Premiado em 1995 pelo Pen Club como melhor ensaio e reeditado agora com dois novos ensaios pela editora Todavia, A Trinca do Curvelo: Os afetos de Manuel Bandeira, de Elvia Bezerra, foi um dos livros resenhados na Cult de abril. A equipe da Cult conversou com a autora sobre o livro.
A pequena rua do Curvelo, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, poderia passar despercebida na trajetória de Manuel Bandeira. Em A Trinca do Curvelo: Os afetos de Manuel Bandeira, no entanto, a senhora mostra como esse espaço se tornou central para a vida e a obra do poeta modernista. De que forma essa rua ajudou a moldar os afetos e a criação literária de Bandeira e por que a senhora decidiu desenvolver seu ensaio a partir desse lugar?
O leitor do Itinerário de Pasárgada, autobiografia literária de Manuel Bandeira, perceberá que ele afirma, logo no início: “A rua do Curvelo ensinou-me muitas coisas. [Ribeiro] Couto foi avisada testemunha disso e sabe que o elemento de humilde cotidiano que começou desde então a se fazer sentir em minha poesia não resultava de nenhuma intenção modernista. Resultou, muito simplesmente, do ambiente do morro do Curvelo”. Ora, se o próprio Manuel Bandeira reconheceu a importância que essa rua teve na sua vida, não só do ponto de vista pessoal como também do intelectual, não devemos ignorá-la. O que eu fiz foi, a partir de sua declaração, investigar como se deu sobre ele a influência dessa rua, que hoje se chama rua Dias de Barros. Bandeira chegou ali em 1920 para morar sozinho pela primeira vez – perdera mãe, irmã e pai – e ficou até 1933. Constatei que, nesse período, ele, que era um tuberculoso prudente, conviveu com boêmios como Jayme Ovalle, presente em sua obra em prosa e verso, e passou de homem triste e recluso a frequentador dos bares tradicionais do centro do Rio, ainda que sempre observando cuidados com a saúde. Ele se abriu para novas amizades que lhe foram trazidas pelo poeta santista Rui Ribeiro Couto, romancista de Cabocla, seu vizinho no Curvelo e amigo desde esse tempo. Foi ainda por sugestão de Couto que ele começou a dar aula de todas as matérias a uma menina de então onze anos de idade: Joanita Blank, filha de Frédy Blank, eleita a “grande querida” e companheira, a mulher que ele amaria por cerca de cinquenta anos. Do ponto de vista pessoal, forjava-se na ruazinha tranquila seu maior laço de afeto: Frédy Blank. No Curvelo, ele reencontrou a alegria de viver perdida desde 1904, quando a tuberculose lhe caíra “como uma machadada de brucutu” – dizia ele, que ainda declarou no Itinerário: “Não sei se exagero dizendo que foi na rua do Curvelo que reaprendi os amigos da minha infância”. A rua, portanto, lhe devolvia as possibilidades de alegria, ali ele vivia seu “humilde cotidiano” em “atitude de apaixonada escuta”, para usar expressões suas. Dessa atitude e da convivência alegre com os amigos resultou a mudança na sua poesia, que passou a se encher de expressões de um cotidiano simples, daqueles “pequeninos nadas” a que ele se referiu, bem ao gosto da estética modernista. Nesse clima, ele compôs os versos de O ritmo dissoluto, Libertinagem e boa parte de Estrela da manhã.
Trinta anos após a edição original, a nova versão incorpora fontes inéditas, como cartas de escritores modernistas e documentos pessoais. Esses materiais ajudaram a revelar aspectos até então desconhecidos de Manuel Bandeira, Ribeiro Couto e Nise da Silveira?
