Algumas delas cresceram imersas no universo do cacau e do chocolate. É o caso de Ana Paranhos. A carioca se habituou desde cedo ao aroma das amêndoas torradas e do cacau secando nas barcaças durante as visitas à fazenda da avó materna, na Bahia, estado onde vive há mais de 30 anos.
Hoje, é responsável pela produção tree to bar da Cruzeiro do Sul, marca que fundou há uma década. O modelo acompanha toda a cadeia, do plantio do cacau à elaboração e distribuição do chocolate. “Sabemos como ninguém como são todas as etapas do produto”, afirma.
Essa paixão também corre nas veias de Patricia Landmann. Filha de Claudia, que fundou a Chocolat du Jour em 1987, ela hoje divide a gestão da marca bean to bar (do grão à barra) com o irmão.
Outras se encontraram na gastronomia e no chocolate mais tarde. Juliana Aquino, por exemplo, formou-se em secretariado executivo e fez carreira como cantora por duas décadas. Em 2013, ao lado do marido, assumiu a fazenda da família no Vale Potumuju, em Arataca (BA). Dois anos depois, formou-se em gastronomia. Hoje, sua marca de chocolates tree to bar, a Baianí, soma mais de 25 prêmios no Brasil e no exterior.
Michelle Kallas também fez uma transição de carreira do direito para fundar a chocolateria Mica, que produz cerca de 25 mil bombons coloridos por semana. Já a chef chocolatier Renata Arassiro trocou a engenharia pelo chocolate e criou, há 18 anos, a marca que leva seu nome.
Luciana Lobo uniu a trajetória executiva à gastronomia como chef chocolatier e diretora de inovação da Dengo, liderando as criações desde a fundação da marca, que abriu duas lojas na França em 2023.
Luisa Abram também está levando seus chocolates brasileiríssimos, feitos com cacau selvagem da Amazônia, para o mundo. À frente da marca homônima bean to bar, já soma mais de 100 pontos de venda no Brasil e exporta para Estados Unidos e Europa.
Em clima de Páscoa, o momento mais importante do ano para o setor, conheça, a seguir, as mulheres por trás de alguns dos melhores e mais premiados chocolates do país, com produções que, muitas vezes, começam no plantio do cacau e ganham o mundo.
Produzem
Ana Paranhos, fundadora da Cruzeiro do Sul
Ana Paranhos cuida da produção tree to bar – que envolve desde o plantio do cacau até a elaboração e distribuição do chocolate – da Cruzeiro do Sul. Ana faz parte da quarta geração da família no ramo e criou a marca de chocolates há 10 anos.
O cultivo nos quase 100 hectares de terras logo foi transformado em orgânico e depois biodinâmico (agricultura baseada na filosofia Antroposófica). “A preocupação com a natureza e com as pessoas que lidam com a terra trouxe esse impulso de não permitir mais a entrada de adubos químicos ou inseticidas nos plantios de cacau.”
Hoje, são três fábricas e duas fazendas certificadas que geram chocolates com densidades de 60% a 100% cacau. São 10 sabores variados – 9 veganos e um único com leite de cabra. “Confere um sabor bastante original.” Alguns ainda levam óleos essenciais, como laranja, tangerina e menta, que Ana mesmo destila artesanalmente, além de leite de coco e cupuaçu. A Páscoa representa 10% do faturamento anual.
Juliana Aquino, sócia-proprietária da Baianí Chocolates

