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segunda-feira, abril 20, 2026

Guerra assimétrica: a estratégia do Irã no confronto com os EUA – BBC News Brasil

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Guerra assimétrica: a estratégia do Irã no confronto com os EUA

Logo após os ataques dos Estados Unidos e de Israel, o Irã passou a adotar medidas estratégicas para responder à ofensiva. Em vez de ir para um confronto direto, o país decidiu investir em táticas com armamentos mais acessíveis e exploração de sua posição geográfica como vantagem estratégica.

Essa abordagem permitiu ao Irã prolongar o conflito por semanas, ao mesmo tempo em que aumentou a tensão internacional e provocou impactos no mercado global.

Essa estratégia adotada pelo Irã durante o conflito recebe o nome de ‘guerra assimétrica’, um conceito clássico da estratégia militar.

O termo descreve um conflito em que táticas e meios dos lados envolvidos não são equivalentes, ou seja, quando há profunda disparidade de objetivos e recursos.

Um dos exemplos mais conhecidos dessa lógica aparece na história bíblica de Davi e Golias.

De um lado, um pastor com recursos limitados; do outro, um guerreiro gigante, fortemente armado e protegido. Há, claramente, um desequilíbrio de forças.

Diante disso, Davi evita o tipo de combate para o qual Golias estava preparado. Em vez de se aproximar e lutar corpo a corpo, ele mantém distância e recorre a uma estratégia diferente: utiliza uma funda e pedras como arma.

O ataque é preciso. A pedra atinge a testa de Golias — a única parte de seu corpo que estava desprotegida. Ele cai no chão e o combate termina.

Do ponto de vista estratégico, a história de Davi e Golias funciona como uma metáfora clara da guerra assimétrica.

Davi não tentou ser mais forte que Golias. Em vez disso, foi mais imprevisível e explorou uma vulnerabilidade específica do adversário — um princípio que aparece repetidamente em conflitos reais.

Mas essa narrativa vai além da estratégia militar. Ao longo da história, a figura de “Davi contra Golias” tem sido reinterpretada e utilizada por diferentes lados em diversos conflitos. Em cada contexto, quem representa o “fraco” e quem representa o “forte” pode mudar.

Isso revela um outro campo de disputa: o da narrativa.

“A maior parte das vitórias em qualquer guerra é a vitória sobre a narrativa. É a narrativa onde você é a vítima, você é mais fraco, você que é um herói enfrentando situações totalmente fora da capacidade das pessoas normais”, explica a professora do Departamento de Relações Internacionais da PUC Minas Rashmi Singh.

Andrew Mack e a Guerra do Vietnã

O conceito moderno de guerra assimétrica foi formulado em 1975 pelo cientista político Andrew Mack. No artigo Why Big Nations Lose Small Wars — em português, Por que grandes nações perdem pequenas guerras — ele analisa a Guerra do Vietnã para explicar como forças aparentemente mais fracas podem derrotar potências militares.

Segundo Mack, os vietnamitas não tinham condições de vencer os Estados Unidos em um confronto militar direto. À época, havia mais de 500 mil soldados norte-americanos no país, com ampla superioridade aérea e tecnológica.

Ainda assim, tanto o Viet Cong quanto o Exército do Vietnã do Norte apostaram em outra estratégia: o domínio do território. Eles construíram uma extensa rede de túneis — com centenas de quilômetros — incluindo saídas camufladas, hospitais subterrâneos e rotas de suprimento.

Enquanto os Estados Unidos enfrentavam dificuldades por não conhecer o terreno, os combates aconteciam principalmente por meio de emboscadas.

É nesse contexto que Mack apresenta o conceito da “contradição do ocupante”: quanto mais tropas os EUA espalhavam para controlar o território, mais vulneráveis ficavam a ataques; quanto mais concentravam forças, mais áreas permaneciam desprotegidas.

Na prática, cada novo soldado enviado ao Vietnã ampliava o número de alvos possíveis. Criava-se, assim, uma armadilha estratégica difícil de superar. Para resolver esse dilema, seria necessário enviar ainda mais tropas — o que elevaria os custos humanos, militares e políticos da guerra.

Com o passar do tempo, o conflito também se tornou cada vez mais impopular dentro dos Estados Unidos. Para os vietnamitas, tratava-se de uma guerra de sobrevivência nacional. Já para os norte-americanos, era um conflito distante, sem ameaça direta ao seu território.

Para Mack, essa é a essência da guerra assimétrica: o lado mais fraco não precisa vencer no campo de batalha — precisa prolongar o conflito até desgastar a vontade política do adversário.

“Na guerra do Vietnã, as forças vietnamitas usaram estratégias e táticas de guerrilha, produziram uma guerra de desgaste e evitaram confrontos diretos com as forças dos Estados Unidos. O que aconteceu no final das contas é que os Estados Unidos venceram praticamente todas as batalhas — venceram taticamente. Mas perderam estrategicamente e politicamente”, afirma Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais na UFF e pesquisador em Harvard.

Um momento decisivo foi a Ofensiva do Tet. Durante essa operação, forças do Viet Cong lançaram ataques simultâneos em mais de cem cidades. Militarmente, a ofensiva foi um fracasso para o Viet Cong.

Mas as imagens, transmitidas ao vivo nas televisões americanas, destruíram a narrativa de que os EUA estavam vencendo a guerra.

O então conselheiro de segurança nacional Henry Kissinger resumiu a dinâmica do conflito: “o guerrilheiro vence se não perder; o exército convencional perde se não vencer”.

