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domingo, abril 19, 2026

Crítica | Falando a Real – 3ª Temporada – Plano Crítico

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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Algumas raras séries, mesmo com elenco razoavelmente grande, conseguem trabalhar seus personagens de tal forma que nenhum deles parece ser coadjuvante. Até sitcoms que, em razão de sua estrutura, têm mais facilidade de dar importância que parece ser equivalente a todo mundo, por vezes mantém apenas o núcleo central mínimo em destaque, com coadjuvantes que somente gravitam ao redor, sem realmente darem a impressão de serem partes indissociáveis da narrativa. Falando a Real é uma dessas séries – que, como disse antes, não classifico como sitcom, mas sim como drama de ares cômicos, o que também não é uma dramédia para mim – que são capazes de ir além de seus protagonistas, trabalhando uma rede de personagens de apoio tão bem encaixados na narrativa que o espectador os enxerga como essenciais à trama. Se os psicólogos Paul, Jimmy e Gaby inegavelmente são o foco da série, imaginá-los sem Sean, Liz, Brian, Alice, Derek e também Summer, Julie, Louis, Derrick, Jorge e outros é uma tarefa que reputo impossível. E, por incrível que pareça, isso acontece também com personagens que só aparecem em uma temporada, como é o caso, aqui, de Randy (Jeff Daniels), pai de Jimmy e também de Gerry (Michael J. Fox), paciente com Parkinson que se torna amigo e paciente de Paul, além de servir como gatilho narrativo para uma nova fase na doença do terapeuta veterano.

Lidando com o alicerce temático sobre “seguir em frente”, a terceira temporada de Falando a Real tem toda a estrutura e ritmo de último capítulo da história, mesmo que já tenha havido a renovação para a quarta temporada, o que me deixa temeroso, mas que não adianta especular agora. O que interessa mesmo é que esse terceiro ano da série criada por Bill Lawrence, Jason Segel e Brett Goldstein lida os passos seguintes nas vidas de todos os personagens centrais, fazendo com que Paul encarando a aposentadoria em razão da progressão do Parkinson que o leva a ter alucinações esporádicas, além de tremores nas duas mãos, Jimmy precisando lidar com a perspectiva de solidão e sua incapacidade de se envolver romanticamente em razão do que ainda sente por sua esposa falecida, Gaby caminhando na direção de uma especialização em traumas sérios, mesmo com Paul considerando-a sua herdeira natural para a prática que deixa para trás e também contemplando a possibilidade de um compromisso mais sério com Derrick, Alice tomando uma decisão sobre seu futuro estudantil distante de seu lar lastreado por sua habilidade no futebol, Brian encarando de vez a paternidade, Sean progredindo em sua profissão de chefe de cozinha, o casal de vizinhos Liz e Derek tendo que escolher entre permanecer vivendo vidas vicariantes em relação a todos os seus amigos próximos ou partindo para aproveitar uma vida a dois no beiral da terceira idade e, finalmente, Louis, responsável pela morte da esposa de Jimmy, percebendo que seu futuro não está nos entes queridos da mulher que ele matou.

Apesar da aparente coincidência de situações que margeiam e mergulham no assunto central da temporada, nada parece forçado, nada faz o espectador pensar na improbabilidade de todas essas situações tematicamente paralelas acontecerem ao mesmo tempo, pois os roteiros da equipe criativa conseguem não só criar continuidade natural de desenvolvimento em relação a tudo o que vimos nas temporadas anteriores, como aborda cada núcleo e também o conjunto de núcleos, pois, na verdade, não há núcleos que possam ser classificados como separados na temporada, com fluidez e um equilíbrio preciso entre drama e humor, com direito a momentos absolutamente inesquecíveis como é ver Paul Rhoades entrar na sala comum de seu centro de terapia cantarolando a música tema da franquia Indiana Jones que consolidou Harrison Ford como o icônico ator que é ou como é ver a absolutamente tocante participação especial de Michael J. Fox basicamente como ele mesmo, uma vítima precoce de uma terrível doença debilitante. Cada linha narrativa, portanto, ganha atenção completa dos roteiros que nunca, em momento algum, diminuem ou facilitam os problemas e percalços que cada personagem precisa enfrentar, mas também jamais se entregando ao melodrama ou, pior ainda, a surpresas que não fazem sentido dentro da história.