Nascida em Salvador, Juliana Aquino cresceu em Itabuna, polo do comércio de cacau no sul da Bahia. Formou-se em secretariado executivo, mas seguiu carreira como cantora por duas décadas, com dois discos gravados. Em 2013, ao lado do marido, assumiu a administração da fazenda no Vale Potumuju, em Arataca (BA), adquirida por seu pai em 1973.
Dois anos depois, formou-se em gastronomia e, após consultoria com o biólogo Dan O’Doherty, da Cacao Services USA, a fazenda passou a produzir cacau de alto padrão. Incentivada por um amigo mentor, começou a produzir chocolate para testar a qualidade sensorial do cacau. Em 2017, vieram as primeiras experiências, inicialmente degustadas por amigos e familiares. “A resposta foi tão positiva que decidimos enviar os chocolates para um prêmio internacional no início de 2018. Mandamos duas barras e ganhamos prêmios nas duas”, conta.
Hoje, a Baianí, marca de chocolates tree to bar, soma mais de 25 prêmios. “Qualidade, sustentabilidade ambiental, social e econômica são os pilares do nosso negócio.” Juliana segue se especializando e mantém contato com grandes nomes do cacau e do chocolate bean to bar no mundo. Também ministra cursos de análise de amêndoas e degustação de chocolates, além de prestar consultoria em produção.
O volume de vendas, entre atacado e varejo, dobra na Páscoa. Segundo ela, o preço por quilo varia de acordo com a intensidade de cacau ou o uso de manteiga de cacau. “Chocolate tree to bar ou bean to bar não é caro. Os outros é que são baratos.” Em outras produções, afirma, a substituição por ingredientes de menor qualidade reduz custos, mas compromete o produto — além de estar associada ao desmatamento e a práticas ambientalmente irresponsáveis.
Criam
Luciana Lobo, chef chocolatier e de inovação da Dengo

A executiva e chocolatière Luciana Lobo é a responsável pelas criações da Dengo, marca de chocolates 100% brasileiros. “São mais de 100 produtos lançados por ano”, diz. Administradora de formação, Luciana foi convidada pelo fundador para iniciar os testes do chocolate da Dengo, criada em 2017 com produtos totalmente brasileiros, sem gordura hidrogenada ou conservantes, com menos açúcar que os tradicionais e que valorizasse os pequenos e médios produtores de cacau da Bahia. “Ainda não existia o bean to bar”, ou do grão à barra. A empresa compra diretamente dos produtores a um preço mais de 90% acima do mercado.
Quando fez a transição do mundo corporativo para a gastronomia, Luciana não imaginava que acabaria unindo os dois. Como executiva da empresa de pesquisa Nielsen, alimentava a paixão pela cozinha fazendo bolos para a diretoria e em aniversários dos colegas. “Cozinhava de madrugada e comecei a ter uma clientela.”
Quando as madrugadas na cozinha passaram a ser mais interessantes do que as manhãs no escritório, decidiu que era hora de seguir outro caminho. Depois de fazer cursos curtos em Paris e Londres, se inscreveu no Le Cordon Bleu da Austrália, onde se formou em pâtisserie e cuisine. De volta ao Brasil, abriu uma cozinha industrial e começou a vender doces para buffets. Deu aulas, fez consultorias para empresas e foi chamada para desenvolver a Cau Chocolate.
Hoje, equilibra testes e degustações com tarefas nem tão doces, como o planejamento estratégico da empresa, na função de head de produto e inovação da Dengo. Para a Páscoa deste ano, um dos principais momentos do ano para a marca, o portfólio reúne 28 produtos, sendo 10 lançamentos. Entre eles, o ovo recheado de cupuaçu, os dengos de corte de laranja e de doce de leite e um chocolate em formato de cacau recheado com praliné de castanha do Pará com cupuaçu e massa folhada.
Saiko Izawa, chef pâtissier do Rosewood São Paulo

