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segunda-feira, abril 6, 2026

Emanoel Araújo, o artista como farol – Revista Cult

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No coração de São Paulo, o Farol Santander abriga uma exposição que ilumina uma das figuras mais decisivas da cultura brasileira: Emanoel Araújo – Embates Construtivos. São esculturas, gravuras, pinturas e documentos que percorrem seis décadas de criação e revelam o vigor intelectual de um artista que foi também um arquiteto da memória nacional. Coincidentemente, ou simbolicamente, Emanoel nasceu em 15 de novembro, data da Proclamação da República. Era, ele mesmo, um grande farol.

Poucos artistas brasileiros souberam articular com tanta nitidez a dimensão estética e a dimensão pública da arte. Emanoel Araújo construiu uma obra ancorada no rigor geométrico, nas cores densas e na ancestralidade africana, mas seu projeto ultrapassou o campo da forma: era uma visão de país. A exposição no Farol revela a força dessa linguagem; a geometria que dialoga com o construtivismo e o barroco, a cor que evoca a energia da África, o volume que fala do corpo e do trabalho. Sua arte é a síntese de um Brasil mestiço, racional e místico, formal e afetivo.

O título da mostra, Embates Construtivos, poderia definir toda a vida de Emanoel. Seu percurso foi o de um homem que transformou cada embate em construção. No ateliê, no museu, nas instituições que dirigiu, como o Museu de Arte da Bahia, a Pinacoteca de São Paulo e, sobretudo, o Museu Afro Brasil, ele operava com a mesma energia de escultor: moldava ideias, polia estruturas, erguia espaços de pertencimento. A forma geométrica, para ele, era mais que disciplina estética; era ética. Num país acostumado ao improviso, Emanoel acreditava na ordem como ato de fé no coletivo.

Mas a racionalidade nunca o afastou do simbólico. Em sua arte convivem o cálculo e o mito, a herança africana e a tradição moderna. Muitas de suas esculturas, totemicas, verticais e quase litúrgicas, parecem encarnar uma espiritualidade que não separa o humano do divino, o gesto do pensamento. São formas que contêm silêncio e ritmo, razão e encantamento. O próprio artista dizia que “a geometria é uma religião que se pratica com o corpo”.

Seus “embates construtivos” não se limitavam à arte. Foram também embates culturais e políticos. Ao criar o Museu Afro Brasil, em 2004, deu forma a uma visão que combinava memória, educação e cidadania. O museu nasceu de uma ideia de país que reconhece a herança africana não como ferida, mas como fundação. Ele não queria um espaço excludente, mas universalista, que mostrasse o negro como sujeito da história e como criador de beleza. “O Museu é Afro Brasil. Tem que ter de tudo”, respondeu, certa vez, a um interlocutor. Nessa frase, está condensada sua noção de mestiçagem como valor básico.

A exposição do Farol Santander devolve ao público um Emanoel mais amplo que o curador, mais íntimo que o símbolo: o artista em seu esplendor formal. Ali estão suas séries de relevos e esculturas em ferro, madeira e bronze; materiais que ele tratava como corpos dotados de memória. Cada peça é um diálogo entre o peso e a leveza, o corte e a harmonia, a ancestralidade e o futuro. Em tempos em que a arte é frequentemente reduzida a discurso, Emanoel nos lembra que a forma também pensa, e que a beleza é uma forma de resistência.

Três anos após sua morte, o legado de Emanoel Araújo continua a irradiar. Não apenas nas instituições que criou ou nas obras que deixou, mas no modo como concebeu o papel do artista na sociedade: o de quem ilumina, orienta e permanece. Como um farol, Emanoel não se moveu para guiar, permaneceu firme para que outros encontrassem o caminho.

Ao celebrar sua obra, compreendemos que ele não foi apenas um protagonista da arte afro-brasileira, mas um pensador do Brasil. Sua geometria é uma ética. Sua cor, um idioma de liberdade. E sua vida, uma lição de clareza e generosidade num país que tantas vezes se perde na escuridão.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação e vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro.

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Serviço

Emanoel Araújo – Embates Construtivos
Local: Farol Santander – Rua João Brícola, 24, Centro, São Paulo
Período: de 7 de novembro de 2025 a 29 de março de 2026
Curadoria: Fábio Magalhães
Visitação: terça a sábado, das 9h às 20h; domingos e feriados, das 9h às 19h
Ingressos: no site www.farolsantander.com.br



[Fonte Original]

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