Sem dúvida. Nas três últimas décadas foram publicados vários livros de correspondência de modernistas, especialmente de Mário de Andrade. Foi possível, então, fazer o cruzamento de informações, o que enriqueceu a pesquisa. Pude também, com mais facilidade, ter acesso a jornais da época recorrendo à hemeroteca digital, a bndigital, onde a consulta é feita no conforto da nossa casa. Usando esse recurso, foi fácil checar dados mencionados na primeira edição e, dependendo do caso, ampliá-los. Ao longo dos anos, fiz pesquisas paralelas e incorporei algumas delas a essa edição, como, por exemplo, a que eu tinha preparado sobre a relação de Ribeiro Couto com o Penumbrismo, período que se interpôs entre o Simbolismo e o Modernismo, assim como com o Homem Cordial, expressão criada por ele e a que Sérgio Buarque de Holanda deu caráter sociológico. Couto era homem de temperamento fascinante, fiz questão de lembrar o que dele disse Gilberto Amado em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras: “Sua alma era uma manhã de Páscoa, todas as aleluias cantavam nela.” No ensaio sobre Nise da Silveira, decidi relatar algumas experiências pessoais que tive com ela, o que contribuiu – acho eu – para acentuar tons de sua personalidade. Tons que, a meu ver, revelam suas contradições e, ao mesmo tempo, a sua genialidade e grandeza humana. Tentei fazer justiça a essa mulher extraordinária que revolucionou a psiquiatria brasileira, transcrevendo as palavras de Manuel Bandeira na “Oração de Paraninfo”, incluída em Ensaios literários, a respeito de não valorizarmos os nossos: “Somos assim: conhecemos e celebramos autores europeus de terceira e quarta ordem; relegamos ao esquecimento os gênios do nosso continente”.
Para a nova edição, a senhora acrescentou dois ensaios sobre mulheres que tiveram papéis significativos na vida e na obra de Bandeira: além de Frédy Blank, “A Grande Querida”, Luci Soares, a “Flor de Belém”. Qual a importância delas para compreender a trajetória pessoal e literária do poeta?
Conheci Luci numa aula de hidroginástica no Hotel Glória, no Rio, no finalzinho da década de 1990, quando eu já tinha publicado A trinca do Curvelo, cuja primeira edição é de 1995. Só então fiquei sabendo que ali pela segunda metade da década de 1960, Luci de Lourdes Soares, paraense, estava com 27 anos e era aluna de Manuel Bandeira na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, onde ele, aos 76 anos, dava aulas de Literatura Hispano-Americana. Luci provocou nele um alumbramento, termo bandeiriano que o professor Davi Arrigucci Jr., em seu Humildade, paixão e morte: A poesia de Manuel Bandeira, definiu como “iluminação espiritual, mas iluminação profana, que vem de baixo, do corpo e da matéria, e se alça ao sublime”. Bandeira fez alguns poemas para Luci, entre os quais um intitulado “Lucilurdes”, em que se lê o seguinte: “Quando surdes, Lucilurdes,/ Quando surdes,/ Lucilante,/ No horizonte,/ Branca, insonte,/ Recatada […]”. Esse poema é uma versão modificada de um outro famoso, também de Bandeira, intitulado “O fauno”, com a mesma temática, daí ser possível comprovar a relação que teve Luci com a produção poética dele. Para ela o poeta fez ainda uma parodia do famosíssimo “Vou-me embora pra Pasárgada”, além de outros, pequenos, mas de algum modo sempre com eco em sua obra, como o poema intitulado “Tema e variações”, que tem, entre seus versos, os seguintes: […] Dez, vinte, cem/ vezes ao dia/ Bendigo-te/ E digo-te,/ Flor de Belém,/ Me queira bem,/ Porque eu te adoro. […]. Do ponto de vista pessoal, Luci veio trazer grande encantamento a Bandeira, que, naqueles últimos anos de vida – ele morreria aos 82 anos, em 13 de outubro de 1968 –, sofria a perda de Frédy Blank, com quem tinha convivido por 50 anos. Por que só agora escrevi o ensaio sobre essa que ele chamou “A grande querida”? Porque entrevistei Joanita, filha dela, em 1992, em Laren, no Norte da Holanda. Joanita era uma pessoa adorável, mas muito conservadora e não admitia com tranquilidade a ideia de sua mãe ter sido amante de Manuel Bandeira. Os dois tinham convivido por cinquenta anos, como eu já disse, mas não foram oficialmente casados nem viveram sob o mesmo teto. Frédy era uma mulher refinada, tocava violino e piano muito bem, falava holandês, francês e inglês. Além do amor que devotou ao poeta, de seu talento de musicista e de seu reconhecido bom gosto, ela muito contribuiu para o equilíbrio emocional do poeta. Mencionei o relacionamento na primeira edição, contando até mesmo da viagem que os dois fizeram juntos à Europa em 1957, mas, em respeito a Joanita, evitei me aprofundar no assunto. Joanita morreu em 17 de agosto de 1998 e, a partir daí, eu me senti mais à vontade para falar sobre a bela história de sua mãe. Estava convencida de não poder mais sonegar ao leitor esse capítulo fundamental da vida do Poeta de Pasárgada, capítulo que terminou com a volta de Frédy para a Holanda em maio de 1964, sofrendo de uma demência já avançada. “Tenho que viver – e que morrer – desta saudade”, escreveu o velho bardo a Alphonsus de Guimaraens Filho depois da morte de Frédy, em 2 de outubro daquele mesmo ano.
