Depois do divertido, mas infelizmente curto one-shot Tio Patinhas e a Moedinha do Infinito, de 2024, que marcou a estreia dos personagens da Disney na Marvel Comics, Jason Aaron retorna ao pato mais sovina e quaquilionário do mundo – que Patacôncio não me ouça! – para uma segunda aventura, desta vez na forma de uma minissérie em quatro edições que, como na HQ original, tem como título algo que faz referência direta à mitologia dos super-heróis da editora, desta vez aos Vingadores. O conceito é justamente esse, ou seja, de trazer conceitos da Marvel para essas histórias, com as joias do infinito tendo aberto oportunidades multiversais anteriormente e, agora, uma invasão alienígena dos Connoisseurs (termo em francês que significa “Conhecedores”, mas naturalmente de um jeito bem mais pomposo e esnobe simplesmente por ser em francês, n’est-ce pas?), que colecionam tudo de valioso que a Terra tem, permite ação tanto no mundo real, protagonizada pelos Escoteiros Mirins e pelo Pato Donald, quanto na mente do Tio Patinhas que é bem-sucedido em esconder sua fortuna, tendo seu inconsciente investigado pelo vilões para descobrir o paradeiro dos milhões de metros cúbicos de moedinhas de ouro.
Não sem querer, porém, o efeito do mergulho na mente de Patinhas funciona de maneira muito semelhante ao multiverso, já que ele, por lá, na medida em que suas memórias são apagadas pelos alienígenas que o mantêm preso em uma maca e ligado a diversos aparelhos por três anos, alia-se a versões dele mesmo em outros momentos de sua vida, seja o Patinhas criança engraxate que recebe a famosa Moedinha Número 1, o Patinhas minerador na região do Klondike, com direito à seu amor Dora Cintilante, o Patinhas vaqueiro no meio-oeste americano, o Patinhas cavaleiro medieval na Escócia ou o Patinhas marinheiro, criando uma pequena equipe que tenta desvencilhar-se do controle dos Connoisseurs e enfrentar seu exército de robôs movidos – sim, vocês adivinharam – por moedinhas. Em outras palavras, é o “multiverso sem ser o multiverso”, o que acaba sendo uma repetição temática de Aaron, mas que é perdoável por ser muito bom ver as versões de outras eras do Tio Patinhas criadas principalmente pelos grandes Carl Barks e Don Rosa.

No mundo real, que é relativamente pouco explorado e que merecia mais espaço, os astros são os Escoteiros Mirins pilotando uma versão modificada pelo Professor Pardal do carro de Donald, com direito até a turbina que o faz voar e, claro, o próprio Donald, escrito como bem mais corajoso do que de costume. Curiosamente, Gastão é usado como um simpatizante, por assim dizer, dos invasores alienígenas, obedecendo suas ordens por quase todo o tempo, algo que, de certa forma, combina mesmo com o personagem ou, pelo menos, diversas das abordagens menos do que simpáticas a que ele é sujeito nas HQs. Claro que há convergência entre as duas histórias, especialmente na última edição, mas o espaço dado ao subconsciente do Tio Patinhas é muito mais relevante e interessante do que as aventuras do lado de fora, com a resolução, mesmo considerando as quatro edições, parecendo um tanto quanto corrida demais, o que poderia ter sido evitado com um pouco mais de equilíbrio ou, claro, o aumento no número de edições, o que seria minha preferência.
Como aconteceu no one-shot, a equipe artística é realmente uma equipe, só que, aqui, multiplicada por quatro, com cada edição contando com um grupo normalmente composto por diversos talentosos italianos, mas também o austríaco Mahmud Asrar, os americanos Adam Kubert e Pete Woods e o croata Esad T. Ribić, com direito ao italiano Gabriele Dell’Otto nas capas principais. Como as equipes são usadas de maneira intercalar em cada edição, normalmente com cada uma focando em um “momento” da história, como por exemplo no mundo real e na mente de Patinhas, com a mente do protagonista subdividindo-se nos vários momentos de sua vida que ele revive, as transições acabam sendo lógicas e bem-vindas, com os estilos variados criando oportunidades para páginas belíssimas que recheiam a minissérie com diversas referências ao passado de Patinhas e aos dois citados artistas que sedimentaram o personagem no imaginário popular. O leitor, portanto, deve estar preparado para ver artes diferentes, com os estilos de cada um preservados, mas que mesmo assim levam a um resultado final muito bonito.
Tio Patinhas: O Pato Mais Poderoso da Terra é mais um acerto de Jason Aaron à frente do querido personagem, com uma aventura de escala mundial e até galáctica que consegue conectar muito bem – e de forma até emocionante – a fortuna de Patinhas com suas memórias. Tenho para mim que a Marvel Comics deveriam dar mais espaço a outros roteiristas para escrever os personagens e até mesmo tentar não “marvelizar” tanto as histórias para ver o que acontece. Há, sem dúvida alguma, uma riqueza de material que pode e deve ser explorado somente pensando na Família Pato, mas também indo além. Quem sabe não teremos uma bela aventura clássica, mas ao mesmo tempo moderna, por outros grandes nomes da editora sem que seja necessário recorrer a elementos típicos da Marvel para isso, hein?
Tio Patinhas: O Pato Mais Poderoso da Terra (Uncle Scrooge: Earth’s Mightiest Duck – EUA, 2025)
Contendo: Uncle Scrooge: Earth’s Mightiest Duck #1 a 4
Roteiro: Jason Aaron
Arte:
Edição #1: Mahmud Asrar, Ciro Cangialosi, Giuseppe Cammuncoli, Daniele Orlandini
Edição #2: Ario Anindito, Esad Ribic, Pete Woods, Nick Bradshaw, Mirka Andolfo
Edição #3: Adam Kubert, Claudio Sciarrone, David Lafuente
Edição #4: Lorenzo Pastrovicchio, Alessandro Pastrovicchio, Andrea Freccero, Giuseppe Cammuncoli, Daniele Orlandini, Dale Eaglesham
Cores: Arianna Consonni
Letras: Joe Caramagna
Designer gráfico: Stacie Zucker
Capas principais: Gabriele Dell’Otto
Editoria: Stefano Ambrosio, Carlotta Quattrocolo (Disney); Lauren Amaro, Mark Paniccia, C.B. Cebulski (Marvel)
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: 13 de agosto, 17 de setembro, 22 de outubro e 26 de novembro de 2025; 29 de abril de 2026 (encadernado)
Páginas : 112