Houve um tempo em que o Brasil discutia futebol como quem confirma uma certeza. A cena era sempre parecida: mesa de bar, televisão pendurada, alguém levantando a voz. No fim, todo mundo dizendo a mesma coisa com palavras diferentes. Em 2002, essa coisa tinha nome, sobrenome e uma obsessão coletiva: Romário tinha que ir para a Copa. Felipão tinha que convocar.
Não era só o bar. Era o país. Pesquisa (69% eram a favor, dizia o Datafolha), manchete, conversa de elevador. Era o Presidente da República dizendo em voz alta (sim, o Fernando Henrique entrou na onda) o que já ecoava na rua. Não havia exatamente um debate, havia um coro. O Brasil não pedia Romário: o Brasil esperava Romário. Como se fosse um direito, não uma escolha.
Felipão decidiu o contrário e, por algumas semanas, pareceu um homem sozinho contra uma ideia nacional.
O Brasil volta a discutir um craque às vésperas da Copa. Mas agora a conversa soa diferente. No grupo de WhatsApp, alguém diz que Neymar tem que ir. Outro responde que não aguenta mais. Um terceiro manda vídeo, estatística, argumento. Um quarto muda de assunto. No X, o eterno Twitter, cada timeline conta uma história própria. No bar — ainda existe o bar — a discussão já não termina no mesmo lugar.
Pela primeira vez em muito tempo (ou seria algo inédito?), o Brasil não concorda sobre seu principal jogador às vésperas de um Mundial.
É claro que há diferenças óbvias entre os casos. Romário, em 2002, era um problema de convivência, de confiança, talvez de hierarquia, segundo Scolari até de tática. Neymar, em 2026, virou uma questão de corpo, de tempo, de ritmo. Um era um gênio em atividade pedindo passagem; o outro é um gênio em dúvida tentando se provar de novo. Mas isso explica só uma parte.
A outra parte, talvez mais interessante, é observar que o país mudou junto com o jejum de Mundiais, que vem desde aquela Copa.
Em 2002, a opinião pública ainda passava por poucos filtros. Jornal, televisão, rádio. A discussão se organizava, ganhava forma, criava um centro. Era possível discordar, mas havia um campo comum onde a discordância acontecia. Hoje, a conversa se espalha antes de se encontrar. Cada um constrói sua versão, consome seus argumentos, reforça suas certezas. Antes, o Brasil discutia junto. Hoje, discute ao mesmo tempo. E isso, claro, muda tudo.
Felipão comprou uma briga com o país inteiro. Ancelotti, agora, administra um país que já está brigando consigo mesmo. Não parece acaso que ano de Copa é também ano de eleição. Em 2002, deixar Romário fora era enfrentar uma unanimidade. Em 2026, deixar Neymar fora é escolher um lado, e saber que o outro já existe, organizado, barulhento e igualmente convencido.
Talvez por isso a decisão pese diferente. Não necessariamente mais leve, mas menos absoluta. Não há mais o risco de errar contra todos, porque já não existe mais esse “todos”.
Romário, pelo que me lembro, parecia mais uma discussão sobre futebol. Neymar virou uma discussão sobre o tempo: o tempo do corpo, o tempo da carreira, o tempo de um país que já não se move em bloco. Em 2002, a ausência do craque parecia um desvio da lógica. Em 2026, a dúvida sobre Neymar parece parte dela.
No fim, as duas histórias se encontram menos na decisão e mais no entorno. No que acontece antes da lista. No que se fala, em como se fala, em quem fala. Em 2002, o Brasil queria Romário.
Em 2026, o Brasil não sabe bem o que quer de Neymar.
Minha opinião? Radical, como pedem os tempos. A discussão, no fundo, é sobre um Neymar simbólico. Porque o jogador, no campo, não mostrou nada recentemente que sustente a convocação por mérito. Está há mais de um ano no Brasil e não conseguiu produzir impacto global nem em um time razoável como o Santos. E, convenhamos, não falta material humano: a semana de Champions está aí para lembrar que o debate deveria estar mais ocupado discutindo quem vai estar, e não quem pode não ir. Some-se a isso a reação de Neymar e de seus parças, que mais parece contaminar o ambiente da seleção mesmo sem ser chamado para um amistoso, e a dúvida começa a parecer menos técnica e mais preventiva. A figura forte da seleção em 2026 será, justamente, quem provavelmente deixará o “menino” de 34 anos de fora.
Discorda? Concorda? Cartas para a redação — se fosse 2002. Hoje pode ser por e-mail, zap, ou xingamentos no Twitter. A corneta é atemporal. A Copa do Mundo também.