Plataformas tornaram-se uma alternativa consolidada de trabalho no Brasil. Cerca de 1,7 milhão de entregadores e motoristas obtêm via aplicativos a maior parte da sua renda mensal, segundo levantamento da consultoria 4intelligence baseado em dados do IBGE – um contingente correspondente a aproximadamente 2% de toda a força de trabalho nacional.
Parte considerável desses trabalhadores vê na flexibilidade dos apps uma vantagem em relação a outras formas de atividade profissional. Tanto é assim que um pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) aponta que quase metade deles diz que não trocaria as plataformas por um emprego assalariado, mesmo que a renda fosse equivalente.
Isso não significa, porém, que esses trabalhadores estejam plenamente satisfeitos. Após uma década de massificação dos apps, há motoristas e entregadores preocupados com a estagnação da carreira e pesquisadores atentos aos efeitos que esse fenômeno pode causar à economia. “É exatamente essa palavra: estagnação”, diz Carlos Alberto Vieira, 47 anos, motorista no Rio de Janeiro há mais de dez anos. “Realmente tenho autonomia, flexibilidade de horário, o que é muito bom. Mas simplesmente não vejo alternativa alguma para aumentar minha renda.”
Segundo a 4intelligence, de 2016 a 2025 o rendimento de motoristas e entregadores de aplicativo cresceu 7,9%. Nesse período, a inflação acumulou alta de 64,7%.
Vieira é formado em contabilidade e trabalhou por cerca de 15 anos em uma empresa de cursos profissionalizantes, onde seguiu uma trajetória típica de ascensão: ingressou num cargo de menor responsabilidade e chegou a gerente. Foi demitido em um corte de custos e recorreu ao app enquanto buscava uma recolocação no mercado. Por um ano e meio, nenhuma oportunidade pagou mais do que a plataforma. Hoje, nem considera mais ter um emprego formal.
Pesquisa do IBGE sobre trabalho por aplicativos aponta que motorista ou entregador plataformizado ganhava, em média, 4,2% mais do que os não-plataformados em 2024: R$ 2.996, contra R$ 2.875. A diferença, porém, é relativa, já que o rendimento por hora do plataformizado era 8,3% menor do que o da média dos trabalhadores do país: R$ 15,40, contra R$ 16,80. É o caso de Vieira: “Ganho bem, mas trabalho 12 ou 13 horas por dia”.
Toda essa dedicação – e seus efeitos para o trabalhador e para a economia nacional – suscita críticas entre estudiosos. “E se o motorista sofre um acidente? E se fica doente depois de tantas horas de trabalho? Até que idade ele vai conseguir trabalhar tantas horas assim?”, questiona a socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). “Hoje, esse tipo de trabalhador não tem proteção.”
Carina Trindade, presidente do Sindicato dos Motoristas Particulares por Aplicativos do Rio Grande do Sul (Simtrapli-RS), diz que a falta de proteção está ligada à relação desses trabalhadores com a Previdência Social, à qual a maioria, afirma, não contribui. Para ela, isso evidencia que o app serve como fonte imediata de renda, mas que pode gerar um problema social no futuro. “Serão muitas pessoas sem aposentadoria”, alerta.
Tenho autonomia (…), mas não vejo alternativa alguma para aumentar minha renda”
— Carlos A. Vieira
Paula Montagner, subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego, lembra que o governo elaborou um projeto para que as empresas contribuíssem com a Previdência de motoristas parceiros, mas a proposta não avançou, apesar do apoio das empresas.
Marcolino destaca que o trabalho por app, ao contrário do na indústria, por exemplo, gera pouco encadeamento sobre o restante da economia, com efeitos limitados para o desenvolvimento do país.
“A elaboração do algoritmo, da tecnologia do aplicativo, é, sim, algo que poderia fazer diferença. Mas não é nisso que a massa de trabalhadores está envolvida”, complementa Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas (Cesit-Unicamp).
Montagner admite que a chegada dos apps trouxe benefícios. A taxa de desemprego caiu a nível recorde no final de 2025 também em razão da oferta de trabalho criada pelas plataformas. Ainda assim, ela pondera que os maiores beneficiários são “uma dúzia de empresas que lucram alto com o trabalho de milhões”. A subsecretária defende que o Estado crie apps próprios, oferecendo melhores condições de trabalho e seguridade.
A Prefeitura de São Paulo lançou um app de transporte de passageiros, o MobizapSP, mas teve baixa aceitação dos usuários. “O mercado está aberto a novos concorrentes, mas é preciso entender que colocar um aplicativo para funcionar não é tão simples assim”, diz André Porto, diretor-executivo da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec).
O executivo ressalta que, mesmo sem regulamentação, os apps conseguem ser uma fonte de renda mais estável do que a de boa parte dos demais trabalhadores, segundo pesquisa do economista Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), além de prestar serviços relevantes a mais de 100 milhões de clientes. “Não beneficiamos só os motoristas”, defende. “O pequeno confeiteiro entrega seu bolo pelo aplicativo. A economia circula e o benefício acontece localmente”, afirma.
Sobre o sentimento de estagnação dos plataformizados, Porto lembra que aplicativos oferecem a possibilidade de o motorista aumentar seus ganhos ao elevar a categoria do veículo, por exemplo, o que é de interesse direto das próprias plataformas. “Quanto mais dinheiro o motorista ganha, a plataforma também ganha”, afirma.
Procurada sobre a aceitação e a avaliação do MobizapSP, a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte de São Paulo informou que o app é gerenciado por um consórcio. “A gestão municipal atua apenas no âmbito regulatório da atividade de transporte remunerado privado individual”, informou.