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segunda-feira, abril 6, 2026

Recomendações da CSW70 mostram o quanto o Brasil ainda precisa enfrentar seu legado colonial – Revista Cult

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Em 2025, 2.772 pessoas foram resgatadas de condições análogas à escravidão no Brasil. O número representa um aumento de 26,8% em relação ao ano anterior, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. Embora a maioria das vítimas seja composta por homens, as mulheres representam cerca de 14% das pessoas resgatadas. O recorte racial evidencia a desigualdade, já que cerca de 83% das vítimas se autodeclaram negras.

Entre 2003 e 2023, estimativas indicam que entre 2,7 mil e 3,4 mil mulheres foram resgatadas de condições análogas à escravidão no país. A maior parte dessas ocorrências foi registrada no meio rural, onde cerca de 83% das mulheres estavam submetidas a condições de exploração. Pecuária, produção de café, carvão vegetal e cana-de-açúcar aparecem entre os setores com maior número de resgates.

A escravidão organizou relações de trabalho e hierarquias raciais que ainda estruturam desigualdades no Brasil. Essa herança ajuda a explicar por que a exploração do trabalho negro permanece presente em diferentes setores da economia. Esse processo moldou a forma como o trabalho foi distribuído socialmente, definindo quem teria acesso a direitos, proteção e mobilidade e quem permaneceria nas posições mais precárias.

O colonialismo foi parte central desse processo pois instituiu uma forma de produzir hierarquias raciais, culturais e de gênero que atravessaram séculos. Ao definir determinados grupos como inferiores, criou as bases para uma divisão do trabalho que destinou à população negra as posições mais precarizadas da economia.

Nos últimos anos, parte desse debate tem reaparecido em espaços internacionais. Em outubro de 2025, o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, chamou atenção para a necessidade de uma agenda de justiça reparatória capaz de enfrentar os danos históricos e contínuos produzidos pelo colonialismo e pela escravidão.

Esse reconhecimento tem aparecido também em discussões multilaterais. A 70ª sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher da ONU (CSW), que acontece neste momento em Nova York, menciona em seu documento a necessidade de enfrentar discriminação, racismo e outras barreiras estruturais associadas a legados coloniais e a normas patriarcais.

O tema central do encontro é o acesso à justiça para mulheres e meninas. Entre as recomendações apresentadas estão o fortalecimento de marcos regulatórios que garantam o direito das mulheres ao trabalho, a promoção da igualdade salarial e o combate à violência e ao assédio no mundo laboral. O texto também destaca a importância de investir na economia do cuidado e de reduzir a carga desproporcional de trabalho doméstico e de cuidado não remunerado assumida pelas mulheres.

Quando observamos essas recomendações a partir da realidade brasileira, a dimensão racial dessas desigualdades mostra que mulheres negras seguem concentradas nas ocupações mais precarizadas do mercado de trabalho, com menor proteção social e menores rendimentos.

Essa posição não pode ser explicada apenas por fatores econômicos recentes. Ela está relacionada a uma divisão racial do trabalho que atravessa a história brasileira e que é fruto de uma herança colonial.

Por isso, discutir emancipação  se torna importante para  criação de políticas públicas direcionadas à inclusão econômica dessas mulheres, reconhecendo as barreiras históricas que limitam o acesso a crédito, financiamento e oportunidades múltiplas de autonomia financeira.

O debate que acontece agora em Nova York recoloca essas questões na agenda internacional. Mas o alcance real dessas discussões dependerá da forma como países como o Brasil traduzirão essas diretrizes em políticas concretas.

Natália Carneiro é jornalista, mestranda em Comunicação pela USP, diretora executiva na Casa Sueli Carneiro.



[Fonte Original]

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