidade.

 

Está circulando nas redes sociais, em especial no TikTok, uma “trend” em que jovens ensinam outros a reagir à rejeição de mulheres. São vários vídeos de meninos incentivando a violência: socando e chutando manequins, bonecos ou sacos de boxe, como se fossem mulheres.

Eu ainda “boto fé” na justiça brasileira. É necessário criar regras sobre o que pode ser transmitido nas redes sociais, é necessária uma vigilância e uma legislação que as regule.  Há previsão na lei de que a apologia ao crime é crime. Então, por que não se aplica nesse caso? A justiça deve ser acionada para que se aplique essa lei. Também é necessário que exista um controle de prevenção nas redes sociais.

 

Diante de casos assim, cresceu o debate sobre como educar os meninos para que eles não reproduzam esses tipos de ódio e violência contra as mulheres.

Acredito ter apresentado as bases para compreender esse fenômeno em  As estruturas elementares da violência: Ensaios sobre gênero entre a antropologia, a psicanálise e os direitos humanos. Naquela época, na década de noventa, o Secretário de Segurança Pública de Brasília chamou o reitor da UnB – demandando que as professoras da universidade que trabalhavam com o tema mulher (naquela época ainda não se falava em gênero, falava em “mulher”) pesquisassem o por quê de na cidade de Brasília haver um surto de violações na rua. Três professoras, que não trabalhavam com mulher e violência naquela data, foram chamadas; eu trabalhava com mulher e religião, as outras professoras trabalhavam com mulher e saúde, e mulher e trabalho. Nesse momento, decidi que trabalharia com os presos condenados por violação, junto a uma equipe muito grande de estudantes. O resultado dessa pesquisa, que durou aproximadamente dois anos, está no livro As estruturas elementares da violência – justamente um dos livros publicados, ano passado, no Brasil. Embora esse livro tenha sido completamente escrito no Brasil, encontrei, na época, dificuldades para publicá-lo: uma censura (que veio do campo antropológico, o meu campo) impediu sua publicação: o livro foi barrado por uma colega que integrava o conselho editorial da editora Brasiliense, à qual eu havia submetido o manuscrito. Mas o livro foi publicado em espanhol – e já tem diversas edições; agora está traduzido para o português; e neste ano estará saindo em alemão.

A leitura feminista tem se concentrado na relação agressor/agredida. Para mim, no entanto, o eixo fundamental não é o dessa relação, mas um eixo que eu chamo de “eixo horizontal”: a relação do agressor com seus pares, com outros homens, de quem ele busca o reconhecimento de sua masculinidade e a aquisição do título de homem. Os homens conformam o que chamo de “fátria”, fraternidade ou confraria masculina, o que recentemente, chamei de “corporação masculina”.

Há, no presente, um fenômeno bastante impressionante, que fez com que eu recebesse muitos e-mails de diferentes pessoas que têm lido o livro em diversos países – porque tanto o caso [Gisèle] Pelicot, na França, quanto a série Adolescência e o caso [Jeffrey] Epstein (o mais impressionante de todos) provam meu modelo de compreensão. Esses casos mostram a importância, para o homem, da confraria, da corporação, da irmandade masculina, que se constitui mediante  “vítimas sacrificiais”.

Voltemos para a maravilhosa série britânica Adolescência. Você tem um menino frágil, acusado pelo olhar dos colegas de não ser propriamente masculino, de ser frágil na sua masculinidade, incel [involuntary celibate]; a fragilidade masculina precisa ser superada, a falta de masculinidade compromete sua própria humanidade. E esse menino, mal visto pelos olhos dos colegas, ou desprezado, tenta aproximar-se de uma menina; mas é rejeitado. Resta a ele somente uma possibilidade: agredi-la; nesse caso, matá-la. Acontece, então, a ação de matar para se provar ser homem. Essa é a estrutura que está por trás dos atos de violência.

É uma estrutura que deve ser desmontada. A sociedade brasileira precisa compreender a origem desse mal, não basta colocar alguém na cadeia. Colocar o criminoso na cadeia – tirar o criminoso de circulação – é importante; mas se a estrutura não for desmontada, isso não vai corrigir o problema.

Até o “mandato da masculinidade” ser desmontado, ele ameaça a sociedade; não somente as mulheres (e a família dessas mulheres), mas a sociedade inteira. É por isso que digo, ultimamente, que as reivindicações do feminismo não são apenas para as mulheres – são para um mundo melhor, para toda a humanidade, incluindo os homens.

 

Que caminhos seriam possíveis para destruir o “mandato da masculinidade”?

Primeiro, pela consciência. Explicar esse modelo, que eu acredito que compreende tanto  casos pequenos quanto os da rua e das escolas, quanto casos grandes – como o de Epstein. Esses grupos de pessoas poderosas, de empresários, aristocratas, políticos, depredam crianças para se dizerem membros da mesma corporação, que se consolida mediante as “vítimas sacrificiais”.

