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quarta-feira, março 25, 2026

Pistache, o Novo Ouro Verde Argentino Que Cresce a 500% e Atrai Grandes Investidores

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O que começou como uma tendência gourmet impulsionada pela viralização do “chocolate Dubai” e o aumento da alimentação saudável se transformou em uma das teses de investimento mais sólidas do setor agroindustrial argentino.

O pistache, apelidado de “ouro verde”, não apenas atravessa um salto de consumo local, mas posiciona a Argentina como um participante fundamental para resolver um déficit estrutural global que se acentuará nas próximas décadas.

A arquitetura do negócio é definida por uma equação onde a demanda global cresce 6,5% ao ano, enquanto a oferta mundial permanece estagnada, visto que seu crescimento permanece abaixo de 5%.

Atualmente, 90% da produção mundial está concentrada em apenas três países: Estados Unidos (com a Califórnia como região principal, que contribui com 40% do volume global), Irã (30%) e Turquia. Esses gigantes enfrentam hoje limites produtivos por causa da escassez hídrica e da saturação de solos.

Segundo projeções do USDA e do International Nut Council, para o ano de 2040 estima-se uma lacuna de 250 mil toneladas entre a oferta e a demanda, um déficit estrutural que garante a firmeza dos preços e converte o fruto em um ativo de baixa volatilidade.

“O pistache não é uma moda nem uma aposta passageira. É um cultivo com fundamentos muito sólidos: a demanda cresce de maneira sustentada há mais de duas décadas e a oferta avança mais lentamente em razão das barreiras técnicas, climáticas e de investimento exigidas”, explica Juan Ignacio Ponelli, fundador e CEO da AgroFides.

Olga Yastremska/Getty ImagesPara o ano de 2040 estima-se um déficit de 250 mil toneladas de pistache

Para o empresário, o sucesso do chocolate Dubai deu “outra visibilidade ao setor”, não apenas no consumo, mas nas projeções de negócio. “Para 2040, estima-se que haverá um déficit estrutural entre oferta e demanda de 250 mil toneladas ao ano. É um volume expressivo que assegura a estabilidade dos preços”, acrescenta.

Neste cenário, a Argentina emerge com a vantagem competitiva da entressafra. O crescimento local foi exponencial: a superfície cultivada aumentou 500% nos últimos anos, conforme dados do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA), atingindo hoje entre 7.000 e 9.000 hectares implantados.

A província de San Juan lidera com 6.500 hectares, representando 90% da produção nacional graças ao clima semiárido e alta radiação solar, seguida por Mendoza e La Rioja.

O mercado interno também mostra sinais de agitação. As importações de pistache sem casca cresceram 17.000% no último ano, impulsionadas por uma indústria de consumo de massa que integrou o fruto em sorvetes, alfajores e doces de alto padrão.

No entanto, o potencial exportador é o verdadeiro motor do setor. Com rendimentos médios de 3.500 quilos por hectare, a Argentina se prepara para deixar de ser um ator marginal e se transformar na referência produtiva do hemisfério sul, integrando tecnologia de irrigação e rastreabilidade sustentável para satisfazer um consumidor global cada vez mais exigente.

Os participantes do setor

Detalhe de frutos de pistache no pé
f.ield_of_vision/Getty ImagesDetalhe de frutos de pistache no pé

A consolidação da Argentina como um polo estratégico para o pistache não é fruto do acaso, mas de uma transição liderada por um grupo selecionado de empresas que transformam um experimento dos anos 1980 em uma indústria exportadora de vanguarda.

Em um mercado global dominado por poucos países, a Argentina se soma hoje a um grupo exclusivo integrado por Grécia, Itália, Espanha e Austrália, desafiando a hegemonia tradicional de Irã e Estados Unidos.

A história desta indústria no país tem um nome próprio: Marcelo Ighani. O empresário de origem iraniana foi o pioneiro que, em 1980, introduziu as primeiras sementes com um espírito experimental.

