Em Idioma materno, recém-lançado no Brasil pela Relicário, com tradução de Mariana Sanchez, o poeta e prosador mexicano Fabio Morábito reúne 84 breves ensaios que transformam episódios cotidianos – lembranças de infância, cenas familiares, descobertas de leitor – em reflexões sobre criação literária, a experiência da leitura e o papel da linguagem.
Filho de italianos, Morábito nasceu em Alexandria, no Egito – e reside no México desde os 15 anos. O autor escreve em espanhol a partir de uma condição que define como constitutiva: a do estrangeiro. “Sinto que pertenço a uma língua porque sou capaz de tensioná-la, de buscar seus limites”, afirma à Cult, em entrevista por e-mail.
Em Também Berlim se olvida (2004, inédito no Brasil) e em outros textos seus, a experiência pessoal já aparece como ponto de partida para reflexões literárias. O que há de novo em O idioma materno? Em que medida o livro aprofunda ou desloca sua reflexão sobre a linguagem?
Creio que a novidade está na brevidade e na insistência. São 84 textos curtos que giram em torno de um único tema: a linguagem. Em Também Berlim se olvida, havia uma narrativa de viagem que servia de suporte. Aqui, a reflexão é mais fragmentada e, ao mesmo tempo, mais obsessiva. O livro aprofunda a ideia de que a linguagem não é apenas um instrumento, mas o lugar onde a nossa identidade é constantemente negociada. Ele desloca a reflexão para o cotidiano: como um sotaque, uma hesitação ou uma palavra mal dita podem revelar toda uma estrutura de mundo.
Em alguns momentos da obra, você aproxima o ato de escrever da ideia de “roubo”, como se o escritor se apropriasse de palavras, experiências e gestos alheios. Como essa imagem ajuda a pensar o processo de escrita?
A ideia do “roubo” é uma forma de desmitificar a originalidade. Escrevemos com palavras que não são nossas, que pertenciam a outros antes de nós. O escritor é um saqueador que reorganiza o que já existe. Esse “roubo” é, na verdade, um ato de escuta profunda: você toma algo do mundo (um gesto, uma frase escutada no ônibus), e o retira do seu contexto original para lhe dar uma nova vida na página. Escrever é sempre uma forma de apropriação indébita que, se bem-sucedida, acaba devolvendo ao leitor algo que ele já conhecia, mas não sabia como nomear.
Sua trajetória atravessa várias línguas e países (Egito, Itália e México) – e o espanhol acabou se tornando sua língua literária. Como convivem, em sua obra, o sentimento do estrangeiro e a construção de pertencimento por meio da língua?
Eu habito o espanhol como um estrangeiro que decidiu ficar. Essa condição de “estrangeirismo” dentro da própria língua é fundamental para mim. Ela me impede de dar as palavras como garantidas. No Egito e na Itália, vivi o deslocamento; no México, encontrei a língua onde esse deslocamento pôde ser escrito. O pertencimento, para mim, não é geográfico, mas sintático. Sinto que pertenço a uma língua porque sou capaz de tensioná-la, de buscar seus limites. O estrangeiro tem a vantagem de não se acomodar no idioma – ele precisa conquistá-lo todos os dias.
Em O idioma materno, você sugere que a escolha de palavras, sotaques e hábitos de leitura pode moldar nossa percepção do mundo. De que maneira a linguagem participa da construção da identidade, tanto do escritor quanto do leitor?
A linguagem não apenas descreve a nossa identidade, ela a inventa. Quando escolhemos uma palavra em vez de outra, estamos escolhendo um modo de estar no mundo. Para o escritor, a identidade é um estilo – uma forma de respirar no texto. Para o leitor, o encontro com a linguagem do outro é uma oportunidade de se expandir, de adotar por um instante uma percepção que não era sua. Somos feitos de frases, de sotaques e de silêncios. O livro tenta mostrar que essa construção é frágil e que a nossa identidade é, no fundo, uma obra de tradução constante.