O mercado de trabalho está aquecido, mas parte do desempenho positivo se dá por uma mudança no perfil da população, agora mais escolarizada e menos jovem. Além disso, a maior concentração dos trabalhadores brasileiros ainda é em vagas de baixa produtividade, com renda menor que a média nacional. Ao mesmo tempo, os preços dos alimentos aceleraram nos últimos anos em ritmo superior ao da inflação, o que elevou o nível e provocou um aumento do seu peso no orçamento das famílias, especialmente aquelas de renda mais baixa.
A combinação desses fatores ajuda a explicar um aparente descompasso entre a evolução dos indicadores do mercado de trabalho e a percepção de bem-estar, medida por indicadores de confiança. A avaliação é de pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), a partir dos resultados do estudo “Quão aquecido está o mercado de trabalho?”, que faz diferentes exercícios para descontar os efeitos desses aspectos na evolução do rendimento do trabalho no Brasil.
“O mercado de trabalho está aquecido, longe de estar ruim, mas é preciso qualificar esse nível de aquecimento. Quando se ajusta os indicadores pela questão da idade e da escolaridade, que é uma mudança estrutural, vemos que o rendimento está estagnado”, afirma Fernando de Holanda Barbosa Filho, autor do trabalho ao lado de Paulo Peruchetti, Janaína Feijó e Daniel Duque.
O rendimento médio do trabalho cresceu 1,4% ao ano entre o quarto trimestre de 2019 e o terceiro trimestre de 2025, pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo considera o período até setembro de 2025.
Se forem descontados os reflexos das alterações demográfica e no grau de instrução da população, a variação teria sido de -0,1% ao ano, ou praticamente estável. Se for somado o efeito da inflação de baixa renda, essa variação chegaria a -0,2% por ano, mostram os pesquisadores. Quando se leva em consideração de forma conjunta esse impacto da população mais menos jovem e mais escolarizada com a inflação de alimentos, o rendimento real cairia 3% ao ano desde 2019.
“Há uma diferença entre o rendimento do trabalho e o que as pessoas estão de fato comprando. Quando um trabalhador vai no mercado hoje, ou gasta muito mais para encher o carrinho ou com o mesmo dinheiro não enche o carrinho. O sentimento é como se tivesse tido uma perda de 3% ao ano”, diz Barbosa Filho.
Os números são resultado dos exercícios feitos para isolar a influência de diferentes variáveis na renda. Neste contexto, foram criados cenários contrafactuais, para estimar resultados caso a realidade tivesse sido distinta. Nos dados de rendimento do IBGE, o valor é deflacionado pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
O estudo simula, então, a evolução da renda se fossem incorporadas as consequências das alterações na demografia e no perfil de escolaridade da população e também se o deflator utilizado fosse a inflação de baixa renda e não o IPCA cheio.
Numa segunda etapa, os cálculos mostram como seria a variação da renda se o deflator usado fosse o da alimentação no domicílio, para dar uma dimensão do impacto do aumento dos preços dos alimentos no orçamento.
Entre dezembro de 2019 e setembro de 2025, o IPCA cheio subiu 38,3%, enquanto os preços da alimentação no domicílio pelo IPCA tiveram alta de 58,4%. Em igual período, o IPCA de baixa renda foi de 39,7%.
O ritmo diferente de expansão dos preços levou a uma ampliação do peso da alimentação no cálculo do índice de inflação, que se baseia no orçamento das famílias. Para as famílias com renda de 1 a 1,5 salário mínimo, essa parcela subiu de 18,9% em janeiro de 2019 para 22,2% em janeiro de 2026. No grupo das que têm rendimento entre 10 e 33 salários mínimos, o percentual avançou de 9,4% para 11,1%, em igual base de comparação.
Na avaliação do economista Paulo Peruchetti, esse “descolamento forte” entre a inflação de alimentos e a inflação agregada ajuda a explicar a percepção mais negativa observada em indicadores de confiança.
“Nesse exercício, em que se deflaciona a renda pelo IPCA da alimentação, a gente vê esse impacto do aumento de alimentos. O dado é uma proxy do que seria a renda destinada à compra de alimentos.”
O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) do FGV Ibre avançou 2 pontos em março, para 88,1 pontos, mas se mantém abaixo da marca de 100 pontos, o que sugere um consumidor cauteloso. Na faixa de baixa renda, de até R$ 2.100, o percentual é ainda menor, de 85,3 pontos. Na faixa mais alta, acima de R$ 9.600,01, o resultado é de 92,2 pontos.
“Apesar da melhora no nível, a confiança continua negativa. Os resultados foram impactados pela melhora nas expectativas futuras enquanto a situação atual permanece em nível baixo. E ainda são os trabalhadores com menor nível de renda os que têm nível de confiança mais baixo”, diz Barbosa Filho.
Diretor do FGV Ibre, Luiz Guilherme Schymura afirma que o preço mais alto dos alimentos ajuda a explicar a distância entre o sentimento das pessoas e a atual situação da economia brasileira, que avança “razoavelmente bem, com inflação sob controle, taxa de desemprego lá embaixo e renda do salário crescendo”.
“A economia está indo bem. Com tudo isso, como o governo pode estar tão mal avaliado? Do ponto de vista técnico, a renda melhorou. Agora, na percepção das pessoas, a sensação é de que a renda não está crescendo”, diz.