Empresas iranianas começaram a demitir em massa nas últimas semanas devido ao prejuízo econômico crescente causado pela guerra com os Estados Unidos e Israel, noticiou o New York Times.
Parte do problema decorre de decisões do próprio governo iraniano, como a restrição à internet, que impossibilitou as operações de várias empresas. Os EUA também estão conduzindo um bloqueio naval de embarcações com escala no Irã, numa tentativa de pressionar o país a negociar.
O presidente dos EUA, Donald Trump, cita abertamente a estratégia de pressão econômica. “Espero que quebre”, disse ele neste mês sobre a economia do Irã. “Sabe por quê? Porque eu quero vencer.”
Antes da guerra, a economia iraniana já enfrentava anos de sanções, corrupção enraizada e má administração. Tudo isso provocou uma profunda desvalorização da moeda nacional, o rial. Os novos bombardeios dos EUA e de Israel agravaram ainda mais a situação ao atingir fábricas e infraestruturas importantes, gerando escassez de matéria-prima.
O descontentamento econômico já provocou repetidos protestos no Irã ao longo da última década, incluindo manifestações nacionais que começaram em dezembro, à medida que a moeda sofria uma hiperdesvalorização. Os protestos foram reprimidos violentamente pelo governo.
Uma autoridade citada pela Tasnim News Agency, uma agência de notícias semioficial iraniana, calcula que 1 milhão de pessoas já perderam o emprego por causa da guerra, com as demissões afetando até 2 milhões de pessoas direta e indiretamente. O número de currículos enviados a um site iraniano de empregos chegou a 318 mil apenas em 25 de abril, um total 50% maior que o recorde anterior de currículos apresentados num único dia, segundo o site Asr Iran.
O orçamento governamental, proposto no ano passado, já previa uma redução substancial dos gastos públicos por causa da inflação. Para cobrir o déficit, o governo havia proposto impostos mais altos, que agora devem ser neutralizados pelo mau desempenho do setor privado.
A indústria de tecnologia do Irã, antes símbolo do potencial do país, foi praticamente destruída por um apagão draconiano de internet imposto pelo governo. O chefe de uma associação do setor calcula que a interrupção da internet está custando ao Irã até US$ 80 milhões por dia em perdas diretas e indiretas.
A Digikala, conhecida como a Amazon do Irã e principal empresa de tecnologia do país, já demitiu 3% de sua equipe, o equivalente a 200 pessoas. Outra empresa, a Kamva, anunciou no mês passado que encerrará suas atividades.
Uma tecelagem no oeste do Irã demitiu 700 de seus 800 trabalhadores, segundo a Agência de Notícias Trabalhistas do Irã, um veículo semioficial, que também informou que outra fábrica no norte do país dispensou 500 funcionários.
Mesmo fabricantes que não anunciaram demissões formais estão, na prática, paralisados. As empresas se mantêm abertas apenas nominalmente e produzem pouco, relataram líderes sindicais à Agência de Notícias Trabalhistas do Irã.
Mehdi Bostanchi, chefe do Conselho de Coordenação das Indústrias do país — órgão que atua como intermediário entre empresas e governo — afirmou que o setor industrial iraniano atravessa uma retração que poderá afetar até 3,5 milhões de trabalhadores.
“Nesta situação, ao contrário dos períodos clássicos de recessão, a queda no emprego é menos visível nas estatísticas oficiais e se manifesta por meio da não renovação de contratos, da redução das horas de trabalho e de licenças forçadas”, disse Bostanchi ao NYT.
Em alguns momentos, os esforços do governo para enfrentar a crise econômica acabaram aumentando a pressão sobre as empresas. Em março, o governo anunciou um aumento de 60% no salário mínimo do Irã para manter os salários alinhados à inflação galopante do país.
Em vez disso, isso “criou um choque na economia”, disse Nima Namdari, diretor-executivo da empresa de vendas online de carros Karnameh. “Como resultado, a onda de demissões se intensificou.”