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quarta-feira, março 25, 2026

Pobres pagam a conta em guerras, afirmam vencedores do Nobel

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Os mais pobres são os que pagam a conta das guerras, como a que ocorre no momento no Irã, afirmam Esther Duflo e Abhijit Banerjee, vencedores do Nobel de Economia em 2019. O impacto vem principalmente pelo custo da energia e dos alimentos, gastos com maior peso no orçamento das famílias de menor renda, destacam os economistas em entrevista ao Valor.

O casal está no Brasil para celebrar a criação do Lemann Collaborative, iniciativa financiada pela Fundação Lemann em parceria com a Universidade de Zurique e que vai começar a operar em setembro deste ano. Antes de assumirem o comando do projeto, os dois economistas atuavam há mais de duas décadas no Massachusetts Institute of Technology (MIT).

“Os pobres vão pagar a conta. O efeito imediato vai ser negativo”, afirma Duflo, ao lembrar de debate recente sobre o tema no grupo de conselheiros econômicos da presidência da África do Sul, do qual faz parte.

“São sempre os pobres que pagam. A guerra da Ucrânia é um resumo disso: levou a um grande aumento dos preços de alimentos, o que foi ruim para todos e um desastre para o custo de vida das pessoas pobres da África”, reforça.

Cuidadosos ao falar sobre a realidade brasileira, por dizerem que não são especialistas, Duflo e Banerjee destacam a liderança do Brasil no debate das mudanças climáticas e defendem a importância da taxação dos mais ricos para avançar no combate à pobreza no país.

“Há uma coisa que acho todos concordam: a situação fiscal do Brasil é complexa. E é complexa porque historicamente é difícil para o Brasil taxar os muito ricos”, diz a franco-americana, que foi a mulher mais jovem a ganhar o Nobel de Economia, quando tinha 46 anos, e apenas segunda mulher até 2019. “Na verdade, o Bolsa Família foi financiado por aumento nos impostos para a classe média, e isso é uma das razões para não ser particularmente popular nesse grupo”, continua Duflo.

Embora a questão fiscal no Brasil seja complexa, como diz Duflo, o problema nos últimos anos tem sido principalmente a dificuldade de o governo controlar as despesas e o fato de abrir espaço para muitas exceções, tirando da conta gastos referendados pelo Congresso. Em 2025, o déficit nas contas públicas foi de R$ 13 bilhões e ficou dentro da margem de tolerância do arcabouço fiscal graças a essas exceções. Sem essa influência, o rombo teria sido maior. A preocupação de muitos economistas é que os déficits cada vez maiores aumentem a dívida pública, o que eleva percepção de risco, inibe investimentos e afeta a capacidade de crescimento da economia.

Para Duflo, há um esforço do Brasil em direção ao que chama de uma “infraestrutura fiscal mais inclusiva”, que permita lidar com os problemas trazidos pelas mudanças climáticas, pelo envelhecimento da população e pelas transformações com a inteligência artificial. Ela elogia a atuação do país no cenário mundial nesta área, quando liderou o G20, em 2024.

“O problema no mundo hoje é que os mais ricos não pagam a parcela que seria justa dos impostos. Eles pagam menos [proporcionalmente] sobre a renda que a maioria das pessoas. E, se isso é permitido, não é fácil ver como resolver qualquer outro problema”, diz o indiano-americano Banerjee.

O diferencial do Brasil, segundo ele, é o protagonismo na questão climática, que afeta o mundo todo: “Não vou dizer o que o Brasil tem que fazer [para reduzir a pobreza], mas o país é o principal ator nos temas ligados a mudanças climáticas e conservação de carbono”. Por isso, diz, inspira muitas pesquisas na conexão dos temas de preservação de florestas e agricultura sustentável e pobreza, por exemplo. Tem ainda uma população indígena grande e tem sido atento para criar mecanismos para permitir que comunidades sobrevivam.

Este é um dos temas prioritários na agenda do novo Lemann Collaborative, projeto com três pilares principais: pesquisas e identificação de programas para redução de pobreza fundamentados em investigações científicas para implementação em escala no Brasil, treinamento de servidores públicos e formação de estudantes e pesquisadores nesse campo de estudos.

Os investimentos da Fundação Lemann somam US$ 33 milhões e incluem recursos para instalação do centro, permanência dos diretores, custos operacionais, bolsas de mestrado para estudantes brasileiros e fundos para projetos-pilotos de políticas e inovações.

Nesse trabalho, haverá parceria próxima com o J-PAL (Abdul Latif Jameel Poverty Action Lab), rede mundial de pesquisadores fundada por Duflo e Banerjee, especialmente com o escritório para a América Latina (J-PAL LAC). Além disso, foi oficializada na semana passada parceria com o governo brasileiro para formação e qualificação de servidores públicos.

Uma proposta que está em estudo é replicar no Brasil programa de ensino de matemática para crianças de pré-escola baseado em jogos. A ação foi testada na Índia, com resultados positivos confirmados por evidências científicas, e levada para vários Estados do país asiático. “Um exemplo do que estamos fazendo é esse currículo para o ensino de matemática. Estamos trabalhando com o objetivo de escalar isso no Brasil”, diz Duflo.

