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quarta-feira, abril 29, 2026

Papel do Brasil no xadrez global dos minerais críticos requer estratégia clara

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O Brasil assumiu papel relevante na disputa global de minerais estratégicos e críticos. As grandes reservas do país de produtos essenciais para a segurança de suprimentos e soberania tecnológica no novo cenário geopolítico – onde China e Estados Unidos travam queda de braço para garantir domínio de minerais fundamentais para defesa, transição energética e inteligência artificial- passam a ser alvo de interesse de grandes potências. Exemplo recente foi a compra da mineradora Serra Verde, em Goiás – única fora da Ásia a produzir em escala os quatro elementos magnéticos essenciais de terras raras – pela USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões, financiada com apoio do governo americano.

A operação esquentou o debate em torno do papel do Brasil nesse jogo de gente grande. O país será mero fornecedor de matéria-prima ou membro do grupo de protagonistas da economia do futuro? A decisão poderá definir o novo modelo de desenvolvimento nacional. Minerais críticos e estratégicos são o “novo petróleo”.

A questão é fundamental nesse momento de reconfiguração das cadeias globais de minério; terras raras são insumos para veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas militares. De acordo com Rafaela Guedes, CEO da RG.Impact e consultora do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), países consumidores estão numa corrida para diversificar suas fontes de modo a reduzir a dependência dos principais fornecedores mundiais, China e Rússia.

Hoje, a China produz 70% das terras raras do mundo, 79% da grafita natural, resultado de décadas de planejamento e investimento. A posição chinesa levou o país à liderança em tecnologias de energia limpa e segurança militar e de ímãs, componentes essenciais em radares, mísseis e drones. “Hoje a China monopoliza esse mercado e o mundo busca alternativas. O Brasil reúne condições de se posicionar como um player competitivo”, diz Frederico Bedran, diretor executivo da Associação de Minerais Críticos (AMC).

Terras raras são um conjunto de 17 elementos minerais que, apesar do nome, não são escassos. O problema reside na dificuldade de extração, separação e processamento industrial, que exigem tecnologia avançada para virar matéria-prima utilizável para produção de ímãs. O Brasil, segundo Pablo Cesário, diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), tem reservas substanciais de boa parte dos minerais críticos e pode ser considerado um parceiro estratégico no cenário global.

A posição do governo é clara nesse sentido. Durante sua visita à Hannover, em abril, o presidente Lula assinou com o governo alemão declaração conjunta de intenções para ampliar a cooperação científica e tecnológica na área de minerais críticos e estratégicos. Na ocasião, Lula declarou que o Brasil não será mero exportador de commodities. A prioridade é atrair cadeias de processamento em setores intensivos em tecnologia.

A questão é que o país ainda não tem diretrizes claras que reúnam exploração minerais críticos, política industrial e estratégia geopolítica. Enquanto uma ala do governo defende a criação de uma estatal para desenvolver o setor, a Terrabras, empresas e especialistas consideram necessária uma estratégia de mercado, com incentivos para gerar competitividade aos produtores brasileiros.

“O Brasil precisa definir sua política para terras raras e efetivá-la, não adianta ficar só no discurso”, diz o consultor Afonso Sartorio, da EY. “Países com reservas relevantes, como Austrália, Canadá e Argentina estão mais avançados em suas regulações da atividade”, afirma. Para Sartorio, a indústria de terras raras é nascente e precisa de apoio governamental. Bedran, da AMC, defende a criação de mecanismos de financiamento e incentivos fiscais para agregar valor ao minério extraído no país até a indústria completar sua curva de aprendizagem.

Tramita na Câmara projeto de Lei (PL 2780/24), cujo relator é Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), com votação prevista para maio. A partir dessa definição, o Brasil poderá executar uma política setorial. Até porque, apesar de ter os recursos, a produção de alguns minérios ainda é muito baixa no território nacional. Apenas 27% estão mapeados geologicamente. No Canadá e na Austrália o mapeamento mineral é de 99%. Os exemplos desses dois países mostram que recursos minerais só geram desenvolvimento quando acompanhados de visão estratégica e ação coordenada.

“No curto prazo, o mais importante para o Brasil é fazer exploração mineral competitiva, porque apesar de termos a segunda maior reserva global de terras raras, o Brasil não produz nem 1%, e com investimento estrangeiro. Temos que avançar para além do minério bruto, conseguir refinar o mineral e a médio e longo prazos termos uma presença maior em componentes com densidade tecnológica. Não adianta acharmos que faremos um salto quântico, da jazida para uma manufatura sofisticada. Não temos esse avanço tecnológico”, diz a pesquisadora do Cebri, uma das autoras de estudo que apoiará o Plano Nacional de Terras Raras do Ministério de Minas e Energia.

“Há oportunidade grande de ser não apenas um fornecedor, mas de se tornar uma plataforma do mercado globalmente”, diz Cesário, do Ibram, citando pesquisa de 2026 do Frazer Instituto, do Canadá, mostrando que o Brasil saltou da 56ª para a 19ª posição na atratividade de investimento. A notícia é boa, mas demanda ações. “Precisamos avançar em tecnologia”, diz Cesário.

Para Lucas Barros, pesquisador do Cenergia da Coppe/UFRJ – instituição que integra centro internacional de ponta na Missão Nacional de Minerais Críticos (NCMM), na Índia – é preciso garantir que parte da captura de valor da exploração e refino de minério ocorra no Brasil. “Os Estados Unidos adotaram estratégia para reduzir a dependência chinesa, levando para solo americano ou para países parceiros o domínio hoje da China. O Brasil precisa construir uma estratégia para traduzir esse potencial em vantagem competitiva”, diz. É possível, e um bom exemplo está na tecnologia de ponta desenvolvida para exploração do pré-sal.

[Fonte Original]

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