Quatro décadas depois, sua firma Pisté S.R.L. é um pilar técnico do setor. Com um viveiro de alta tecnologia, a companhia processa anualmente 80 mil sementes importadas da Califórnia e do Arizona, fornecendo plantas jovens da variedade híbrida UCB1.

Este porta-enxerto é a base sobre a qual se assentam as variedades produtivas Kerman e Peters, garantindo a sanidade e produtividade das novas plantações nacionais.

No escalão de volume, a Frutos del Sol se posiciona como a líder. Dirigida por Juan Domingo Bravo e Laura Pedrosa, esta empresa familiar administra 1.100 hectares e exporta 1,6 milhão de quilos de pistache por ano para destinos internacionais.

A estratégia de integração vertical é total: desde a produção de plantas e sementes até o processamento de derivados de alto valor agregado, como óleo e farinha de pistache. A firma inclusive desembarcou na Europa com um depósito em Florença, na Itália, e o laboratório PURA, especializado em cremes e pastas premium para o exigente mercado continental.

O aporte de capital e tecnologia também é observado em participantes como Pistachos de los Andes, que desde 1998 escalou de 75 para 300 hectares em San Juan, controlando todo o ciclo produtivo até o envasamento final para mercados como Espanha e Brasil.

Por sua vez, a SolFrut, do Grupo Phrónesis, representa a entrada dos grandes grupos agroindustriais no setor. Com a liderança prévia na olivicultura por meio da marca Oliovita, a empresa iniciou em 2019 uma aposta agressiva baseada no modelo californiano.

“Tínhamos uma fazenda em 25 de Mayo, onde há uma amplitude térmica durante o ano que se ajusta muito bem ao pistache, e decidimos fazer uma aposta grande”, destaca José Chediack, presidente do grupo.

A SolFrut já conta com 1.100 hectares plantados de pistache, que entrarão em produção em 2027 e de maneira escalonada crescerão ano a ano. “Com isso já temos escala para processar nossa plantação e a de vizinhos, porém aspiramos chegar aos 2.000 hectares nos próximos anos”.

Paolla Saraiva/Getty ImagesSorvete à base de pistache

Além disso, desde 2018, a Prodeman, empresa por trás da marca Maní King, começou a trabalhar com pistache em cerca de 500 hectares em 9 de Julio, San Juan, epicentro do polo produtivo de pistache. A operação conta com infraestrutura moderna, sistemas de irrigação adaptados ao clima seco do oeste argentino e assessoria técnica especializada.

A esta tendência se soma a AgroFides, liderada pelo CEO Juan Ignacio Ponelli. A firma combina a gestão de capitais de terceiros com um forte compromisso próprio: possuem 110 hectares próprios já plantados em San Juan.

Ponelli destaca que o pistache é um ativo de baixo risco relativo: “É uma planta rústica e resistente; uma vez que entra em regime, os projetos podem produzir durante 50 ou até 100 anos com um manejo adequado”, explica.

Em razão da barreira de entrada pelo capital intensivo e a espera de seis a sete anos para a primeira colheita, a AgroFides “tokenizou” a produção por meio de fundos como “La Memita”. Este modelo permite a investidores participar com aportes a partir de US$ 30 mil (R$ 150,3 mil, segundo a cotação atual) por hectare, mais US$ 6 mil (R$ 30,1 mil) anuais de manutenção, projetando retornos entre 14% e 20% ao ano em dólares.

O objetivo é produzir um rendimento médio de 3.500 kg por hectare, embora em anos de alta produtividade possam ser alcançados picos de até 6.000 kg.

Com um preço sustentado próximo a US$ 6 (R$ 30,06) por quilo para o produtor, o pistache se consolida como “um seguro de aposentadoria tangível”. O mercado interno já mostra o impacto: as importações de pistache descascado cresceram 17.000% nos últimos cinco anos, tracionadas por empresas de diversos ramos (alimentício, cosmético e outros), que incorporaram o pistache entre suas matérias-primas.

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

[Fonte Original]

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