Outras mudanças foram feitas para a nova edição em relação à publicada em 1995?
Desde que decidi acrescentar os dois últimos ensaios, “A Flor de Belém” e “A grande querida”, que constituem a segunda parte da nova edição, tive que fazer profundas alterações na estrutura original. Retirei, por exemplo, informações sobre Frédy Blank que havia no início, e concentrei-as no ensaio a ela destinado, “A grande querida”. Outra medida foi também transferir do primeiro ensaio o que havia sobre a presença de Ribeiro Couto na poesia de Bandeira para desenvolvê-la no segundo, “Ribeiro Couto: o poeta-embaixador”, deixando no anterior apenas a indicação. Dou um exemplo: no ensaio sobre Bandeira, apenas informo que Couto, em alguns momentos, involuntariamente contribuiu para a poesia do amigo. Como aconteceu isso? perguntará o leitor, e eu respondo que um desses casos foi no poema “Andorinha”, escrito em Pouso Alto, cidade onde Ribeiro Couto trabalhava como promotor de Justiça e onde Bandeira passou mais de um verão, fugindo do calor do Rio. O poeta do Curvelo, vendo as andorinhas pousadas nos fios telegráficos em frente à casa do anfitrião, escreveu: “Andorinha lá fora está dizendo:/ – ‘Passei o dia à toa, à toa!’/ Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!/ Passei a vida à toa, à toa…” Assim como esse, há vários outros. Além dessas referências, uma outra mudança foi me colocar em primeira pessoa, em algumas situações. Discretamente, claro, pois não sou o foco do estudo, mas desse modo introduzi os bastidores de algumas das entrevistas que fiz e isso permitiu uma aproximação maior com o leitor – creio eu.
Manuel Bandeira aparece em seu livro como uma figura cheia de singularidades, como na cena em que limpa o telefone com álcool depois de emprestá-lo – ou quando afirma que seu Deus era o “Deus matemático” de Einstein. Após esse trabalho, a senhora sente-se mais próxima do poeta?
Manuel Bandeira, com sua proverbial retidão de caráter, sabendo-se tuberculoso, tinha o cuidado de higienizar o telefone com álcool antes de emprestá-lo aos vizinhos, temendo contaminá-los com os bacilos de Koch. Nascido em 1886, estava na casa dos trinta anos quando morou no Curvelo e – não esqueçamos – era um homem solteiro. Morava sozinho e tinha seus hábitos muito bem individualizados. Em carta a Ribeiro Couto, conta que se nomeou “um rei sem constituição”, senhor de todo o espaço da sua “casinha”, de cuja varanda gostava de contemplar a baía de Guanabara, que a ele se apresentava “como uma mesa posta”. Em um caderno de anotações que hoje se encontra no Arquivo-Museu de Literatura da Fundação Casa de Rui Barbosa, lê-se, na letra do próprio Bandeira, a sua ideia de Deus, que era a de Einstein, da qual se reproduz aqui um pequeno trecho: […] “Essa profunda convicção sentimental a respeito da presença de uma razão poderosa e superior no universo incompreensível – essa é a minha ideia de Deus.” Manuel Bandeira era um homem reto, “o ser mais vertical que conheci”, declarou-me seu amigo e testamenteiro Homero Icaza Sánchez. Todo ele, Bandeira, está no perfil intitulado “Manuel”, de Rachel de Queiroz, que escreveu: “Na palavra enxuta, na carne enxuta, na vida limpa, na aparência frágil ele era, na sua arte e na sua pessoa, como feito de cristal: claro e rijo, sim, era um cristal puro. As coisas de fora não o penetravam, nada era capaz de toldar a sua limpidez essencial”.