O dólar fechou a quarta-feira (22) em queda, novamente conduzido pelo noticiário da guerra no Oriente Médio, depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, prorrogar indefinidamente o cessar-fogo com o Irã.
O dólar à vista encerrou o dia com variação negativa de 0,01%, cotado aos R$ 4,9736, o menor valor de fechamento registrado até agora em 2026.
No ano, a divisa passou a acumular queda de 9,39% ante o real.
Trump anunciou a extensão do cessar-fogo pelas redes sociais, embora não estivesse claro se o Irã ou Israel, o aliado dos EUA na guerra, concordariam com a trégua.
Por sua vez, o Irã capturou dois navios porta-contêineres que tentavam sair do Golfo Pérsico pelo Estreito de Ormuz nesta quarta-feira, depois de disparar contra eles e outra embarcação, nas primeiras apreensões iranianas desde o início da guerra.
Segundo o presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Baqer Qalibaf, um cessar-fogo completo só faria sentido se não fosse violado por bloqueio norte-americano aos portos iranianos.
Neste cenário ainda turbulento no Oriente Médio, o petróleo Brent voltou a superar os US$ 100 o barril e o dólar sustentava ganhos ante uma cesta de divisas fortes.
No Brasil, após marcar a cotação máxima de R$ 4,9914 (+0,35%) às 9h16, o dólar à vista atingiu a mínima de R$ 4,9550 (-0,39%) às 11h03, em mais uma sessão de oscilações em margens estreitas.
“A história sobre se sai ou não um acordo entre EUA e Irã pegou para os dois lados hoje: uma hora o dólar subiu, outra ele caiu, mas sempre em margens estreitas”, comentou à tarde o diretor da Correparti Corretora, Jefferson Rugik, que vê espaço para uma queda adicional das cotações.
“(Caso seja) resolvida essa guerra, a tendência é de dólar um pouco mais para baixo, porque voltará o fluxo externo, a arbitragem”, disse.
Para o economista-chefe do Banco Pine, Cristiano Oliveira, “o Brasil tem se destacado como destino de alocação em um ambiente geopolítico global incerto e fragmentado”.
“Esse pano de fundo reforça nossa visão de continuidade da tendência de apreciação do real no curto e médio prazos, mas em ritmo mais moderado”, acrescentou em análise escrita.
Petróleo
Os preços do petróleo subiram mais de US$ 3, depois de uma surpreendente queda nos estoques de gasolina e outros combustíveis nos Estados Unidos, e de relatos de ataques a tiros contra pelo menos três navios porta-contêineres no Estreito de Ormuz, em meio à falta de progresso nas negociações de paz entre os EUA e o Irã.
Os contratos futuros do petróleo Brent fecharam com alta de US$ 3,43, ou 3,48%, a US$ 101,91 por barril. Os futuros do West Texas Intermediate subiram US$ 3,29, ou 3,67%, a US$ 92,96. Ambos os contratos de referência subiram cerca de 3% na terça-feira.
Na máxima da sessão, os futuros do petróleo dos EUA subiram mais de US$4 por barril.
Os estoques de petróleo dos EUA aumentaram, enquanto os estoques de gasolina e refinados registraram uma queda surpreendente na semana encerrada em 17 de abril, informou a Administração de Informação sobre Energia.
Os estoques de petróleo aumentaram em 1,9 milhão de barris, para 465,7 milhões de barris, enquanto os estoques de gasolina dos EUA caíram em 4,6 milhões de barris, para 228,4 milhões de barris, em comparação com as expectativas dos analistas em uma pesquisa da Reuters para uma queda de 1,5 milhão de barris.
Os estoques de refinados caíram em 3,4 milhões de barris na semana, para 108,1 milhões de barris, em comparação com as expectativas de uma queda de 2,5 milhões de barris, mostraram os dados da AIE.
Pelo menos três navios porta-contêineres foram atingidos por tiros no Estreito de Ormuz nesta quarta-feira. A Marinha da Guarda Revolucionária do Irã apreendeu dois navios pelo que descreveu como violações marítimas e os transferiu para a costa iraniana, informou a agência de notícias semi-oficial Tasnim.
O Irã e os EUA impuseram restrições aos navios que utilizam o estreito, que transportava cerca de 20% dos suprimentos globais de petróleo e gás natural liquefeito até o início da guerra no final de fevereiro.
Ibovespa
O Ibovespa fechou em queda, reflexo de movimentos de realização de lucro e reprecificação de risco, com as ações dos bancos entre as principais pressões negativas.
Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa recuou 1,65%, a 192.888,96 pontos, após marcar 192.687,29 na mínima e 196.132,06 na máxima do dia.
O volume financeiro somou R$ 26,59 bilhões.
Na visão do responsável pela área de renda variável da Criteria, Thiago Pedroso, há um efeito do ajuste ao movimento dos ADRs brasileiros na véspera, quando a B3 não abriu por feriado, mas Wall Street funcionou normalmente.
“Mas ele sozinho não justifica o movimento”, ponderou, acrescentando que o Ibovespa “esticou bem”, principalmente as bluechips. Mesmo com o ajuste negativo nesta sessão, o Ibovespa ainda acumula alta de 19,71% no ano. Em abril, valoriza-se 2,90%.
“Parece uma correção normal, e possivelmente com algum nível de saída de estrangeiro”, acrescentou Pedroso.
Números da B3 mostram saída líquida de capital externo da bolsa paulista no final da semana passada. Até o dia 15, abril registrava uma entrada líquida de R$14,6 bilhões. No acumulado até o dia 17, esse saldo passou para R$11,5 bilhões.
Para o analista Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, a bolsa também refletiu uma reprecificação mais estrutural de risco, com o Brasil descolando do exterior e reagindo a fatores próprios, principalmente juros e percepção fiscal.
“A alta do petróleo, impulsionada pela instabilidade geopolítica, recoloca pressão inflacionária no cenário global e contamina diretamente a curva de juros, o que explica a queda mais intensa em bancos e ativos domésticos”, pontuou.
Lima destacou que as ações da Petrobras acabaram funcionando como amortecedor pontual, refletindo o ciclo da commodity, mas sem força para alterar a direção do índice.
“No fundo, o mercado começa a migrar de um cenário de corte de juros para um ambiente de maior cautela, com inflação mais resiliente, prêmio de risco mais alto e impacto direto sobre o crescimento.”