Entre os vários motivos citados por Donald Trump para lançar as tarifas de importação generalizadas no “dia da libertação”, há pouco mais de um ano, destaca-se o desequilíbrio na balança comercial dos EUA, com o presidente americano obcecado pelo déficit no comércio de bens e ignorando o robusto superávit na conta de serviços. Outro argumento repetido por Trump é o de que as tarifas trariam de volta os empregos industriais perdidos com a globalização. Mas essa receita não é exclusiva do intempestivo presidente americano. Em um novo estudo, o Fundo Monetário Internacional (FMI) observa que variados países têm usado tarifas e políticas industriais para lidar com os crescentes desequilíbrios externos. Porém, trata-se de uma solução dispendiosa e com efeitos incertos, observam os economistas do Fundo liderados por Pierre-Olivier Gourinchas.
Depois de uma década de declínio constante após a crise financeira global, os desequilíbrios globais em conta corrente estão aumentando novamente, e em um contexto desafiador de múltiplos choques, como a guerra no Oriente Médio e a guerra tarifária de Trump. A expansão de políticas industriais — parte delas em resposta às disrupções provocadas pela pandemia e pela tensão geopolítica, como o nearshoring — e medidas de restrição comerciais são frequentemente justificadas pelos governos para reduzir os desequilíbrios em conta corrente. Porém, Gourinchas e equipe argumentam que as políticas macroeconômicas tradicionais continuam sendo os principais instrumentos para produzir saldos externos positivos e para lidar com os desequilíbrios em conta corrente. A análise do FMI sugere que as tarifas melhoram a conta corrente apenas em circunstâncias limitadas e, em geral, têm efeitos modestos e incertos. Já as políticas industriais, quando aplicadas com instrumentos que abrangem toda a economia, podem ter impactos maiores, aumentando a poupança nacional e reduzindo a demanda interna.
O balanço de conta corrente reflete a diferença entre a poupança e o investimento de sua população, empresas e governo. As políticas, sejam industriais ou comerciais, afetam a conta corrente na medida em que alteram a poupança ou o investimento, assim como as expectativas das pessoas e empresas. A poupança pessoal aumenta quando as pessoas esperam uma queda na renda e diminui quando esperam um aumento na renda. As empresas investem com base em suas perspectivas de retorno, não apenas na lucratividade atual. Essa percepção, ressalta o FMI, é fundamental para entender por que muitas políticas comerciais e industriais não raro têm impactos limitados ou contraintuitivos no balanço de conta corrente.
No caso dos EUA, as tarifas alfandegárias elevadas e políticas imprevisíveis provocaram grandes oscilações no comércio exterior no ano passado. As empresas americanas correram para estocar produtos antes da entrada em vigor das tarifas e, em seguida, interromperam as importações. Investidores americanos compraram e venderam grandes quantidades de ouro como proteção contra a volatilidade dos mercados. E apesar de as tarifas terem reduzido a demanda americana por carros e outros bens de consumo importados, os EUA sofreram um aumento no déficit de bens de US$ 25,5 bilhões (+2,1%), para o valor recorde de US$ 1,24 trilhão. As tarifas de fato impactaram as importações americanas, mas não da maneira que o governo Trump havia prometido. Em vez de reduzir as importações de forma generalizada, as empresas americanas simplesmente deixaram de importar produtos chineses — que foram atingidos por algumas das tarifas mais altas em 2025 — e passaram a importar de outros fornecedores, como Vietnã e México. Quanto às metas de reindustrialização de Trump, o setor manufatureiro dos EUA perdeu cerca de 72 mil empregos no ano passado desde o “dia da libertação”.
Para o FMI, a conclusão é clara: “políticas industriais e tarifas alfandegárias não são atalhos para o reequilíbrio externo. Quando afetam o balanço da conta corrente, muitas vezes o fazem suprimindo o consumo ou o investimento — dificilmente uma receita para o crescimento sustentável. O reequilíbrio duradouro ainda depende de políticas internas sólidas, não de barreiras comerciais”.
Os desequilíbrios globais, avalia o FMI, são moldados pelas trajetórias e políticas macroeconômicas internas, e não por tarifas ou políticas industriais com foco restrito. A análise mostra que os desequilíbrios globais podem aumentar ainda mais se persistirem as tendências de déficits fiscais elevados e forte demanda interna nos EUA, apoio governamental adicional aos exportadores na China — juntamente com menor provisão de benefícios sociais e menor consumo —, além de investimentos moderados e fraco crescimento da produtividade na Europa. É evidente, segundo essa análise do FMI, que uma ação em conjunto dos países ajudaria a reduzir esse crescente desequilíbrio global. Porém, o cenário externo atual é também de fragmentação e de pouca disposição para enfrentar de forma coletiva os desafios econômicos.