O conflito no Oriente Médio deixou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com menos força nas negociações com a China. Os ataques no Irã aconteceram num momento delicado da relação entre os dois países. Um encontro bilateral estava agendado para o fim de março, quando Trump era esperado em Pequim. Com a crise gerada pelos ataques no Irã, o americano pediu o adiamento da reunião, que foi remarcada para maio.
O encontro de chefes de Estado deveria pavimentar o caminho para uma trégua na guerra comercial neste ano, depois que Xi Jinping e Trump anunciaram concessões no último encontro dos dois, em Busan, na Coreia do Sul, em outubro do ano passado. Agora, tudo está sendo reavaliado.
Trump enfrenta pressão doméstica com a alta da inflação causada pela valorização do petróleo e está mais isolado internacionalmente após ter afastado os aliados históricos, que agora relutam em se envolver no esforço de guerra. Ele precisa de uma vitória simbólica no plano externo. Mas estará enfraquecido para negociar com os chineses, que poderão exigir tarifas menores e fazer menos concessões na liberação de terras raras. A supremacia dos minerais críticos na área da defesa é um dos trunfos que podem ser explorados pelo gigante asiático.
A China está sendo mais prudente do que o esperado no conflito. Esta é a avaliação de François Godement, conselheiro especial do Instituto Montaigne, think tank baseado em Paris, e ex-consultor do Ministério dos Negócios Estrangeiros da França.
O país asiático foi um dos mais prejudicados com o bloqueio do Estreito de Ormuz, perdendo temporariamente um dos seus grandes fornecedores de petróleo. O governo de Teerã ainda era um parceiro preferencial na compra de armas.
A atitude cautelosa faz parte da estratégia do governo chinês. Xi Jinping já havia mostrado comedimento diante da intervenção americana em seus outros aliados, mas no Irã esse cuidado tem sido ainda maior. Uma explicação para essa atitude, apesar das condenações públicas de Pequim aos ataques, é que a região é sensível para os interesses do país.
A China precisa mostrar equilíbrio em seus interesses comerciais, diplomáticos e militares com as outras nações do Golfo Pérsico, especialmente com a Arábia Saudita, que tem um papel econômico mais importante do que o país persa. Em outras palavras, a China critica a hegemonia americana e procura garantir ser uma exceção no fornecimento de petróleo, mas presta atenção nos países da região que são ameaçados pelo Irã.
O caos trazido pelo presidente americano em pouco mais de um ano tem ajudado a China no cenário internacional. Colocou o país na posição de polo de estabilidade e continuidade global e reforçou sua posição de grande defensora do livre-comércio. Mas é prematuro dizer se o abalo geopolítico que pode gerar uma nova realidade no Oriente Médio tornará o país de Xi Jinping um player tão poderoso como seu rival americano.
Uma das razões é que a China é um negociador duro com os seus parceiros comerciais e, como mostram os exemplos recentes de Venezuela, Cuba e do próprio Irã, ela se abstém de intervir em caso de conflito. O país não firma alianças militares com os parceiros, nem com a Rússia, lembra Godement.
Iniciativas ousadas e ambiciosas no plano comercial e econômico são a via para ampliar a presença internacional chinesa. A mais famosa é o Cinturão e Rota, com contratos de construção que já totalizaram US$ 213,5 bilhões. O Brasil não é signatário dessa iniciativa, apesar de receber recursos vultosos. Mesmo assim, o alcance dessas ações ainda suscita dúvidas.
“No aspecto financeiro, os juros que a China cobra para os países em desenvolvimento são frequentemente muito altos. Há propósitos políticos e estratégicos, mas muitas vezes não se concretizam”, relativiza Godement.
Passa pela estratégia da China também fortalecer o chamado Sul Global, no qual o grupo dos Brics tem papel essencial. “Brasil e China têm interesses comuns, mas esse grupo não consegue se aprofundar em negociações que envolvem temas econômicos, comerciais, militares e estratégicos”, avalia o especialista.
O Sul Global também tem dificuldades de se coordenar por causa da concorrência comercial que outros países sofrem da China. Segundo Godement, nas economias do Sudeste Asiático, em particular, alguns setores foram devastados pelas exportações chinesas. A Turquia também sofre. E há problemas com parceiros estratégicos, como a Índia.
Em fevereiro, Xi Jinping defendeu que o yuan se tornasse uma moeda de reserva global para confrontar o dólar. Mas esse objetivo estratégico ainda é visto com desconfiança. “Para ter uma divisa mundial é preciso emprestar. E a China praticamente não empresta. É necessário ter liberdade de capitais, algo que a China nunca implantou”, diz Godement.
Com a Europa, as tensões devem se ampliar, segundo o especialista. “Está havendo um tsunami de exportações, e isso vai causar em algum momento uma reação forte. Até o momento a China está conseguindo contar com a falta de união de seus parceiros. Em particular, por causa das políticas tarifárias de Donald Trump em relação ao mundo inteiro.”