Reparem, por exemplo, como Gaby, a mais extrovertida das personagens, é tragada para um conflito interno entre seguir no caminho turbulento do que quer se especializar ou no mais fácil que é simples descansar nos louros de seu mentor, algo que é amplificado pela morte – que, nas entrelinhas, fica evidente que foi por suicídio – de uma de suas pacientes que a deixa abalada, passando a duvidar de suas próprias habilidades como terapeuta. Paul e Liz estão presentes constantemente na vida de Gaby para ajudá-la em qualquer coisa que precise, com seu namorado Derrick mantendo-se a seu lado sem exigir absolutamente nada em troca, mas o que a série faz muito bem é justamente o que os melhores terapeutas fazem em sua profissão, ou seja, criar as condições para que seus pacientes encontrem, por si mesmos, os caminhos que precisam seguir. E é isso que destaca Falando a Real de tantas outras séries, por aí. Seus assuntos internos refletem sua temática ampla, com o conflito entre o que podemos chamar de “terapia tradicional” de Paul e Gaby e a terapia “inventada” por Jimmy que entrega a comida pronta no lugar de ensinar o paciente a cozinhar fazendo parte indelével da história e sendo abordada de frente, sem papas na língua.

Jimmy é, talvez, o caso mais complexo de todos, pois Paul tem a maturidade e a distância que lhe permitem ver com bastante clareza o que ele precisa fazer e Gaby, mesmo em sua juventude, parece ter um norte mais palpável, enquanto que o personagem de Jason Segel compreensivelmente sofre pelo trauma recente da perda da amada esposa agravado pela possibilidade real e imediata de ficar sozinho, perdendo Alice para a faculdade, Brian para a paternidade dele ao lado de Charlie, Paul para a aposentaria e Sean e Gaby para suas respectivas profissões. O caminho de Jimmy é tortuoso, hesitante, repleto de idas e vindas, de falsos começos, de indecisões e de, talvez, um profundo sentimento de inadequação de completa perda de sentido da vida que ele, porém, não manifesta por completo, o que torna ainda mais difícil o diagnóstico. A abordagem do personagem é, também, levemente errática, o que pode frustrar um pouco e, talvez até por isso, por diversas vezes ao longo da temporada é mantida em segundo plano, o que faz sentido para o que a série quer ser, mas que pode também deixar o espectador sentindo falta da presença mais constante de Segel.

Falando a Real chega ao que poderia muito bem ser seu fim sem perder nada da qualidade, da emoção, da comicidade, da melancolia e da seriedade que demonstrou desde a primeira temporada, abordando todos os seus personagens como se protagonistas fossem (e são, mas de seus pequenos núcleos). Todos os arcos de desenvolvimento chegam a fins mais do que satisfatórios que, no conjunto, lidam com diversos recortes do que a vida real de fato é, ou seja, uma sucessão inclemente de momentos alegres e tristes, vitoriosos e frustrantes, com ganhos e perdas quase nunca em dose iguais que precisam ser calibrados na mente de cada um, com ou sem a ajuda de um círculo composto de família e amigos ou até, eventualmente, de profissionais da área que, claro, são os grandes homenageados aqui. Falando a Real fala abertamente com o espectador e nos dá algumas ferramentas para encarar nossas vidas da melhor forma possível e isso é muito mais do que uma “simples” série de TV costuma oferecer. Agora é esperar para ver o que a quarta temporada será capaz de fazer considerando tudo o que foi magistralmente encerrado nessa temporada.

Falando a Real – 3ª Temporada (Shrinking – EUA, de 28 de janeiro a 08 de abril de 2026)
Criação: Bill Lawrence, Jason Segel, Brett Goldstein
Direção: Randall Keenan Winston, Zach Braff, Rebecca Asher, James Ponsoldt, Anu Valia
Roteiro: Brian Gallivan, Brett Goldstein, Bill Posley, Ashley Nicole Black, Sofi Selig,  CJ Hoke, Zack Bornstein, Emily Wilson, Rachna Fruchbom, Neil Goldman, Bill Lawrence
Elenco: Jason Segel, Harrison Ford, Jessica Williams, Luke Tennie, Michael Urie, Lukita Maxwell, Christa Miller, Ted McGinley, Brett Goldstein, Damon Wayans Jr., Devin Kawaoka, Wendie Malick, Lily Rabe, Rachel Stubington, Lilan Bowden, Kenajuan Bentley, Kimberly Condict, Jill Knox, Keith Powell, Gavin Lewis, Neil Flynn, Trey Santiago-Hudson, Amy Rosoff, Vernee Watson, Josh Hopkins, Markus Silbiger, Claudia Sulewski, Cobie Smulders, Nora Kirkpatrick, Matt Mitchell, Michael J. Fox, Isabella Gomez, Sherry Cola, Samuel Page, Jeff Daniels, Lisa Gilroy, Candice Bergen, Matt Jones, Meg DeLacy
Duração: 406 min. (11 episódios)



[Fonte Original]

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