Em 1973, os Estados Unidos assinaram um acordo de paz e iniciaram a retirada de suas tropas. Dois anos depois, com a vitória do Vietnã do Norte, o país foi reunificado sob um regime comunista.

Guerra de Independência dos EUA

Muito antes do Vietnã, outro conflito já havia demonstrado por que a guerrilha é uma tática assimétrica por excelência: a Guerra de Independência dos Estados Unidos.

Naquele contexto, as milícias coloniais eram amplamente inferiores ao Exército Britânico em termos de treinamento, organização e equipamento — afinal, tratava-se de uma das forças militares mais poderosas do mundo na época.

Para conter a rebelião, os britânicos tentaram confiscar armas e prender lideranças locais. A estratégia, no entanto, fracassou. As forças coloniais, compostas em grande parte por agricultores, artesãos e civis com pouca formação militar, reagiram adotando táticas não convencionais.

Em vez de enfrentar diretamente o exército britânico em batalhas formais, esses combatentes passaram a agir de forma dispersa e imprevisível. Um oficial britânico chegou a descrevê-los como “american hornets” — um enxame de vespas que surge dos bosques, ataca rapidamente e desaparece em seguida.

Com o tempo, a Grã-Bretanha ainda possuía capacidade militar para continuar a guerra, mas enfrentava um problema crescente: a perda de apoio político e da opinião pública para sustentar um conflito distante, caro e sem perspectiva clara de vitória.

Esse ponto foi fundamental. Como destaca o historiador Max Boot no livro Invisible Armies, a Revolução Americana marcou uma mudança profunda na história das guerras de guerrilha.

A partir dali, tornou-se mais difícil para governos — especialmente aqueles com instituições representativas — manter guerras prolongadas sem respaldo popular. Essa vulnerabilidade política passaria a ser explorada, nos séculos seguintes, por diversos movimentos insurgentes ao redor do mundo.

A guerra assimétrica do século 21

Nos dois conflitos históricos — a Guerra do Vietnã e a Guerra de Independência dos Estados Unidos — o lado militarmente inferior evitou o confronto direto e apostou no desgaste do adversário.

É essa mesma lógica que analistas identificam hoje na atuação do Irã.

“A utilização do terreno nesse momento é o Estreito de Ormuz, é a geografia do Irã. O Irã nem busca o confronto no estreito. Ele busca apenas fechar o estreito para afetar a economia mundial, para elevar o custo da guerra, para fazer uma estratégia de dissuasão”, explica Brustolin.

Pelo estreito passa cerca de 20% do petróleo global e aproximadamente um quarto do gás natural liquefeito. Com a escalada do conflito, o número de embarcações que cruzam a rota caiu drasticamente — de cerca de 138 por dia para apenas cinco ou seis, uma redução próxima de 95%.

O impacto foi imediato: o preço do petróleo Brent, que girava em torno de US$ 71 dólares antes do início do conflito, ultrapassou os US$ 100, pressionando economias ao redor do mundo.

Nos Estados Unidos, os efeitos também foram sentidos. A alta nos combustíveis gerou preocupação entre a população e aumentou o custo político para o governo de Donald Trump.

O Pew Research Center aponta que 69% dos americanos estão preocupados com a alta da gasolina, enquanto 52% dizem que os EUA foram longe demais nesse conflito.

Diante disso, Trump anunciou na última semana um bloqueio naval aos portos iranianos, restringindo a circulação de embarcações.

“No começo, o Irã já sabe que precisa entrar nessa guerra com a mentalidade de uma guerra de desgaste. Eles precisam criar uma situação em que o conflito vai durar até os Estados Unidos e Israel chegarem no ponto de cansaço — e o Irã possa sair do conflito com pelo menos um pouco de poder de negociar”, afirma Rashmi.

No campo militar, essa assimetria também aparece nos custos, segundo Brustolin. Enquanto o Irã usa tecnologias mais baratas, como drones Shahed, os EUA respondem com sistemas muito mais caros.

“Um míssil Patriot vai custar até US$ 4 milhões, dependendo da sua configuração. Enquanto um drone Shahed vai custar de US$ 20 mil a 50 mil. Os drones não são lançados um de cada vez — eles são lançados em enxames. E logo depois, quando os mísseis Patriot acabam, o Irã aproveita para usar armas mais potentes, como mísseis de cruzeiro ou mísseis balísticos”, afirma o professor da UFF.

Além disso, Teerã atua por meio de aliados regionais. O Hezbollah trava confrontos com Israel, enquanto os Houthis ameaçam rotas no Mar Vermelho — outro ponto vital para o comércio global. Essa rede de “proxys” permite ampliar a pressão sem um confronto direto entre grandes potências.

Outro fator relevante é a própria estrutura interna do regime iraniano, que prevê múltiplos níveis de sucessão dentro da Guarda Revolucionária Iraniana, garantindo continuidade mesmo em caso de perdas na liderança. Segundo Brustolin, isso dificulta a desarticulação completa do sistema.

“O Irã se preparou para esse tipo de cenário durante 47 anos. Há grupos dentro do território iraniano que continuam os ataques mesmo sem ordens superiores, é uma escala de ataques que não passa diretamente por comunicações que podem ser interceptadas. O Irã também tem uma grande capacidade de substituição dos seus postos de comando.”

*Com reportagem de Luiz Antônio Araujo, de Porto Alegre para a BBC News Brasil.

[Fonte Original]

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