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segunda-feira, abril 6, 2026

“Pecadores”: o tempo, o corpo e o blues – Revista Cult

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Pecadores (2025), filme longa-metragem escrito, coproduzido e dirigido por Ryan Coogler, é quase como o blues. Situa-se nos Estados Unidos da década de 1930, um momento histórico marcado pelos desdobramentos da quebra da bolsa de valores de Nova York, em 1929, pela guerra entre gângsteres (entre eles, Al Capone) e por um racismo sorrateiro e assassino, armado de Ku Klux Klan: quase como o blues. Conta uma história em que se chocam a religião e a vocação, em que dores do passado convivem com a premência da festa, em que o amor se faz clandestino, ao sabor da carne: quase como o blues. E é um filme de vampiro, com a chacina disposta ao lado da promessa de uma paz eterna. Quase como o blues.

Talvez já se ouçam os versos de Leonard Cohen por trás do primeiro parágrafo deste texto. Almost like the blues, canção do álbum Popular Problems (2014) repete a mesma frase do título após cenas de crueldade, egoísmo, heresia, indiferença, deleite. Intensidades tremendas – e só se acercariam do que é o blues. Cohen sugere nesse estilo criado pela população escravizada nos EUA (ou seja, na sua lírica das paixões, nas suas dissonâncias, na hipnose do seu ritmo e de suas viagens melódicas) uma potência luminosa e turva. Só se conhece algo assim por dentro. Como a música, Pecadores se alimenta desse mistério. A premissa do filme é a inauguração de um bar de blues, que em breve estará sob cerco.

Vindos de Chicago, onde trabalhavam com a máfia, os veteranos de guerra Smoke e Stack voltam com dinheiro e produtos roubados de mafiosos para o delta do rio Mississipi, no estado americano de Louisiana. Irmãos gêmeos, ambos são interpretados por Michael B. Jordan. Nessa terra em que nasceram e onde nasceu o blues, eles compram um lugar para abrir um juke joint, tipo de estabelecimento voltado à dança, à bebida e à jogatina, então espaços culturais e de socialização para pessoas negras. O local adquirido é uma antiga serraria, a qual, saberemos, era propriedade de um líder da Ku Klux Klan. Após a compra, os irmãos recrutam pela cidade uma equipe para pôr o bar de pé.

A primeira seção do filme, assim, tem uma estrutura de convites sucessivos, semelhante a de longas como Onze homens e um segredo (2001) ou mesmo Cães de aluguel (1992). Já convidado desde o começo está Sammie (Miles Caton), primo de Smoke e Stack, e um bluesman em formação. Entre os chamados a trabalhar no juke joint está Annie (Wunmi Mosaku), ex-esposa de Smoke, cozinheira e sabedora de saberes arcanos; compartilham, esses dois personagens, um trauma: perderam uma bebê. Além de Annie e outros, conhecemos Mary (Hailee Steinfeld) e Pearline (Jayme Lawson), pares românticos de Stack e Sammie.

Ponto mais alto da noite antes do ataque, e também do filme, a apresentação de Sammie, põe em imagens o que nos é introduzido no prólogo de Pecadores: “Existem lendas sobre pessoas com o dom de fazer música tão verdadeira que consegue atravessar o véu entre a vida e a morte, conjurando espíritos do passado e do futuro”. Sammie – após Delta Sim (Delroy Lindo), pianista que o acompanha no palco, ter-lhe dito que o que os blueseiros produzem “é magia, é sagrado, é grandioso” – canta uma composição sua, escrita ao seu pai, um pastor, o qual recrimina o estilo como algo demoníaco. Confessa: “Eu menti pra você, eu menti pra você. Eu amo o blues”. E, enquanto dedilha o violão e entoa “alguém me tome em seus braços nesta noite”, reúne os tempos todos numa coisa só.