Educação, desemprego entre jovens, conservação climática e economia do cuidado são questões que permeiam os trabalhos do J-PAL na América Latina, e farão parte do Lemann Collaborative. A terceira frente da Lemann Collaborative – de formação de estudantes e pesquisadores – contempla bolsas para mestrado na sede, em Zurique, e programas em instituições parceiras na rede ADEPT de entidades de ensino superior, da qual o Insper faz parte.

A seleção final do mestrado em Zurique é feita a partir dos resultados de um curso on-line. Duflo diz que a ideia é “trazer a expertise brasileira para apoiar na resolução de questões [de pobreza] do mundo”. “Queremos unir jovens economistas brasileiros para pesquisa de alta qualidade em desenvolvimento econômico. Alguns temas, como a questão climática, são mais fortes no Brasil, mas são relevantes em todo o mundo”, diz Banerjee.

O Bolsa Família foi financiado pelo aumento nos impostos para a classe média”

— Esther Duflo

Esther Duflo é autora da proposta apelidada de “Pix do clima”, que relaciona clima e pobreza. A ideia prevê o repasse de recursos dos países que mais emitem gases-estufa para os que mais sofrem com os impactos climáticos e onde vivem as populações mais pobres. Os recursos seriam públicos ou por mais taxação de super-ricos.

Ela admite que os tempos são difíceis “para esforços multilaterais de qualquer tipo”, mas que é possível avançar mesmo sem unanimidade e que o mundo precisa “aprender a progredir” sem a participação dos Estados Unidos no debate: “O que vi na COP30, em que os Estados Unidos não estavam, é que eles são um ator grande, mas o resto do mundo é grande também. Precisamos aprender a progredir sem ter os Estados Unidos na mesa de negociações. De alguma forma pode até ajudar porque nem sempre foram os parceiros mais fáceis de se negociar.”

Entre as alternativas mencionadas por Esther Duflo, está a criação de um modelo entre Estados de um mesmo país, como no caso do Brasil, ou entre grupo de países.

Mesmo com os desafios na negociação de políticas na esfera internacional afirma que é otimista quanto à possibilidade de isso ocorrer. “Não é uma corrida de curta distância, é uma maratona. Um líder indígena no Brasil me falou outra boa expressão. É preciso entrar no barco e torcer para que a corrente te leve na direção correta. Mas é preciso entrar no barco”, diz.

A iniciativa financiada pela Fundação Lemann em parceria com a Universidade de Zurique vai ao encontro do prêmio Nobel de Economia de 2019, que escolheu Duflo, Banerjee e Michael Kremer pela “abordagem experimental para aliviar a pobreza mundial”. Eles foram pioneiros em estudos científicos de políticas para melhorar resultados educacionais e de saúde na população muito pobre.

A Real Academia Sueca de Ciências disse que essa nova abordagem baseada em evidências trazida pelo trio transformou o estudo do desenvolvimento econômico e hoje domina totalmente as pesquisas na área.

Para combater a pobreza global, os economistas investem numa estratégia mais localizada, de programas e políticas públicas, para lidar com questões específicas. Na época, os membros da Real Academia Sueca de Ciências descreveram a abordagem como uma espécie de divisão do problema da pobreza em “em pequenas questões, mais gerenciáveis”. “Eles mostraram que essas questões menores e mais precisas frequentemente são melhores respondidas por experimentos cuidadosamente planejados entre as pessoas que são mais afetadas.”

Diretor do FGV Social na Fundação Getulio Vargas, Marcelo Neri afirma que Esther Duflo e Abhijit Banerjee estão no topo da economia tanto em termos de metodologia científica como de implicações práticas em termos de lições de políticas públicas. “São contribuições particularmente relevantes para o caso brasileiro”, diz.

Para Marcos Hecksher, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Duflo e Banerjee têm mostrado ao mundo que “experimentos sociais bem feitos, sorteando os beneficiários, são viáveis e defensáveis em muitas situações, além de oferecerem muita segurança sobre as consequências de uma intervenção no contexto analisado”.

Hecksher aponta que nem tudo pode ser feito por experimentos e há vantagens e desvantagens em outros métodos que também permitem inferir relações de causa e efeito com segurança: “Entender isso não tira o mérito da enorme contribuição do casal. Eles ajudaram a desenvolver e popularizar uma ferramenta de estudo poderosíssima para entender os efeitos de ações sociais específicas”.

Uma das publicações de referência desse trabalho é o livro “A economia dos pobres” [Poor Economics: A Radical Rethinking of the Way to Fight Global Poverty, na versão em inglês], da dupla Duflo e Banerjee.

Neste ano foi lançada nova edição, com o subtítulo “The Surprising Truth about Life on Less Than $1 a Day” (editora Penguin). O trabalho foi atualizado e foram incluídos dois novos capítulos com os estudos da última década. No Brasil, o livro é editado pela Zahar, mas não há previsão de lançamento da nova edição, segundo a editora. A edição mais recente é a de 2021, com o nome “A economia dos pobres: Uma nova visão sobre a desigualdade”.

[Fonte Original]

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