 

Em entrevista ao jornal O Globo, em 2020, a senhora afirmou que poderíamos estar vivendo o início do fim da era patriarcal – e que a reação de grupos conservadores e fundamentalistas ao redor do mundo seria um sintoma desse processo. Passados alguns anos, a senhora ainda mantém essa interpretação?

Eu me perguntava: o que incomoda a um grande dono de corporação que uma mulher faça um aborto? Você vê a convergência das forças políticas que são favoráveis à concentração de riqueza; todas elas alinham-se contra as reivindicações das mulheres. Por quê? Efetivamente, acho que as assessorias dessa frente política são assessorias poderosas – que percebem que nossas reivindicações ameaçam o poder econômico e o poder político. E o susto frente a essa ameaça prova, por assim dizer, que se nossas reivindicações fossem atendidas, a humanidade toda mudaria de sensibilidade.

Por outro lado, temos, no momento presente, uma rara situação: a estrutura de gênero que emergiu e se colocou sob nossos olhos. Essa estrutura estava oculta, mas de repente (e ao mesmo tempo do extermínio de Gaza), emergiu: está na superfície, é possível enxergá-la. Se  existe uma boa notícia do presente é que estamos em um momento de mais verdade, em que a estrutura profunda do poder, com suas características, saiu à superfície e está sob os olhos da sociedade. 

 

A senhora é crítica da expressão “cultura do estupro”; no entanto, esse conceito tem muita força no movimento feminista brasileiro. Em sua avaliação, por que esse conceito ganhou tanta ressonância por aqui? E quais seriam os riscos – ou limitações – de explicar a violência sexual, principalmente a partir da ideia de cultura?

Não podemos acatar o estupro como uma forma de ser de uma sociedade. Não podemos aceitar isso – é um crime. Um crime não pode ser uma cultura.

 

De que maneira pensar o patriarcado desde o Sul Global – e não apenas a partir de referenciais europeus ou estadunidenses – transforma o próprio campo do feminismo e as formas de compreender a violência de gênero?

Muitas vezes, inclusive dentro do movimento feminista, tendemos a enxergar esses crimes (as agressões de gênero, a violação, entre outros) como infrações morais, e fazemos acusações a partir de uma perspectiva moral. Mas o patriarcado é uma ordem de poder – e, portanto, uma ordem política – que necessita desses crimes para se reproduzir. Falar de patriarcado é fundamental para mostrar de que maneira violações contra mulheres e feminicídios são crimes plenamente políticos e não meramente morais.

A senhora foi uma das formuladoras da primeira proposta de cotas raciais para o ensino superior brasileiro (que viria a inspirar políticas adotadas nacionalmente a partir de 2012). Mais de uma década depois da implementação da Lei de Cotas, como a senhora avalia seus impactos na Universidade brasileira e no próprio debate público sobre raça, desigualdade e conhecimento? 

Foi a lei de cotas que mudou o Brasil, não tenho dúvidas quanto a isso. Evidente que é um longo processo. Mas a universidade pública é o corredor pelo qual se transita às repartições do Estado, onde se decide o destino da nação. Ao abrir as suas portas para a população negra, afrodescendente, ela abriu os caminhos para as decisões políticas da maior importância – aquelas em que se decide onde serão colocados os recursos da nação. Isso não aconteceu do dia para a noite: foram as cotas. Uma grande luta que não é tão conhecida como deveria. Ainda pretendo escrever um ensaio mais longo a esse respeito.

No capítulo “Brechas decoloniais para uma universidade da Nossa América” do livro A crítica da colonialidade, relato alguns elementos desse processo –  que teve origem na UnB, como consequência de um caso em que um professor corrigiu, avaliou e atribuiu menção a um estudante negro sem ler seu trabalho. Assim começou a luta. Arivaldo Lima, o estudante, é hoje professor na Universidade Estadual da Bahia. O movimento negro lutava a tempos pelas ações afirmativas, mas a luta pelas cotas dentro de uma universidade começou com um caso particular, com uma suspeição de avaliação incorreta de um estudante negro do recôncavo baiano. A partir desse momento, José Jorge de Carvalho e eu sentimos que deveríamos lutar para ampliar essa luta. E começamos a propor, e elaboramos em conjunto, um projeto de cotas. A partir daí, o Brasil viu mudanças importantíssimas – e hoje nós vemos pessoas negras em todas as universidades, o que é fundamental.

Além do mais, foi o pagamento de uma dívida. Minha tese de doutorado é sobre o Xangô do Recife, uma tradição africana do Brasil. Saí da Argentina e cheguei no Recife para fazer trabalho de campo. E minha vida se transformou completamente; aprendi muito, minha humanidade cresceu, e sinto ter conseguido devolver o que devia a essa tradição e a esse mundo, a essa África brasileira, pela qual sinto imensa admiração.



[Fonte Original]

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