Aos 15 anos, deixou o Japão para viver no Brasil com a família. Quatro anos depois, já em São Paulo, era a responsável por preparar tudo o que a família consumia em casa, de pães e massas a doces. As receitas logo conquistaram amigos e conhecidos, e o sucesso das encomendas a levou à profissionalização. Saiko então ingressou na Le Cordon Bleu, iniciando os estudos em Tóquio e concluindo a formação em Paris. De volta ao Brasil, passou por cozinhas como D.O.M., Dalva e Dito, Attimo e A Casa do Porco.
Em 2018, retornou à unidade paulistana da Le Cordon Bleu como professora, retomando o contato com a confeitaria clássica francesa. Desde 2021, é chef pâtissier do Rosewood São Paulo, onde assina as sobremesas dos restaurantes do hotel. Reconhecida pelo rigor técnico e pela delicadeza de suas criações, acumula prêmios como o Best Pastry Chef pela Latin America’s 50 Best Restaurants, em 2017. No ano passado, recebeu o Prix au Chef Pâtissier da Academia Internacional de Gastronomia, em Paris. Também representou o Brasil como única chef convidada no jantar do Fortune Most Powerful Women Next Gen Summit, realizado na Califórnia, em 2019.
Neste ano, Saiko criou para o Rosewood um ovo de Páscoa que valoriza o caju brasileiro em diferentes texturas e utiliza chocolate da Baianí, produtora artesanal tree to bar do Vale Potumuju, na Bahia. Está em linha com sua leitura das tendências para a Páscoa, cada vez mais voltadas a ingredientes brasileiros e locais.
Empreendem
Michelle Kallas, fundadora da Mica Chocolates

Antes de fundar a Mica Chocolates, chocolateria que hoje produz, em média, 25 mil bombons coloridos toda semana (cerca de 100 mil por mês), além de barras, fatias e, durante a Páscoa, ovos inusitados, a confeiteira Michelle Kallas fez uma transição de carreira. “Eu não era feliz na advocacia e sabia disso. Até que me deparei com a gastronomia e o design.”
Começou em 2017 com um Instagram e uma pequena sala. Hoje, tem loja física em Pinheiros, uma fábrica que opera 24 horas por dia, todos os dias do ano, e 50 funcionários – além de ao menos 20 profissionais temporários para atender à demanda sazonal. “Nosso DNA é fazer chocolates que saiam da mesmice e sejam impactantes tanto no visual quanto no sabor”, diz Michelle, chamada de Mica desde criança.
A ideia é fugir do óbvio e inovar com bombons de “comer com os olhos”, harmonizações inusitadas, elegantes e, claro, saborosas. Neste ano, ela mergulhou no universo das lanchonetes com uma collab com a hamburgueria Patties. “Queremos brincar com esse contraste do fast e slow food, usando uma comunicação bem-humorada para falar de chocolates artesanais que levam vários dias para ficarem prontos”, conta.
Uma das novidades é o “Happy Meal”, uma caixa com “mini-hambúrguer” totalmente de chocolate, além de nuggets e batatas fritas de chocolate branco, acompanhadas de geleia de framboesa no lugar do ketchup.
A Páscoa responde por cerca de 30% do faturamento anual da marca, com receitas diárias que podem triplicar no período. Em 2025, a Mica Chocolates cresceu 35% em relação ao ano anterior, e a expectativa é avançar mais 30% até o fim de 2026. Só na Páscoa de 2025, foram utilizadas cerca de 5 toneladas de chocolate — sendo 3 toneladas destinadas exclusivamente aos ovos — volume que deve se repetir em 2026.
Renata Arassiro

Renata Arassiro também é uma das mulheres que deixou uma carreira tradicional (na engenharia) para se dedicar ao chocolate. Há mais de 20 anos, começou a explorar técnicas na própria cozinha até desenvolver uma marca autoral, fundada em 2008. Hoje, é a primeira embaixadora Callebaut no Brasil e proprietária da Renata Arassiro Chocolates, no bairro do Campo Belo, em São Paulo.
Sua marca é conhecida por criações artísticas que valorizam ingredientes brasileiros, como frutas tropicais e cachaça. “A brasilidade, que sempre esteve presente no nosso trabalho, ganha uma nova camada ao dialogar com memórias e referências do cotidiano.”
Seu ovo de Páscoa “Pamonha, Pamonha, Pamonha!”, que faz uma ode ao milho, foi destaque na lista da Forbes dos Melhores Ovos dos Chefs deste ano. “Em 2026, tivemos a nossa Páscoa mais relevante até aqui, com crescimento tanto em volume quanto em faturamento”, diz a chef chocolatier, citando a atuação no B2B e collabs com empórios premium. “Dentro de cada ovo, desenvolvemos esculturas em chocolate que representam o ingrediente principal de cada criação.”
Em 2011 e 2013, Arassiro integrou a equipe brasileira da Coupe du Monde de la Pâtisserie, representando o país na etapa latino-americana e nas finais do campeonato em Lyon, na França.
Luisa Abram