Em um plano sequência impecável, passa por Sammie um instrumentista senegalês, e os sons do xalam (um tradicional alaúde da África) se somam à canção. Logo depois, se une ao delta blues a guitarra elétrica e psicodélica de um músico de vestes futuristas. Um DJ surge no palco, costurando à trama mais um momento histórico da música negra. Entre os pares que bailam no juke joint, performam-se break e zaouli, e as evocações vão além da África e da diáspora: também assistimos a uma dançarina de balé negra e – como um eco da presença de Lisa e Bo Chow (Helena Hu e Yao), comerciantes de origem asiática contratados pelos gêmeos – vemos artistas de dança oriental em cena. As culturas vazam umas nas outras, o ancestral resvala no utópico. O blues revelou as redes do real.

O caminho, a verdade e a morte

Pouco depois, chegam os monstros. A essa altura, já os tínhamos visto: testemunhamos quando Remmick (Jack O´Connell), após fugir da perseguição de indígenas que sabiam o que ele era, ataca o casal de racistas que o escondera em casa e, assim, os transforma em vampiros (é o tipo de regra que varia com a representação vampiresca; neste filme, basta uma mordida). O trio se apresenta aos protagonistas como uma banda e pede para entrar (outra regra tradicional: vampiros não podem adentrar um local sem convite). Eles sacam seus instrumentos e executam, bem coreografados, uma canção que, como quem não quer nada, fala de uma pessoa devorada. No primeiro momento, são negados, mas os acasos levarão a serem abordados novamente, dando oportunidade para matar e “converter” primeiro um, depois outro, então quase todos os presentes no bar.

O longa desdobra um motivo de horror bem comum: são humanos tentando sobreviver ao cerco dos vampiros, com balas, fogo, alho e estacas. Se valorizamos a densidade das cenas anteriores, os diálogos cheios de personalidade, a construção de personagens com carisma, essa segunda parte pode soar mais fraca que a primeira. Porém, o filme é eficaz como ação e terror (nesse último gênero em particular pelo quanto os seus mortos-vivos não soam batidos depois de tantas produções com sugadores de sangue). A ideia de que compõem uma mente coletiva (hive mind), compartilhando memórias, conhecimentos, sensações, me parece incomum em histórias desse tipo de monstro (embora seja, por si só, também excessivamente utilizada). Mas o que mais se destaca é o vilão.

Remmick é um profeta: anuncia que submeter-se à sua ferocidade é o meio de acesso a um paraíso. Ao ser comido vivo por eles, não só ganhamos a imortalidade, mas também a harmonia. Remmick promete um mundo sem a violência da discriminação, sem perda de entes queridos, sem solidão. Seremos como um só, e nada nunca mais morrerá.

O cronos vampiro e o tempo do aion

Assim, Pecadores opõe a uniformidade à diferença. De um lado, a concepção de que ser um indivíduo é problemático: daí as distâncias e os choques. Do outro, a concepção de que ser um indivíduo é problemático, mas é preciso aprender a navegar esse enredo. De um lado, a diluição das origens, dos territórios, das vontades. Do outro, a busca difícil por saber a que pertencemos e o que desejamos. Ser muitos e, de fato, um só indivíduo, ou ser só um indivíduo e, de fato, muitos. Pecadores escolhe a multiplicidade.

Talvez por isso seus principais protagonistas sejam gêmeos (Smoke, aliás, diz sobre seu irmão: “O melhor de mim era ele”). Mary também representa essa cisão pessoal: branca, porém de ascendência negra, e reconhecida como “família” entre aqueles que seriam os outros. De resto, a composição da equipe do juke joint tem esse espírito da diversidade. No bar, tudo isso pôde se reunir. Pecadores opõe a assimilação à convergência.

A maior oposição, contudo, está em torno do sentido do tempo. Entender isso passa por lembrar do que atraiu os vampiros ao bar: Sammie. É a potência da sua música que leva Remmick até lá – ele chega a oferecer sobrevida a todos, caso entreguem o rapaz. Mas por que o blues de Sammie seduz tanto Remmick? Penso que por uma distinção entre dois tipos de temporalidade. O vampiro possui uma eternidade que é um presente contínuo; por um lado, ela é fixidez (seu corpo, congelado em certa idade, quase vulnerável, não muda); por outro, se constitui por um acúmulo indefinido, seja das vivências daqueles que são cooptados, seja dos dias de um futuro que poderá ser todo abarcado.

