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terça-feira, abril 7, 2026

Crítica | Star Wars: Legado de Vader – O Reinado de Kylo Ren – Vol. 2 – Plano Crítico

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Que voz, a não ser a do orador, pode confiar a História, que é verdadeiramente a testemunha dos tempos, a luz da verdade, a vida da memória, a mestra da vida, a anunciadora dos tempos passados, à eternidade?

Cícero, De Oratore, II, 36

O começo desse segundo arco de Reinado de Kylo Ren, compondo as edições de Legado de Darth Vader, pertence à pergunta que acompanha toda essa série: quem é Kylo Ren? Na busca pelo legado do avô para se tornar mais poderoso, ele é descoberto como desconhecedor da Força, como alguém que se rebelou contra qualquer professor, por achar que necessita aprender tudo sozinho. Na história de Star Wars, a Força se alinha muito ao destino, como um ser espiritual que sempre está ensinando, como um mestre da vida (Magistrae Vita), que diz toda a verdade. Embora a historiografia moderna tenha se desapegado da História como um ser ensinador, em Star Wars isso é muito vivo. Por isso, o gancho da edição 6 e o encontro com uma idosa Jedi faz sentido na medida em que o grande flashback narrado sobre o passado da Ordem 66 é mais uma desconstrução na visão limitada do novo Supremo Líder, aquele que não quer aprender para de fato ter poder.

Como diz Darth Vader na última edição (12): “poder deve ser tomado”. Isso parte de uma história, de um passado acumulado que será dominado. Mas nem isso Ben Solo compreende, em todo o seu orgulho de destruir o passado a qualquer custo para ser como seu avô, ironicamente. A quebra de expectativa para Ben é que Vader, para dominar sua história, na luta contra as tentações da Força para a Luz, nunca caçou de fato Jedi, ele caçava recrutas, liderava grandes missões de caça, mas o trabalho sujo era terceirizado para os irmãos e irmãs Inquisidores. Kylo Ren seria então um inquisidor mais forte ao caçar um Jedi? Ele realmente sabe o que é um Jedi? Charles Soule, no roteiro, desenha uma incapacidade de Kylo saber e aprender algo.

Como aprendiz de Luke Skywalker, Ren sabe muito pouco da Ordem e do passado clônico para enfrentar a dor de Vader de ser o reflexo não humano do Jedi. Assim, a edição 7 é mais uma que mostra Kylo ganhando uma batalha, mas perdendo mais um pilar do seu castelo de ego. No planeta gelado, o encontro com Grandea, a idosa Jedi, é outro testemunho da adolescência e imaturidade do Supremo Líder Kylo Ren. E isso se torna mais evidente quando o passado dos Cavaleiros de Ren resgata outra incapacidade de Ben Solo: ser líder.

Isso é apresentado em péssimas edições, infelizmente. Grandes dificuldades de Charles Soule desenvolver suas HQs na Marvel é ser parte de uma narrativa comprada para preencher lacunas. A grande pergunta que se fazia no Episódio IX era sobre os Cavaleiros de Ren. Se a HQ Ascensão de Kylo Ren foi um bom prelúdio, dentro das limitações canônicas, a edição 8 escancara limitações e conexões com esse primeiro trabalho sobre os Ren, sem piedade com algum desenvolvimento com a nova personagem: Tava Ren. Soa infantil a capa apresentar tão enfaticamente a personagem, e parte de sua história é saber por que os Ren são covardes. Porém, são bons rascunhos da consequência que Ben Solo trouxe ao grupo paralelo do Lado Escuro da Força.

Apesar da capa da HQ animar os fãs quanto aos Ren, tão cobiçados pelo visual (como aconteceu com Boba Fett nos clássicos), cada vez mais eles se mostram uma tentativa falha de misturar os Sith com os Mandalorianos. Apesar da edição 8 ser uma edição ruim para encher a série mensal com mais uma edição, é uma evidência de um bom trabalho de visual tentando complementar o roteiro de Charles Soule, junto com o artista Stefano Rafaelle em manter o leitor atento. O flashback de Ben Solo abandonando os Cavaleiros de Ren, finalizado por Nolan Woodard, é bem ilustrado e bem objetivo. A parte pós-flashback, na nave de Kylo Ren, volta a um tom aquarela, que torna tudo mais grosseiro. A dinâmica da edição só existe por esse trabalho em conjunto que mantém as coisas menos monótonas.

Legado de Darth Vader

Progredindo para a edição 9, em que Tava Ren, a nova líder dos cavaleiros, aparece, o roteiro de Soule continua ruim em resolver esse tema de Ben Solo, mas o bom embate com Tava não é mais pelo seu fracasso em ser seu avô, mas em lidar com seu próprio passado. A luta de Kylo contra Tava Ren é mais uma tentativa das últimas edições de remontar Kylo em busca de sua própria história, não mais do avô. Tava é só um pretexto para o retorno dos Cavaleiros de Ren, e Ben Solo, novo supremo líder, demonstrar força contra seu passado. Tava é o típico estereótipo da mulher que tenta qualquer coisa para extrair o máximo de Ben, e atrair para uma vingança, ou até mesmo uma aliança com os Ren. Não há muito critério, mas tem tentativa de vender HQ, desde a capa, até momentos românticos. Uma sequência de HQs, 8 e 9, ruins por causa, mais uma vez, da temática dos Ren.