Luisa Abram se encontrou na química da gastronomia depois de as expectativas com o vestibular de medicina serem frustradas. Hoje, é responsável pela marca de chocolates bean to bar que leva seu nome, que tem mais de 100 pontos de venda no Brasil e exporta para Estados Unidos e Europa.
Os chocolates Luisa Abram são feitos com cacau selvagem da Amazônia, colhidos por ribeirinhos. “A aquisição desse cacau é feita por meio de negociações justas e adiciona mais uma fonte de renda para essas comunidades, ao mesmo tempo em que ajuda na consciência da necessidade de preservação da floresta”, diz a chocolatière.
Até o último ano, a Páscoa, quando produz mais de 20 toneladas de chocolate, representava cerca de 30% do faturamento anual da empresa. Seus chocolates já ganharam medalhas de ouro e bronze em premiações internacionais, como o Academy of Chocolate Awards, em Londres.
Também estão presentes em produtos Bacio di Latte, inclusive nos ovos de Páscoa, em uma parceria de quase seis anos. “Eles me procuraram em 2019 e fizemos cerca de 100 testes até criar o primeiro produto.”
Patricia Landmann, sócia e diretora de marketing da Chocolat du Jour

Filha de Claudia Landmann, que fundou a Chocolat du Jour em 1987, Patricia cresceu imersa no universo da marca. Hoje, divide a gestão do negócio com o irmão, Manoel Fernandes.
À frente do marketing, a publicitária defende a rastreabilidade e a produção verticalizada — da fazenda ao produto final — e tem papel central na valorização do chocolate bean-to-bar e do cacau brasileiro. A Páscoa é o momento mais estratégico do ano para a marca e exige meses de desenvolvimento. “Nessa época, o chocolate vai além do produto e passa a ser um gesto, uma forma de comunicar”, afirma. Para 2026, ela projeta crescimento entre 15% e 20% em relação ao ano anterior. A produção deve alcançar cerca de 60 toneladas de cacau.
Veronica Kim, confeiteira e fundadora da By Kim

Filha de imigrantes coreanos que fundaram uma confecção de moda feminina no Bom Retiro, em São Paulo, Veronica encontrou na cozinha seu caminho. Começou produzindo doces em casa e, rapidamente, passou a receber encomendas, inclusive para casamentos.
À frente da confeitaria By Kim, na região de Santa Cecília, desenvolve criações que combinam técnicas francesas e asiáticas, com foco em doces e folhados. Para a Páscoa deste ano, apresenta uma linha com seis sabores de ovos de casca recheada, que destacam caramelos artesanais produzidos na casa e ingredientes como pistache, framboesa, coco fresco e matchá coreano.
“Demoramos meses para desenvolver nossas linhas de Páscoa. Cada coleção é resultado de muito estudo, tentativas, erros e acertos”, afirma a confeiteira, que participou da primeira edição do MasterChef Confeitaria. Entre os lançamentos, está o Ovo de Maracujá com Crocante de Coco (R$ 240 | 440g), selecionado entre os destaques do ano em lista da Forbes.
A confeitaria projeta vender cerca de 1.500 unidades nesta temporada, com crescimento de 20% no faturamento em relação ao ano anterior. A Páscoa responde por aproximadamente 20% da receita anual da marca. Só entre março e abril, são produzidas cerca de 1 tonelada de chocolate, com o reforço de 15 funcionários temporários para dar conta da demanda.