A eternidade a que o bluesman acede é diversa. É aquela do aion tal como definido por Gilles Deleuze: “Em lugar de um presente que absorve o passado e o futuro, um futuro e um passado que dividem a cada instante o presente, que o subdividem ao infinito em passado e futuro, nos dois sentidos ao mesmo tempo”. Não foi isso o que vimos ao longo da sua performance? Com seu violão e sua voz, Sammie torna atual essa “verdade eterna do tempo”, como diz ainda a Lógica do sentido. Outros filósofos comentaram a distinção entre projetar uma soma infinda de unidades, de um lado, e conceber o infinito, de outro. É disso que se trata: Remmick engole mais e mais passados e presente, consome mais e mais futuro, mas Sammie toca o blues e toca em uma essência: deixa provar o absoluto.

A um tempo terreno e imperecível

Mas ainda outras eternidades são contrapostas a dos vampiros. Primeiro, a dos afetos – diante do túmulo da menininha que perdeu, Smoke diz: “O papai está aqui. O papai está aqui” (ouço uma fé pequenina, sem precisão de teologia, nessa fala: o que permanece é a ligação entre os dois). Segundo, a da carne – Annie beija Smoke e lhe diz: “O seu corpo não me esquece” (a pele, a boca, os dedos guardam o saber dos seus sentidos, lembram se não lembramos, e esperam; dadas as condições, essa força assoma e impele).

Parece que nesses casos também se faz o aion, esse presente multiplicado de passados e futuros, agora mais palpável, na vida cotidiana. No mesmo sentido, podemos encontrar a experiência do abstrato na experiência do corpo. Essa mistura parece ser mesmo como Pecadores entende o amor. Ao passo que pude escrever sobre “provar” o transcendente, no filme esse verbo se encarna também de outro jeito: Stack ensina a Sammie técnicas de sexo oral, e Sammie aplicando a lição, diz a uma Pearline recalcitrante que quer prová-la. A música e a lavra do prazer do outro tateiam ambas algo impalpável. Veja-se o valor dessas cenas pelo seu avesso: tendo adquirido Bo, Remmick fala a Lisa que sabe “como ela gosta de ser lambida”. Porém, sendo ele quem diz, isso é só invasivo: o vampiro não tem como usurpar o que foi cultivado num encontro, sua essência compartilhada.

Deleuze define também o aion como “instante sem espessura e sem extensão”, um aqui e agora irredutível. Vemos em Pecadores esses momentos que nunca deixam de acabar, pois nunca terminam de começar. São esses aqui e agora que contestam com toda força a imposição de uma morte em vida onde não vivemos o que sabemos que é preciso viver (acossados, os gêmeos montam seu bar; e Sammie terá de confrontar em definitivo seu pai), assim como a promessa de uma vida em morte e seu simulacro do desejo.

No epílogo de Pecadores, um Sammie já velho (interpretado por Buddy Guy, importante músico do Chicago blues e suas guitarras elétricas) reencontra amigos antigos, vampiros agora, os únicos sobreviventes do massacre. Conversam um pouco e, antes que se vão, o músico lhes pergunta: “Tenho pesadelos com aquela noite, talvez uma vez por semana eu acorde paralisado. Revivendo tudo aquilo. Mas, antes do pôr do sol, penso que aquele foi o melhor dia da minha vida. É assim pra vocês?”. E ouve a resposta: “Sem dúvida. Foi a última vez que eu vi meu irmão. Foi a última vez em que eu vi o sol. E, por umas poucas horas, nós fomos livres”. Aí outra vez, o corpo e o afeto, e a vivência da possibilidade: eis o que fica conosco. E, aí outra vez, terror e júbilo, paralelos. É quase como o blues.

 

Duanne Ribeiro é jornalista, pesquisador e escritor. É editor da revista Úrsula e autor dos livros *ker- (Mondru, 2023) e Em nome da fogueira, da costura e do hálito, amém (Mondru, 2025)



[Fonte Original]

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