O mercado de criptoativos entra em abril sob uma combinação de cautela e mudança de foco. A relação de maiores destaques para o mês, levantada pelo Valor Investe com oito casas especializadas, trouxe menções a 19 diferentes criptos. Entre elas, Bitcoin (BTC), Ethereum (ETH) e Solana (SOL), o trio de blue chips, seguem no Top 3 quando consideradas individualmente.
No entanto, ao somar citações específicas e tokens ligados a projetos correlacionados, a narrativa das “stablecoins” assumiu o protagonismo. As stablecoins são criptoativos lastreados e pareados a ativos reais, como moedas fiduciárias e commodities. No caso, nos destaques deste mês estão as criptos de dólar e de ouro, que vinham ganhando espaço desde fevereiro.
Após um março marcado por forte volatilidade, influenciada pelo cenário macroeconômico e por tensões geopolíticas, especialistas apontam que o setor começa a deixar de lado narrativas especulativas e passa a priorizar o uso real das redes e o fluxo de capital dentro do ecossistema.
“O mês de março foi marcado por forte volatilidade no mercado de criptomoedas, principalmente em função da evolução do conflito no Oriente Médio e do aumento das incertezas macroeconômicas globais”, afirma Paulo Camargo, diretor de investimentos da Underblock.
Na mesma linha, Guilherme Fais, chefe de finanças da NovaDAX, diz que o mercado inicia abril “em um ambiente mais seletivo, com investidores cada vez mais atentos ao cenário macroeconômico e à qualidade dos projetos”. Esse pano de fundo ajuda a explicar o ranking de recomendações do mês.
Criptos de ativos reais ganham protagonismo e concentram recomendações
Mais do que um líder único em indicações, abril marca a consolidação dos criptoativos lastreados em ativos como dólar e ouro (as stablecoins) como principal vetor de crescimento do segmento. Somados, eles aparecem com mais força do que o próprio Bitcoin entre os destaques apontados pelos especialistas, refletindo uma mudança de foco: do potencial especulativo para a utilidade prática.
Nominalmente, foram citadas a USD Coin (USDC), atrelada ao dólar, e as criptos de ouro Tether Gold (XAUT) e Pax Gold (PAXG). No conjunto, porém, criptos como Tron (TRX), Chainlink (LINK), Aster (ASTER), BNB (BNB) e até Solana (SOL) aparecem como beneficiários desse cenário favorável à adoção de stablecoins, especialmente as de dólar.
“Mais do que um ativo defensivo, o USDC se consolida como peça central da infraestrutura financeira baseada em blockchain. O crescimento do uso de stablecoins em pagamentos internacionais, operações corporativas e tokenização de ativos reforça a importância dessas moedas digitais no mercado”, afirma Marcelo Person, diretor de mercados da Foxbit.
Na mesma linha, Valter Rebelo, chefe de ativos digitais da Empiricus Research, diz que “enquanto BTC e outras criptos capturam os ganhos mais voláteis do mercado, o USDC atua como âncora de estabilidade”. Segundo ele, em momentos de turbulência macro ou correção setorial, essa cripto de dólar “preserva capital e facilita rebalanceamentos ágeis”.
Parte das recomendações para abril passa por tokens ligados à infraestrutura, à liquidez e à distribuição da USD1, o “dólar digital” da World Liberty Financial (WLF), projeto da família do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Nos Estados Unidos, o debate sobre moedas digitais ganhou um componente político adicional após Trump se posicionar contra a criação de uma moeda digital oficial (uma CBDC, Central Bank Digital Currency) do dólar, que ficaria a cargo do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Nesse contexto, o avanço de iniciativas privadas, como a própria USD1, reforça a disputa sobre qual modelo deve prevalecer na digitalização do sistema financeiro.
É esse pano de fundo que ajuda a explicar, por exemplo, a presença de criptoativos como Tron e Chainlink em algumas listas. Para Taiamã Demaman, analista-chefe da Coinext, a Tron reúne “ligação direta com o ecossistema WLFI”. Já a Chainlink se destaca pela “combinação entre adoção institucional crescente, conexão direta com a WLFI e posição de infraestrutura essencial para o ciclo de tokenização em curso”.
No caso da BNB, cripto da Binance, maior plataforma de negociação do mundo, a leitura também passa pela relação com a USD1. Demaman afirma que a Binance passou a integrar essa cripto de dólar “diretamente à sua infraestrutura de negociação”, o que mantém o ativo entre os mais expostos “ao fluxo político e institucional do mercado cripto no ciclo atual”.
Além das criptos de dólar, os tokens lastreados em ouro também se mantêm no radar como proteção. “O ouro tokenizado, como XAUT e PAXG, também ganha relevância como instrumento de proteção em um cenário de aumento da incerteza política e fiscal ao redor do mundo”, afirma Camargo.
Bitcoin segue na liderança, mas com papel mais defensivo
Apesar da ascensão das stablecoins, o Bitcoin mantém a liderança entre os ativos mais recomendados para abril, consolidando sua posição como referência do mercado. “Bitcoin é o ativo essencial na carteira de qualquer investidor cripto”, afirma Rebelo. “Além de ser o ativo mais consolidado do setor, ele atua como uma bússola para todo o ecossistema.”
A percepção entre os analistas é que o criptoativo entra em uma fase mais madura, com comportamento cada vez mais ligado ao cenário macroeconômico. “Após um ciclo de maior institucionalização, o BTC entra em um momento mais maduro, com menor dependência de narrativas especulativas e maior correlação com fluxos macro”, diz Julián Colombo, diretor da Bitso. “Para o mês, tende a funcionar como ‘porto seguro’ dentro do universo cripto.”
O avanço da adoção institucional segue como principal motor. “Esse movimento se traduz em aportes robustos nos ETFs [fundos de índice negociados em bolsa] e na ampliação das chamadas Bitcoin Treasury Companies”, afirma Rebelo. São empresas que têm como negócio principal comprar Bitcoin para gerar receita com sua valorização.
Ainda assim, o momento é de equilíbrio. Segundo a Transfero, o Bitcoin “se mantém em uma zona crítica de consolidação”, refletindo uma base institucional sólida, mas com uma certa desaceleração dos fluxos.
Ethereum e Solana completam pódio com foco em infraestrutura
Na sequência do ranking para abril, Ethereum e Solana seguem entre os destaques, impulsionados pelo papel central na infraestrutura do mercado cripto.
“O Ethereum mantém sua posição como principal infraestrutura para aplicações descentralizadas, tokenização de ativos e emissão de stablecoins”, afirma Colombo. Para ele, a rede segue concentrando “grande parte da atividade institucional”.
Além disso, fatores regulatórios recentes ajudam a destravar o ativo. “A classificação do Ethereum como commodity digital nos Estados Unidos resolve uma incerteza regulatória que pesou sobre o ativo por anos”, diz o executivo.
Solana, por sua vez, aparece como principal aposta entre as redes blockchain de alta performance. “A rede se destaca por sua velocidade e baixos custos, especialmente em aplicações voltadas ao usuário final e pagamentos digitais”, diz Colombo.
Para Rony Szuster, analista-chefe do Mercado Bitcoin (MB), Solana pode ganhar impulso adicional com a entrada de investidores institucionais. “A possível aprovação de um ETF nos Estados Unidos tende a ampliar significativamente a entrada de capital.”
Na visão da NovaDAX, a cripto mantém forte apelo em cenários de maior apetite por risco. “Solana continua sendo um dos principais destaques potenciais, frequentemente associada a movimentos mais acelerados dentro do mercado”, afirma Fais.