Assim, o arco Reign of Kylo Ren, embora cresça em seu escopo, se mostra frágil em lidar com o drama. No entanto, na edição 10 é apresentado que Kylo Ren sempre imaginou o avô como o grande vilão, pois lhe foi negada a história da redenção de Anakin, exatamente porque a história de derrota do Escolhido na Ordem 66 era de interesse num museu feito pela Primeira Ordem. Além disso, Luke Skywalker criou muito mais medo sobre o pai ter se tornado o vilão do que evidenciar a redenção que o salvou. Assim, o neto quer ser mau a qualquer custo, mas não quer lidar com a Luz, seu primeiro professor Jedi e tudo que o rodeia, pois lhe traz a família Skywalker. Ele sacrificou sua família, mas quando lembra dela prefere fugir. Ele quer apagar, quer lutar, mas desde o Episódio VII ele é tentado pela Luz, não pelo lado escuro.

Soule ajuda o leitor e fã de Star Wars a entender que o princípio de Ben Solo é um baita personagem mal desenvolvido nos filmes, mas que o roteirista, em brilhos durante essa saga Legado de Darth Vader, consegue até mesmo resumir numa edição (10) o arco do personagem, que faz ainda mais sentido depois que ele tenta arranjar o poder de Darth Vader do jeito que ele fazia: meditando, lutando contra o passado, contra Padmé, e tentando matar o filho Luke. O que ele não sabe é que Vader enfrentou o mesmo que ele, uma tentação pela Luz, e por isso se acha indigno. Um bom vilão sempre enfrenta a Luz de frente, para abraçar as trevas. Isso é uma boa tradução do que George Lucas construiu nos 6 filmes numa jornada do herói, e também numa jornada de um vilão que foi salvo pelo herói.

Finalizando com Kylo Ren, criando a queda do Reinado de Kylo Ren, quanto mais descobria sobre seu avô, as duas últimas edições espancam o personagem, como se a Força cansasse de insistir que só é possível tomar ou conseguir poder aprendendo, tendo um mestre, nem que seja o passado tão difícil de lidar. Como uma boa edição de terror, e se aproximando do fim do arco de 12 edições, Charles Soule e Luke Ross, na edição 11, fazem algo mais artístico com um roteiro basicamente de voice-off, de uma narração de Vanee, que pouco apareceu nesse volume 2 do Reinado de Kylo Ren. Embora fosse esperado que o lacaio do monstro Darth Vader, assim como Igor do Frankenstein, tentasse transformar Kylo Ren de alguma maneira, a maneira como a história estava caminhando isso não parecia o clímax mais desejado. Por isso que Soule surpreende com seu material. Mesmo sendo refém do entrelace novelesco entre os filmes do Episódio VIII e IX, suas criações dão conta do recado de desenvolver dramaticamente e tragicamente quem é esse neto de Darth Vader, em todas as suas inversões narrativas de vilão, herói ou anti-herói.

Na conclusão, Charles Soule faz uma grande revisão, um explicado, mas com muita nobreza, com a ajuda de Luke Ross, artista dos dois arcos de Reinado de Kylo Ren. Parecia meio óbvio que o legado de Darth Vader seja exatamente o que não se espera: dele ser o Jedi que ele se torna no final do Episódio VI. Porém, Kylo Ren, tentando destruir tudo que é para ser mais forte como o avô, descobre que não tem como destruir tudo quando tudo que você é foi formado por alguém. Esse é o destino de um bom vilão de tempos contemporâneos, para contribuir na discussão de identidade, assim como Rey, a inveja de Kylo Ren, por não ter um passado com que lidar, apenas dor.

Essas HQs de Soule são um perfeito complemento e profundidade do que são os Sequels (a mais recente trilogia de Star Wars do cinema), mesmo que seja algo totalmente de encomenda. Porém, é legal ver algo mais artístico, com Luke Ross desenhando Darth Vader gigante, e reimaginar a caverna de Dagobah. Ela é parte da Jornada do Herói de Campbell, na qual Kylo Ren está destinado a ser, e por isso ele tanto quer ser um Ren, por ser uma escolha dele, ao mesmo tempo que é herança dos Sith, de alguma maneira. É uma baita reflexão de valores associados à depravação total do cristianismo, divergente da teologia do destino e da harmonia xintoísta que preserva uma pessoa no caminho, mesmo que ela não queira. Pena que nada disso é praticamente desenhado no cinema, ou ao menos não de maneira tão bem amarrada, como uma boa novela. Legado de Darth Vader Legado de Darth Vader

Star Wars: Legado de Vader – O Reinado de Kylo Ren – Vol. 2 (Star Wars: Legacy Of Vader – The Reign of Kylo Ren Vol. 2 – EUA, 2025/2026)
Roteiro: Charles Soule
Arte: Luke Ross (#7, 10, 11 e 12) , Stefano Raffaele (#8 e 9)
Cores: Nolan Woodard
Letras: VC’s Joe Caramagna
Editoria: Mark Paniccia, C.B. Cebulski, Mikey J. Basso
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 06 de agosto, 03 de setembro, 15 de outubro, 05 de novembro e 03 de dezembro de 2025; 14 de janeiro de 2026
Páginas: 136



[Fonte Original]

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