“O dia em que o produtor ou o tutor de um pet não lembrar da MSD para controlar doenças, nós deixamos de existir; mas hoje queremos ser reconhecidos por usar a inteligência de dados para ‘conversar’ com os animais.”
A frase de Delair Angelo Bolis, durante uma entrevista exclusiva à Forbes Agro, sintetiza uma mudança estrutural que vai além do discurso corporativo.
Nos últimos seis anos, sob sua liderança, a MSD Saúde Animal no Brasil dobrou de tamanho e ultrapassou R$ 2,1 bilhões em faturamento, reposicionando-se de uma indústria farmacêutica tradicional para uma empresa orientada por tecnologia e inteligência de dados.
O movimento acompanha uma transformação mais ampla do próprio agronegócio, cada vez mais dependente de precisão, rastreabilidade e eficiência produtiva, mas, no caso da MSD, ganha contornos estratégicos.
A companhia faz parte da americana Merck & Co. que em 2025 faturou globalmente US$ 65 bilhões (R$ 325 bilhões, segundo a cotação atual). O Brasil se tornou o segundo maior mercado global da companhia, atrás apenas dos Estados Unidos, e passou a operar como um laboratório de inovação em escala.
A virada: de medicamentos para dados
A trajetória de crescimento da operação brasileira está diretamente ligada à redefinição do que a empresa entende como seu próprio negócio.
“Fomos uma empresa reconhecida para controlar doenças. Isso continua sendo essencial. Mas o mais importante é quem queremos ser”, afirma Bolis.
Esse “queremos ser” desloca o eixo da companhia para a tecnologia. Sensores, softwares e algoritmos passam a ocupar o centro da estratégia, criando uma nova camada de valor sobre a biofarmacêutica tradicional.
Globalmente, cerca de US$ 700 milhões (R$ 3,5 bilhões) já vêm de soluções tecnológicas. No Brasil, esse segmento supera R$ 100 milhões, ainda uma fração da receita, mas com papel crescente na expansão do negócio.
O efeito escala em um mercado bilionário
O crescimento da MSD acontece dentro de um setor que também se expande rapidamente. O mercado de saúde animal no Brasil deve alcançar cerca de R$ 12 bilhões em 2025, praticamente o dobro das estimativas mais restritas ao segmento de bovinos.
Mesmo um setor concentrado, adicionando empresas como as americanas Zoetis e Elanco, a alemã Boehringer Ingelheim, a francesa Vetoquinol, e a brasileira Ourofino, o setor ainda apresenta lacunas importantes de penetração tecnológica.
“Em aves e suínos, mais de 80% dos produtores já usam alta tecnologia. Na pecuária de corte e leite, menos de 30% utilizam soluções avançadas”, diz o executivo.
Essa assimetria abre espaço para crescimento acelerado, especialmente em um país que combina escala produtiva com baixa eficiência relativa em alguns segmentos.
A lógica do “animal individual”

Parte relevante da expansão da MSD está associada a uma mudança silenciosa, mas decisiva, na lógica produtiva do campo.
“O valor econômico do animal mudou. Hoje, uma vaca pode valer até R$ 100 mil”, afirma Bolis.
Esse novo patamar de valor inviabiliza o modelo tradicional de gestão por rebanho e exige monitoramento individualizado. É nesse ponto que a tecnologia se torna central.
Dispositivos instalados nos animais, como colares e brincos, capturam dados de comportamento, alimentação e saúde. Esses dados alimentam algoritmos que antecipam doenças e orientam decisões com maior precisão.
“O dado traz uma assertividade tamanha que, se o sistema aponta uma alteração e o tratador não percebe, o produtor confia no dado e trata o animal”, afirma Bolis.
Na prática, o modelo reduz perdas, aumenta produtividade e diminui o uso de medicamentos. Estas três variáveis estão diretamente ligadas ao resultado econômico do produtor.
Novo modelo de negócio: assinatura no campo
Se a tecnologia explica parte da expansão, o modelo comercial ajuda a destravar escala.
A MSD deixou de vender equipamentos e passou a operar em formato de subscrição, diluindo o investimento ao longo do tempo, no caso dos colares de monitoramento.
“Adaptamos nosso modelo ao estilo Netflix. Financiamos o equipamento em mensalidades para democratizar o acesso”, afirma Bolis.
O impacto foi imediato. O número de vacas monitoradas saltou de cerca de 30 mil para 165 mil em um ano, com expectativa de superar 200 mil.
A estratégia reduz a barreira de entrada e acelera a adoção, um movimento típico de empresas de tecnologia, mas ainda pouco explorado no agronegócio.
Brasil como ativo estratégico
A relevância da operação brasileira dentro da multinacional está diretamente ligada às características do país.
“O Brasil é o supermercado do mundo”, afirma Bolis. “Em 45 minutos, produz proteína animal suficiente para alimentar uma cidade de 97 mil habitantes durante um ano.”
Ao mesmo tempo, o país apresenta desafios estruturais que reforçam o potencial de ganho de eficiência. Um exemplo está na pecuária leiteira: o Brasil possui cerca de 12% das vacas do mundo, mas responde por apenas 4% da produção global de leite.
Esse descompasso reforça a tese de investimento da companhia: há espaço relevante para ganhos de produtividade via tecnologia.
Cultura e risco como motores de crescimento
A expansão da MSD no Brasil também passa por uma agenda interna. A empresa destina cerca de 20% do faturamento à inovação, cerca de R$ 400 milhões, com foco em soluções capazes de substituir modelos existentes.
“Buscamos inovação que torne obsoleto o que já existe”, afirma o executivo.
A estratégia inclui incentivo ao risco, diversidade de pensamento e desenvolvimento individual. Um exemplo simbólico citado por Bolis é o de um colaborador com deficiência visual que atingiu R$ 6 milhões em vendas mensais por canais digitais.
A operação brasileira hoje reúne cerca de mil colaboradores e constantemente traz renovações constantes aos trabalhadores através de um programa de treinamentos e cursos dentro da própria companhia, iniciativa conhecida como Universidade MSD.
O próximo salto: rastreabilidade e confiança
O avanço tecnológico converge para uma agenda mais ampla no agronegócio, com a rastreabilidade individual de bovinos, garantindo maior transparência à pecuária brasileira com seu rebanho de cerca de 238 milhões de animais, segundo o IBGE.
O Plano Nacional de Identificação Bovina, do governo federal, prevê identificar 100% de todo este rebanho até 2032, criando uma base de dados robusta sobre origem, sanidade e histórico dos animais.
Para a MSD, esse movimento reforça a importância de suas soluções.
“A tecnologia permite registrar toda a vida do animal. Isso aumenta a confiança do consumidor e abre mercados”, afirma Bolis.
Entre indústria e tecnologia
Ao dobrar sua receita no Brasil, a MSD não apenas cresceu, ela mudou de natureza.
A biofarmacêutica segue como base do negócio, mas a tecnologia avança como vetor de diferenciação e expansão. No modelo descrito por Bolis, trata-se de uma operação “ambidestra”: enquanto o core sustenta a receita, a inovação redefine o futuro.
“Não vendemos apenas medicamentos. Vendemos prevenção, bem-estar e produtividade”, diz.
A frase resume o reposicionamento e ajuda a explicar por que a companhia conseguiu crescer acima da média em um dos setores mais competitivos do agronegócio.