Marcel Duchamp e Samuel Beckett são colocados no papel de tecelões narrativos em uma complexa teia dramática nesta que é a última edição inédita da série Le Storie, publicada pela Sergio Bonelli Editore entre outubro de 2012 (O Carrasco de Paris) e esta edição comemorativa/finalizadora, que chegou às bancas italianas em janeiro de 2021. Deste ponto em diante (pelo menos até a edição #150, do momento em que escrevo esta crítica, março de 2025), o título, renomeado para Le Storie Cult, se dedicaria à republicação de material clássico. Por esse motivo, muita liberdade criativa foi dada aos artistas envolvidos na edição, que explora diversas linguagens e gêneros dentro de um mesmo volume. A curadoria coube ao próprio Gianmaria Contro, roteirista e curador da série, que recrutou quatro desenhistas, Massimo Cipriani, Tommaso Bianchi, Max Bertolini e Paolo Raffaelli, e construiu um texto que celebra, de dentro para fora, tudo o que a série sempre foi: um rio de gêneros, vozes e experiências ficcionais.
O ponto de partida é uma partida de xadrez em que dois homens, em algum ponto impreciso de 1940, decidem jogar de outra forma: as peças do tabuleiro passam a ser o estopim de histórias, com cada posição e cada movimento gerando fragmentos de outras realidades. O roteirista conhece bem sua teoria literária, e a lógica por trás da mecânica é clara: as 32 peças e seus movimentos são finitos, mas as possibilidades de partidas são matematicamente inesgotáveis, da mesma forma que uma gramática limitada de funções narrativas — e aqui posso citar o mapeamento feito por Vladimir Propp em Morfologia do Conto Maravilhoso (1928) — podendo gerar uma quantidade infinita de histórias. Ou seja, é um “abismo dentro de abismo” textual, cheio de referências e contando até com uma recorrente brincadeira visual: uma engrenagem que aparece de maneiras distintas em cada nova realidade. Em outras palavras, a própria geração de histórias é o tema central aqui.
Os exemplos metalinguísticos de exploração interna da ficção parecem ter sido a base de Fim de Partida, que visita, por exemplo, o legado de Calvino, que usou o tarô para produzir narrações em O Castelo dos Destinos Cruzados; ou As Mil e Uma Noites, que sustenta toda a sua estrutura no artifício de histórias dentro de histórias; ou ainda A História Sem Fim, de Michael Ende, que torna a relação entre leitor, narrador e mundo ficcional o próprio coração do enredo. Fim de Partida orbita esse mesmo eixo, com a diferença de que as histórias da partida de xadrez não se interligam como matrioskas russas, mas como variações temáticas sobre um mesmo tabuleiro. Daí temos 5 contos de gêneros: uma história de terror com atmosfera de casa assombrada; uma ficção científica de traços sombrios e filosóficos que lembra a identidade visual e o pessimismo das tramas de Nathan Never, a série cyberpunk da própria Bonelli criada em 1991; um faroeste gelado e impiedoso, com uma baita reviravolta; uma aventura africana que toca em temas como colonialismo, eugenia e bioética; e uma “história de encerramento” (a evolução da história de fantasmas, na verdade) centrada em uma escritora. Bertolini e Cipriani são os artistas que mais se destacam nos blocos sci-fi e western, onde o contraste entre ambientações e a pluralidade dos personagens ganha mais camadas de composição.
A proposta de todo o volume é bem interligada, exceto por um bloco. O momento com Duchamp e Beckett, ainda que culturalmente instigante, ocupa um espaço desproporcional à sua contribuição narrativa: os dois aparecem brevemente no início e no fim, como interlocutores de uma partida que serve de pretexto experimental, mas não há nada de diferente ou realmente coeso que saia daí (ou seja, se fossem dois personagens anônimos, dois aliens ou qualquer outra forma de vida, o resultado seria o mesmo). Duchamp, que tornou o xadrez seu modo de vida a partir de 1923 ao ponto de declarar que “as peças de xadrez são o alfabeto de blocos que molda os pensamentos“, merecia um uso mais estrutural dentro da lógica do álbum. Beckett, cujo Fim de Partida de 1957 já explorava o endgame do xadrez como metáfora de uma existência suspensa entre impossibilidade e continuidade, poderia ter sido incorporado de modo mais decisivo ao espírito das histórias internas. As referências ao dadaísmo também aparecem sem desdobramento: o movimento que pregava a anti-lógica e o anti-sentido como formas de arte encontraria eco poderoso nas peças “sem estratégia” jogadas pelos personagens, mas o autor deixa essa conexão subentendida em vez de torná-la um condutor da leitura.
A capacidade humana de contar histórias, exorcizar demônios através da arte e construir realidades alternativas onde nenhuma poderia existir é a alma de Fim de Partida, e essa alma pulsa com mais clareza nas histórias internas do que na moldura metalinguística. Le Storie se despede com uma declaração de amor à variedade narrativa que sempre foi sua razão de existir e também com um lembrete de que histórias não precisam de personagens fixos, cenários recorrentes ou universos compartilhados para criar engajamento. Qualquer tabuleiro, qualquer baralho, qualquer máquina de escrever e seres humanos cheias de whiskey, num “dia x“, podem ser o ponto de partida para mundos inteiros, e é nessa ideia, tão simples quanto inesgotável, que a série forja o seu próprio ponto final, deixando no ar uma ode àquilo que ela foi criada para para fazer.
Le Storie #100: Fim de Partida (Finale di partita) — Itália, Janeiro de 2021
Roteiro: Gianmaria Contro
Arte: Massimo Cipriani, Tommaso Bianchi, Max Bertolini, Paolo Raffaelli
Capa: Aldo di Gennaro
Editora: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Editora Futuro (fevereiro de 2026)
Tradução: Paulo Guanaes
116 páginas